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Home do Gallacci FAU USP turma de 1980 Literatura  Afinal, Isaura!
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Afinal, Isaura!

-Isaura...! – falou Franka, suspirando aliviada ao vê-la – Ah, nem acredito!
-Franka! – disse a Condessa, abismada ao vê-la – Franka!
-Shiu, fale baixo! – disse a agente, cochichando – Ninguém pode saber que estamos aqui! Escute... você está bem?
-Graças a Deus que alguém apareceu! – falou a Condessa – Eu estava desesperada nas mãos daquele monstro vivo do Ovomalta... quem diria, Franka, que esse moço, que eu sempre chamei de “o meu menininho” me faria uma coisa dessas! E ela, eu nunca imaginaria que ela... puxa vida!
-Ela? Ela quem? A freira? – interrompeu Franka, querendo entender o que houve.
-Não, a freira não! Irmã Claudina é minha amiga! Ela sabe que eu estou presa aqui, mas se contar para alguém morre! Ela me disse que Ovomalta a ameaçou! – respondeu Isaura.
-Isaura, me diga o que houve! Quem seqüestrou você? – perguntou Franka.
-Ora, Franka! Maína Clara e seu capanga, Ovomalta! Os dois! – desabafou Isaura, chorando – Não sabia? Eles são amantes há anos!
Franka estava confusa.
-Mas... e Bob? – Franka queria entender melhor o que acontecia.
-Não sei – disse a moça, atrapalhada, será que eles o mataram? Não vejo Bob desde que me levaram... não sei onde estou, desta janela só vejo o céu, onde estou, o que acontece?
Franka olhou para Isaura e explicou, falando bem baixinho.
-Condessa, você está em San Geminiano, na torre de Pietro Cardino. E Bob está bem.
-Eu estou... na torre de Bob? – assustou-se a Condessa.
-Sim, você sabia que ele morava aqui? – perguntou a agente.
-Sabia, Franka, eu sabia mas... – disse a moça, confusa – eu sabia e... mas...
Franka a interrompeu.
-Calma, Isaura, calma... – Franka sentou-se na frente dela e tirou de dentro da mochila uma pequena garrafa com conhaque e biscoitos – Vamos beber, comer, nos esquentar. Eu também tenho que entender muita coisa. Você vai me contar tudo. Eu vou ajudar você, minha cara. Temos muito tempo até o dia amanhecer e o vulcão se acalmar. Vamos, me fale o que houve.
A Condessa contou a Franka sobre ela, sobre o Conde Ribolla, sobre o seu irmão Bob e sobre Bê La Bressiani.
-Não pode ser! – exclamou Franka, surpresa – Não pode ser! Como Bê, a minha melhor amiga, escondeu isso de mim?
-Não sei, Franka, mas eu também esconderia... Na cabeça dela, foi ela que matou o marido, entende? É muito complicado... Eu entendo Bê... – disse Isaura, suspirando.
As duas falaram muito sobre os dois irmãos e sobre a vida de Bob. Isaura contou que eles se apaixonaram quando ela começou a visitá-lo, e que ele queria muito se casar com ela.
-Mas recusei, Franka. Imagine se o Conde sabe disso! Seria outra tragédia na nossa família!
Isaura contou que eles se falavam pelo computador e pelo telefone, “... mais pelo computador, que não fazia barulho algum”, disse a Condessa, “... eu na minha torre e ele aqui na dele...”. “Vivemos uma linda história de amor por muito tempo...”, contou Isaura, olhando para Franka, “eu não tive culpa, foi uma paixão, o Conde não sabe de nada, mas ele nunca me deu muita bola, se esquecia de mim...”.
A Condessa parou e olhou para Franka.
-Mas Franka, porque me trancaram aqui? – perguntou a Condessa, tomando um gole da bebida.
-Alguém quer a fórmula do “Ribolla 6996”, Isaura... – respondeu Franka.
-Será que Bob está por trás disso? Será que é Bob que está fazendo isso comigo? – a Condessa ficou apreensiva.
