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Home do Gallacci FAU USP turma de 1980 Literatura  A dentadura e a literatura do decote
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A dentadura e a literatura do decote

-Rodrigues? Que cara é essa? – perguntou Alex Fontes, ao ver o amigo chegar cabisbaixo e macambúzio.
-Ah, Alex... – falou o ator canastrão, tristonho, entrando em casa – ... não queira nem saber a situação constrangedora que acabei de passar...
-Mas o que foi? – indagou o cineasta, preocupado.
Rodrigues se sentou num dos sofás do Editore, olhou o amigo e suspirou.
-Meus dentes caíram. Na hora “h”. Dei um suspiro e a dentadura... puft. Se foi.
-O quê? – assustou-se Alex, tapando a boca para não cair na risada.
-Você ouviu, Alex – Rodrigues olhou fundo para Alex, desesperado. Passou a mão nos cabelos e desabafou – Mas vou repetir: meus dentes caíram na hora agá. Sobre os lençóis. E... ela me olhou e eu... eu... – o ator tapou o rosto, envergonhado – Você não imagina. Tsc.
-E... com quem você estava, Rodrigues? – perguntou cautelosamente o amigo – Quem é... ela?
-Ora. Uma das minhas tetéias prediletas, a Vivinha. Sabe aquela morena, bonita? Aquela alta, que tem olhos verdes e que colocou agora aqueles peitos redondinhos e roliços que...
-Para, JR! Eu estou cansado de saber quem é a tua Vivinha, estou cansado de saber quem é a tua Paty, a Selminha, a Tatiane e a Tatiana, a Paulete, a Alicinha, a Sussu, a Sivanira, a Marilena, a Amelinha e o caramba a quatro! Todas sempre são lindas, gostosas e deslumbrantes, só que eu que nunca consigo nenhuma delas!
O ator olhou sério e triste para Alex Fontes.
-Não estamos discutindo seus problemas, Alex. Até podemos fazer isso. Depois. Eu...
-Ah. Desculpe – falou Alex, devagar – Me conte o que houve.
-Não há o que contar. É muito constrangedor passar por isso. Preferia broxar, acho que seria menos vexaminoso. Juro! Preferia um milhão de coisas. Ter furúnculos. Hemorróidas. Perebas. Ser careca! Qualquer coisa! – falou JR Rodrigues, olhando melancolicamente para o belíssimo mar azul que a janela da sala emoldurava.
Alex Fontes não sabia o que falar. Tentava consolar o amigo, mas tinha medo de rir. E sabia que se ele risse, JR ia se sentir muito pior.
-O que acha que posso fazer? – perguntou o ator – Você sabe muito bem que, na minha idade, dentes não nascem de novo!
-Não tenho a mínima idéia, JR. Mas você reclama de barriga cheia, não entendo! Tem todas as mulheres que quiser na hora que quiser, é um homem lindo, saudável, e...
JR o interrompeu, irritado com os elogios.
-Eu preciso de dentes, pô! Quem pode me ajudar?
Alex Fontes olhou o amigo.
-Para resolver um problema desses, só me vem na cabeça uma pessoa, JR.
-Quem? – perguntou JR, ansioso.
-O Dr. Charles! O médico francês, aquele amigo do Conde Ribolla. Lembra-se dele? O homem é um gênio, faz descobertas fenomenais, é um pesquisador simplesmente brilhante! – exclamou Alex, do alto de sua sabedoria – Mas ninguém o reconhece por causa da bebida. Hahaha, nenhuma comunidade científica do mundo reconheceria o Dr. Charles como cientista, nem tampouco ouviriam sobre suas pesquisas. O homem nunca consegue fazer um quatro! É um beberão inveterado, você sabe!
-Isso! Mas ele é um gênio mesmo! – exclamou JR, animado – Lembra-se do vinho 6996? Eu ainda tenho um restinho na minha garrafa. Meu maior tesouro, quebra o maior galho, vez ou outra... Como não pensei nisso antes?