-Não acredito, Condessa... quando Ovomalta nos prendeu, a mim e a Alex, apontou a arma para Bob também... acredito que Bob nem sabe que você está aqui! – disse a agente, pensando alto.
A agente secreta pediu segredo a Condessa e saiu dali, pois sentia que o dia ia amanhecer. Voltou até o quartinho no sótão em que deixara Alex por dentro da torre, e achou a chave também atrás da porta. Abriu. Alex ainda estava amarrado e gemendo, e Franka sentou-se ao lado dele. Era bom que agissem rápido, pois o dia ia amanhecer. Desamarrou Alex e olhou para ele.
-Ufaaa! Sua maluca, pode me explicar... – falou Alex Fontes, furioso.
-Não, shiu! Quer se salvar? Então cale-se e não faça perguntas! – ordenou a agente.
Alex obedeceu e ficou quietinho.Percebeu que com Franka não se brincava e que podia confiar nela para tudo que fosse. Naquele instante, entregaria sua alma para ela, se fosse preciso.
-Apenas me diga uma coisa, Alex... disso eu não entendo... acha que o vulcão Benevolo já se acalmou? – perguntou Franka – veja, não ouço mais nada!
Alex Fontes ficou um tempo pensativo.
-Não entendo nada de vulcão, Franka... mas já vi um filme uma vez... “As lavas da alma”. Você viu esse filme, Franka?
-Não – respondeu a agente.
-Devia ver... é um dos filmes maravilhosos de Paulus de Tarsus... – o moço completou – Bem, nesse filme há um índio, chamado Miguez Sete Casas. Ele tem muitas teorias e venera um vulcão. Ele diz que, quando um vulcão fica acordado a noite toda, em atividade, sempre dorme uma hora pela manhã. Então...
-Então temos algumas horas? É isso? – indagou a agente secreta.
Alex deu de ombros.
-Não sei, Franka... Miguez Sete Casas dizia, no filme, que era apenas uma hora de sono. Só uma hora, Franka. – arriscou o cineasta.
A agente secreta respirou fundo e passou a mão na cabeça. Levar duas pauladas era demais. Estava doendo aquilo, mas não havia tempo a perder.
-Alex, quando o nosso vulcão parou de fazer barulho?
-Há uns dez minutos – respondeu o cineasta.
-É tudo que temos – disse Franka, levantando-se – E vamos acreditar nesse seu índio! Levante-se, que vamos pegar Isaura.
-A Condessa? Você a achou? – assustou-se Alex – que legal!
-Shiu! Cale-se, moço! Apenas conte o tempo, como fazia o índio Miguez Sete Casas! Temos cinqüenta minutos para sair daqui!
Franka e Alex esgueiraram-se para a cela onde a Condessa estava presa. Todos ainda dormiam na torre, inclusive Ovomalta. Ao chegarem lá, Franka cortou as grades da pequena janela do cativeiro da Condessa e retirou um cabo de aço da mochila. Olhou para a Condessa Isaura.
-Condessa, segure-se em mim. Vamos descer por aqui, que é mais rápido e seguro – disse a agente – E agora, pois não há mais tempo a perder! – a agente olhou para Alex – E você, aguarde a hora que chegarmos no chão e desça em seguida.
-Franka, eu... – Alex olhou para ela, apreensivo – eu...
-O que foi, Alex? – perguntou Franka.
-Tenho vertigens e... – o homem hesitava.
-Alex! – Franka falou séria – Eu vou levar a Condessa para baixo. Não gostaria de ter de subir de novo para pegar um marmanjo como você no colo! Vire-se! Perca esse medo ou fique ai em cima com Ovomalta e com sua freirinha!
As duas desceram pela corda até o térreo. A Condessa rezava sem parar até o momento que elas colocaram os pés no chão. A agente gesticulava para Alex de lá de baixo, pensando se teria que ir buscá-lo ou não.
-Desça! Vamos, Alex! Coragem!
O homem demorou mais de dez minutos para fazer aquilo, mas conseguiu. Andava pela corda em passos de tartaruga, tremendo, mas venceu o medo e chegou no chão. Franka sorriu para ele. Alex, animado, beijou as moças no rosto e na boca, como se tivesse vivido de novo, agradecendo a tudo e a todos.