-Pois então, JR! Fale com ele! – Alex Fontes cochichou – Olha, vou te contar uma coisa. Proponha e financie uma pesquisa feita pelo Dr. Charles. Tenho certeza que ele encontrará uma fórmula para você recuperar os dentes – Alex Fontes passou a falar e andar pela sala, animado – Traga-o para cá, JR, tire-o do Castelo na Itália e traga-o para cá! O homem está falido naquele Castelo caquético e despencado, vivendo as custas das migalhas que lhe dá o Conde. Proponha esse desafio a ele: que ele faça surgir dentes novos na sua boca!
Rodrigues olhava Alex boquiaberto. Como se sentia satisfeito de ser amigo de Alex. Que homem inteligente, astuto e articulado nas suas idéias. É claro que ele deveria chamar Charles. Um homem que criou uma fórmula como a 6996, que era capaz de levantar pintos já desenganados como ele, claro que seria capaz de fazer crescer novos dentes em qualquer um. Como não pensou nisso antes?
Rodrigues levantou-se da cadeira e abraçou Alex, comovido.
-Meu grande amigo! Que idéia deslumbrante! Sim, sim, falarei já com o Dr. Charles! Maravilha de idéia! Me jogarei nessa pesquisa! Investirei todo meu dinheiro! Claro!
Alex, que era bastante avesso à manifestações de emotividade e carência por parte de homens, gelou ao ser abraçado e beijado pelo ator canastrão. Mas entendia o sofrimento de JR. Realmente deveria ser muito complicado para um homem não ter nenhum dente na boca.
JR se levantou, sorrindo feliz com sua dentadura, tropeçou em duas camas e em um sofá e foi direto para o computador para mandar uma mensagem para o médico. Sim, Charles ia resolver a vida dele, ele ia ter dentes, ele cantarolou. Olhou Alex de longe na sala e deu um tchauzinho para o cineasta.
E quem sabe, quem sabe mesmo se, com dentes verdadeiros, ele poderia ser convidado para fazer um filme com... o próprio Alex Fontes?
Alex era um cineasta intelectual. Um homem cheio de cultura, que já tinha dirigido diversos filmes de arte e ganho muito prêmios de cinema no Brasil e até em Cannes. O sonho de JR, um ator popular, era fazer um filme com Alex, mas o amigo nunca tocara no assunto, apesar de todas as indiretas de JR. Obviamente que Alex Fontes percebia os pedidos de JR, mas disfarçava para não ter que dizer não. Jamais contrataria o amigo para um dos seus filmes. Não porque não gostasse dele, afinal amigo é sempre amigo, pensava, mas porque JR acabaria com o filme por causa da sua falta de talento para representar. E era impossível dizer a ele que seu problema era apenas falta total de talento.
JR esforçava-se para parecer sério e para tentar se encaixar num dos papéis, mas a coisa não ia adiante: Alex sempre desconversava. Como o ator canastrão nunca imaginara que pudesse ser canastrão (afinal era ídolo popular, famoso e tão lindo como o R. Gianechinni), achava que o cineasta não o chamava por causa dos seus dentes. Que mais poderia ser?
O ator berrou de dentro do escritório.
-Alex, você tem o e-mail do Charles? Hein? Eu não encontro!
-Não, não tenho! – gritou o cineasta – Mas pergunte ao meu irmão! Ele deve ter! Ele está tomando sol lá no terraço!
-Droga... – falou JR, baixinho.
JR suspirou e foi até o terraço, no andar superior da cobertura. Antipatizara com o irmão de Alex Fontes desde que ele chegou ao Brasil. “Que homem chato”, pensou JR no primeiro dia que o viu. Já haviam se passado dois meses e ele e o Editore não se bicavam de modo algum. Os dois não tinham nada em comum, nenhum fazia esforço algum para agradar o outro e ambos faziam de todas as atividades comuns dentro da casa uma disputa.