A agente olhou para ele e para a Condessa. Ordenou que eles fossem até o carro, que ainda talvez estivesse a salvo. Entregou as chaves a Alex e olhou no relógio.
-Alex. Leve a condessa até o carro, e vá até aquela colina – Franka apontou com o dedo um local mais alto – E me aguardem lá, que eu já vou! Se eu não chegar em vinte minutos, não me esperem. Vão direto para Montalcino.
-Mas... onde você vai, Franka? – perguntou a Condessa – Vamos embora todos juntos!
-Condessa, preciso ir calar a boca de uma pessoa... – respondeu Franka – Preciso calar a boca de Ovomalta, pois se ele acorda e não nos encontra, vai avisar Maína Clara e ela poderá fugir de Montalcino!
Alex ficou confuso e olhou para o vulcão, que ainda estava calado. Poderiam confiar num índio de um filme? Mas ele não hesitou. Pegou na mão da Condessa e saiu correndo, como se estivesse num set de filmagem.
Franka olhou para a corda e para o vulcão Benévolo. Antes de subir novamente, pegou o velho sapato que tinha dentro da mochila e apertou um botão.
-Alô? – disse a agente.
-Franka? – alguém atendeu do lado de lá do sapato.
-F. Agassê, sou eu. Preciso apenas de uma coisa para resolver um grande caso aqui na Itália – falou Franka, sorrindo.
-Fale – disse o homem à ela.
-Me deseje boa sorte, chefe – pediu Franka.
-Boa sorte, Franka – disse F. Agassê.
A moça desligou o sapato e subiu na corda, apoiando-se pelas paredes da torre. Alcançou o quarto onde estava Isaura e entrou. O local ainda estava quieto e calado. Pegou a sua arma e andou pelo corredor até o quarto de Bob.
O homem e o seu guardião ainda dormiam, apesar do dia que amanhecia. A moça acordou o foragido com a arma na cabeça, e ordenou que ele levantasse. Ele não teve tempo sequer para respirar. Franka encaminhou o homem, travando seu pescoço, até o quarto onde ela e Alex estavam presos e o acorrentou ali. Sim, ele poderia até se soltar, como ela fez, mas isso demoraria um pouco, e ela já estaria longe dali, e a policia já teria chegado à torre.
Desceu e encontrou Bob vagando, confuso, pelo corredor. Segurou o homem com força. Bob, atrapalhado na sua escuridão, se debatia nos seus braços.
-Pare, quem me pega? Pare! – berrou Bob.
-Bob, aqui é Franka! Ouça! Venha comigo, que estou com sua Isaura! – explicou a moça.
- A minha Isaura está com você? Onde? – perguntou Bob.
-Lá embaixo! Venha! – e Franka puxou o homem.
Franka o guiou por todos os lances de escada, e os dois saíram dali. Ao chegarem no térreo, avistaram irmã Claudina, que corria atrás deles, dizendo que também queria ir.
-Venha, irmã Claudina – falou Franka, que percebeu que não ia ficar livre da freirinha tão cedo – Venha rápido, que estaremos a salvo em Montalcino!
Os três alcançaram o carro no alto da colina. Isaura, ao ver Bob a salvo, deu um longo beijo no homem. Irmã Claudina, sempre assanhada, ao ver Isaura beijando Bob, não agüentou e deu um beijo na boca de Alex. Franka não beijou ninguém, mas, quando ligou o carro e arrancou, ouviu um barulho de telefone. Abriu a bolsa e pegou o sapato.
-Alô – disse a espiã.
-Franka, tudo bem? – era F. Agassê.
-Sim, obrigada, chefe – disse a moça acelerando a perua – Tudo bem, mais uma vez – Falou Franka, sorrindo e olhando para trás e vendo que o vulcão se mexia de novo, mas eles já estavam a salvo.
Porém a agente teve que parar o carro. Um enorme nuvem de poeira, vinda do vulcão, escureceu tudo. A freira pôs-se a berrar palavras em italiano, histérica.
-Irmã Claudina, porque você está fazendo esse escândalo? – perguntou Alex – O que foi?
A freira se recuperou e explicou.
-Esse é o gás Khaled! O gás Khaled!
-Mas caramba! Quer fazer o favor de explicar o que tem esse gás a ver com essa história? – perguntou o cineasta, sacudindo a moça, que não parava de berrar.
-O gás Khaled... o gás Khaled é maravilhoso! Vejam! – apontou a moça para o vulcão, que lançava uma maravilhosa nuvem cor de laranja – É um bálsamo, é um gás milagroso, é o melhor remédio para qualquer doença dos olhos! Abram as janelas para o Signore Roberto se beneficiar dele! – ela olhou para Bob – Signore Roberto, abra os seus olhos e olhe para o Benévolo, que ele vai te dar a luz, vamos! É um milagre! Um milagre!
Bob Delboux abriu a porta do carro e saiu. Abriu os olhos e os braços, como se fosse um santo, empolgado com a freira e entrou dentro da nuvem cor de laranja. Todos ficaram em completo silêncio aguardando o gás se dissipar.
Bob Delboux começou a berrar, em desespero.
-Aaa! Eu veeejo! – urrou o homem – Eu vejo tudo! Tudo!
-Bob, óóó, Bob, que maravilha! – exclamou Isaura, chorando de emoção – Me olhe, amore mio!
-Isaura minha bella! Franka, é você mesmo! Irmã Claudina, enfim vejo seu rosto! – o ex-cego olhou para Alex Fontes e deu um pulo para trás – E você... diabos, quem é você?
Chegaram em Montalcino no meio da manhã. Bob passou a viagem toda feito criança, apontando as coisas e falando os nomes. Estava encantando em poder enxergar de novo, era uma nova vida que começava.
Franka teve que chamar a polícia de outra cidade vizinha para ir ao Castelo para ajudar na captura de Maína Clara. Pediu também que alguém fosse à torre de San Geminiano para prender Ovomalta.
Quando chegaram ao Castelo diversos carros de policia estavam parados próximos da ponte elevadiça. Franka desceu do carro e procurou Bê no meio da multidão que se aglomerava ali na frente no jardim.
-Franka! – disse a cozinheira, aliviada – Enfim!
-Olá, Bê. Mas você, hein! Podia ter me contado tudo antes! – Franka olhou para Isaura que descia do carro.
-Condessa! Enfim! – disse Bê – abrindo os braços
A agente olhou para o novo delegado que tinha recém chegado no castelo, que viera para substituir Barbôa. O homem, um rapaz forte, com grandes olhos verdes se adiantou.
-Você é Franka? Sou o delegado Eolo, não se lembra de mim? Treinamos juntos na Academia de Polícia de Aguaí, eu morei alguns anos no Brasil.
-Eolo! Como vai?– a agente estendeu a mão.
-Bem, bem... – o novo delegado sorriu – Mas acho que você já fez tudo que deveria ser feito por aqui, não é, Franka?
Franka sorriu. Que saudade daquele amigo desaparecido há tanto tempo. Nada como uma boa ficção para podermos reviver nossa vida e reencontrarmos os grandes amigos que fizemos na vida, pensou.
-Eolo, que saudade! Sim, fiz alguma coisa, mas foi junto com meu amigo Alex – Franka olhou para o cineasta – Fico muito feliz em revê-lo... e deixo o melhor para você: pegar aquela crápula da Maína Clara!
-Meus agentes já estão dentro do Castelo, Franka. – disse o delegado, eficiente.
Nesse exato momento dois policiais fardados voltaram para falar com o delegado. Estavam coçando a cabeça.
-Senhor, procuramos em todo lugar. Não há sinal de Maína Clara!
-Como assim? – espantou-se o novo delegado.
-Ela não está no quarto dela, nem nas salas, nem na cozinha, nada! A mulher simplesmente sumiu!...