Alex notara que seu irmão e JR brigavam e implicavam um com o outro o tempo todo, mas evitava falar sobre o assunto. Até a semana anterior, os dois se suportavam mutuamente com certa parcimônia, mas tiveram uma grande briga. JR percebeu que o Editore estava dando em cima de uma das suas “amigas”. O ator canastrão ficou furioso. Como aquele italiano de meia tigela ousava cantar uma das suas “tetéias”?
JR flagrou os dois na sala, em um dos sofás. Não agüentou e avançou selvagelmente sobre o homem. Deu o maior escândalo, assustando a moça e acabou segurando o Editore pelo pescoço. Começou a berrar e a gritar sem motivo aparente, apenas ciúme. Não que JR tivesse alguma coisa especial por aquela amiga, mas ela era dele, e as suas tetéias eram sua propriedade. Onde que já se viu esse filho da mãe...
-Ci...Ci...Cíntia, é você? – JR olhou boquiaberto para a moça agarrada ao Editore no sofá – Cíntia Pernambuco, é você mês-ma?
-Errr... boa noite, Ro... – falou a moça, com voz trêmula, envergonhada – eu não sabia que você ia chegar agora e...
-Cíntia! Desde quando você me trai... dentro da minha casa? – esbravejou o ator, que estava furioso com o novo hóspede e se recusava a olhar para ele.
-Eu, eu... – falou a moça correndo para o banheiro para se vestir e se arrumar – JR querido, espere que eu vou colocar uma blusa e...
O ator canastrão olhou a moça correr para longe dali e olhou vagarosamente para o irmão do cineasta, que, cínico, estava sentado de pernas abertas no sofá azul (o predileto do editor, que achava que a cor dava sorte para as horas preliminares), localizado no canto mais escuro da sala de estar, na penumbra. O Editore Tertuliano olhou cinicamente para o ator, com ares de desprezo e deu um sorriso sem graça. Deu de ombros, fingido.
-Oi. Olá, JR Essas mulheres, não é? Não se pode confiar nelas... há!– suspirou, desafiador.
Diante do silêncio do ator, o Editore completou.
-Bem. Não sabíamos que você ia chegar tão cedo. Não teve... filmagens hoje, meu caro?
JR ficou irritado com a hipocrisia e com a arrogância do Editore. Tudo bem que ele pagasse todas as contas da casa, tudo bem que era irmão de Alex, tudo bem que contribuísse fartamente com as despesas de comida e bebida... Mas isso não lhe dava o direito de... de... comer as suas tetéias, ora!
-Que merda é essa, ô carcamano duma figa?
-Como? – perguntou, debochado, o Editore, com um sorriso torto no rosto – Alguma coisa errada?
O ator estava inflado de raiva. Bufava de fúria ao pensar que aquele ser abominável estava passando as suas mãos imundas em Cíntia, que há anos era uma de suas fãs mais devotas. Por causa de insistentes pedidos de JR, no ano anterior Cíntia fizera uma lipo e colocara silicone nos seios. Ficara com um corpo fe-no-me-nal, e era calada e altiva como nenhuma das outras meninas. Ah, pensava JR, como era bom ter sua Cíntia, inteligente e poderosa, vez ou outra! A moça não perturbava, não vinha com falatórios, não implorava para passar a noite no apartamento, nada. Cíntia Pernambuco era magnânima na arte de desaparecer após uma noite de sexo. Ela calada e sedutora, e tinha uma técnica maravilhosa para lamber dedos do pé, que deixava JR louco de prazer.
Por mais que JR não estive apaixonado pela moça, era insuportável vê-la nos braços de outro homem. E ela fora uma descoberta sua, sua! JR teve pavor de pensar que ela poderia lamber os dedos do pé de outro homem! Vê-la nos braços peludos do Editore, lambendo os pés peludos do Editore era pior ainda!
Tinha raiva dos pelos de Tertuliano Ramalho Fontes. O Editore era um homem extremamente peludo, ao contrário de JR. Tinha uma barba cerrada, que precisava ser escanhoada duas vezes ao dia, e braços, costas, pernas, pés e peito negros de pêlos grossos e viris. Imaginar uma das suas “tetéias” envoltas naquela “pelagem inimiga” era extremamente desagradável, ainda mais que para JR, excesso de pelos era sinônimo de virilidade e masculinidade (durante muito tempo o ator, um homem pouco peludo, tomara remédios para fazer crescer mais pelos no seu corpo, pois tinha vergonha de aparecer sem camisa e sem pêlos nos filmes).