O novo delegado, como queria mostrar serviço, arrumou a calça de vaqueiro e o seu chapéu (era um legítimo delegado-cowboy) e entrou correndo dentro do Castelo, fazendo barulho com suas enormes botas. Franka correu atrás dele.
Percorreram andar por andar, quarto por quarto. Maína Clara teria fugido? Onde estava aquela bandoleira?
-Franka – perguntou o novo delegado – Existe algum esconderijo secreto nesse Castelo? Ou algum lugar perigoso, que ninguém se atreveria a ir? – perguntou Eolo, coçando a cabeça.
Franka se lembrou. Isso mesmo! Mas... seria possível que Maína Clara tivera coragem para tanto? “Hahaha! Isso é que é lugar para se esconder!”, pensou a agente secreta sorrindo e puxando a mão do delegado Eolo.
-Venha, Eolo, vamos visitar uma amigo seu.
Franka saiu correndo em direção a masmorra onde estava trancado o pobre delegado Barbôa, desesperado, excitado e (obviamente) completamente “aceso”. Chegaram no local e viram Maína Clara e Barbôa em estado de transe. O delegado estava apavorado, acuado num dos cantos da cela. A mulher, descabelada, suada e semi nua, berrou ao ver a chegada da polícia.
-Não, não me tirem daqui nuuunca... – dizia a poderosa seqüestradora, amolecida e exausta de tanto sexo – Nuuunca, nuuunca... maravilha, me deixem para sempre aqui... ahhh... ahhh... Barbôa, Barbôôôa... fica comigo, Barbôa...
Já o delegado Barbôa voltara ao normal, pois esgotara toda sua cota de testosterona com a perigosa moça, que nunca tinha presenciado tal potência sexual e não queria mais saber de dinheiro. O delegado Eolo olhou para o ex-delegado Barbôa com curiosidade. O homem tentava sair dali, mas era agarrado e arrastado por Maína Clara (em plena crise de excitação sexual), que tentava beija-lo, encoxá-lo e lambê-lo. “Puxa” – pensou Eolo, invejando o ex- delegado, “Qual seria o segredo daquele homem para conquistar uma mulher como aquela?”.
Franka também olhou Maína com outros olhos. “Mas que corpo que tem essa perigosa bandida”, pensou a agente, surpreendida, “ela que sempre veste roupas escuras e largas, quem diria!”. Mas quem olhou para a seqüestradora com enormes olhos foi Alex Torres. O homem, confiante depois do súbito sucesso como herói, tinha a mente curada. Estava fervendo de idéias para novos filmes, e, ao olhar a perigosa seqüestradora nua,d escabelada e viçosa de sexo, vislumbrou ali uma das atrizes mais lindas da sua existência. Deu um pulo em direção à ela.
-Maína Clara, preciso de você! Do teu rosto, da sua beleza, desse seu deslumbrante corpo, tudo isso é pura arte! Arte, sexo, paixão!
-Eu? – espantou-se a moça.
-Sim, você, sempre! – falou, entusiasmado o cineasta – Preciso de você para um filme, vou te transformar na maior atriz desse planeta, Maína Clara! – delirava o homem – Vamos arrumar um nome artístico para você, vamos para Cannes, vamos para Hollywood!
A moça deu um berro, pois se lembrou da mãe.
-Aaa! Hollywood não!
O cineasta sonhava.
-Bromélia Clara... que acha desse nome? Bem... tropical, não acha?
Maína Clara estava sem ar de emoção, nos braços do musculoso novo delegado cowboy. Ela sabia que sua hora chegara. Era o destino: Maína Clara, ou Bromélia Clara seria uma grande atriz brasileira, quiçá a maior do mundo. Nesse exato momento, numa das colinas da cidade cinematográfica de Hollywoo (sem o “d”), sua mãe, a bela Marilyn Dora se olhava no seu espelho, que imediatamente se tricava. A atriz hollywoodiana começou a berrar e chorar, em completo desespero. Ela entendeu que sua hora também chegou (ou melhor, acabou): sua filha havia sido descoberta. Marilyn esperara por esse momento, com medo e pânico, por mais de sessenta anos. Era a vez da linda menina que ela tentou esconder na Suíça fazer sucesso no lugar dela.