-Caríssimo Editore – falou o ator, bufando – posso saber o que a minha Cíntia está fazendo nesse seu fétido e porco sofá azul de quinta categoria?
-Hã? “Sua Cíntia”? Hahaha! Ora, ora... JR! A moça faz o que quer da sua vida! Deita-se com quem quiser, meu caro! Hahaha! Essa é boa! – debochou o Editore, sentado desleixadamente no sofá, sem camisa e de pernas abertas – E desde quando essa moça, essa Cíntia, é de sua propriedade?
-Cíntia? Conheço Cíntia Pernambuco há quinze anos! – falou JR, indignado – É um absurdo que você se aposse dela assim, sem mais nem menos! É um desrespeito, seu canalha, seu cretino!
-Hahaha! Meu caro... – falou o Editore, pomposo, com voz grave – Falávamos de negócios! Cíntia é uma excelente poetisa, sabia? Tenho interesses editoriais na moça, ora! Hahaha! Que é isso, JR – debochou o homem – Ciuminho bobo?
JR não suportou uma humilhação daquela, e ainda por cima dentro da sua casa. Se Alex não estivesse chegado e segurado o ator, o homem teria socado e espancado o seu peludo irmão.
Desde esse dia, um mês atrás, JR e o Editore estabeleceram um código de sobrevivência no apartamento, onde se viam o mínimo possível. Alex convencera o irmão a não se aproximar das meninas de JR (pelo menos ali dentro), para não provocar o ator. “Entenda, Tertú, ele é estourado, nervoso, não vale a pena!”. Tertuliano insistia que precisava das mulheres para seus negócios editoriais.
-Meu maninho, elas, as mulheres brasileiras, serão o futuro editorial do mundo! Mulheres brasileiras escrevem com a alma e com o corpo! E... hummm! E com suas bundinhas e peitinhos, o tempo todo... – falou o Editore, assanhado – São sensuais, provocantes, deslumbrantes! Se eu conseguir seduzir e agenciar muitas mulheres maravilhosas escrevendo para mim, serei rico aqui no Brasil! Milionário! E... muito bem comido, hahaha! – olhou para o irmão cineasta, sorrindo – Acha que vim ao Brasil para quê, caríssimo? Vou ganhar dinheiro com uma nova literatura! A “literatura dos decotes”! Hahaha! – gargalhou o Editore, sob o olhar confuso de Alex Fontes.
-Bom, faça o que quiser, Tertú... mas fique longe das “tetéias” do Rodrigues, pelo amor de Deus! – pediu o cineasta.
Os dois, JR e o Editore quase não se viam. Quando falavam, nunca olhavam um olho no olho do outro, sempre miravam o infinito e falavam sem entonação na voz. Eram dois animais inimigos morando juntos, que a qualquer momento poderiam se atracar. Tentavam não se encontrar nem ter que falar. Nem sempre isso era possível.
JR chegou ao terraço, e respirou fundo.
-Tertuliano.
-Fale.
-Tem o e-mail do Dr. Charles? – perguntou, ríspido.
-Tenho. Está aqui no meu desktop – falou secamente o Editore, abrindo o micro que estava na mesa lateral e ditando as letras com voz autômata – O que você quer com aquele beberrão trança-pernas? Hahaha! – debochou o Editore.
-Não te interessa – falou JR, seco, anotando o e-mail num papel e saindo dali.
Estava feliz demais com a idéia de ter dentes novos. Não ia se incomodar com aquele velho cretino e peludo do Editore. Ia sim chamar Charles o mais rápido possível.
“E, quem sabe...? Poderei ter dentes novos!”, sonhou JR, feliz. “Dentes verdadeiros!”.

Bêah, a diarista
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