O delegado Eolo se adiantou, irritado com aquela cena caricata daquele cineasta ridículo. Ora bolas, tudo bem que a moça estava semi nua, com os seus peitões e sua maravilhosa e delineada bunda de fora (e nos braços dele, obviamente), mas ela era uma bandida e estava sendo presa (e não descoberta). Ficou irritado com a confusão. Quem aquele homem metido, com cara de intelectual, pensava que era?
-Meu senhor, chega! Isso aqui é uma operação policial e séria – falou Eolo, circunspeto – E o senhor poderia sair da nossa frente, por obséquio?
Alex Fontes entendeu. Aquele delegado caipira, com ares de cowboy, jamais entregaria Maína Clara sem mais nem menos. Era preciso chantagear. Alex pensou, em prol da sétima arte, que ele faria qualquer coisa que se fosse preciso para ter Maína Clara num filme. Era sua vida, seu cinema e a perfeição que estavam em jogo. Berrou, sem perder um minuto.
-Delegado, por favor!
-Saia da frente, senhor! – falou Eolo, sem delongas – Ou mandarei meus homens o deterem!
-Senhor delegado, preciso falar a sós com o senhor, agora! É rápido! Um minuto, por favor!
Assim, Alex Torres conseguiu convencer Eolo a também participar do filme. Inventou tudo na hora. Seria um filme de amor, onde ele, o delegado Eolo e Bromélia Clara seriam amantes e apaixonados, até a súbita morte do rapaz num trágico desastre. Bromélia, que vivera um grande amor por ele em vida, ainda o amaria após sua morte. Ele reapareceria como um fantasma apaixonado.
Quando Alex acabou de falar e olhou para o delegado cowboy, o homem chorava, comovido.
-É lindo! Lindo! Sim, sim, eu vou, eu vou... que lindo, Alex, que lindo – falou o cowboy, pensando no seu sucessi – E ela ficará me liberdade condicional, sob minha responsabilidade! É lindo, lindo isso!
-Vai se chamar “spettro”! – falou, animado, o cineasta – vamos todos para Hollywood, Bromélia querida!
O celular de Maína Clara tocou subitamente.
-Alô! – disse a moça, assustada – Mama? É você?
Era Marilyn Dora, furiosa com a moça. Não era fácil perder a majestade, a filha sabia disso. O delegado, irritado com a interrupção, pegou o celular da moça e jogou longe.
O telefone caiu bem na cabeça de Rangel, que assustado, começou a falar, achando (como sempre) que a ligação era para ele. Quando ouviu uma voz de mulher, se assanhou todo. E foi ali que começou a grande história de amor entre o detetive Rangel e a grande ex- estrela de Hollywood, que comprou o “D” de Hollywood, Marilyn Dora. Rodrigues, canastra como sempre e empenhado em conquistar a belíssima Marilyn Dora, a lenda viva, disse que pretendia comprar o “H” de Hollywood só para ela.
-Querida, transformaremos o “H” em “R”... – falou o canastra, inchado de orgulho e exibição – e Róliwwo se escreverá com “R”, de Rodrigues e Rangel!
Ao mesmo tempo, no grande saguão do Castelo o Conde Ribolla veio correndo para abraçar o seu irmão Bob quando soube que ele não era culpado de nada. E ainda, depois da revelação de Isaura de que ela e Bob eram amantes e ficariam juntos, o Conde assumiu publicamente seu amor por Bê. A surpresa foi geral.
O Conde Ribolla, ainda animado do o desenlace final da história, declarou que depois de tudo ele estava disposto a uma longa trégua. Estava cansado de brigas e disse que descobriu, depois de uma longa “conversa” com Bê, que não valia a pena ser tão ambicioso. Assim, propôs ao irmão fazerem uma sociedade para a produção de vinhos. Ele, o irmão e as esposas poderiam viver juntos ali no castelo para sempre. A idéia era esdrúxula, e Bob recusou, pois sabia que aquilo nunca ia dar certo. Disse que a ele bastava que os dois ficassem bem – essa era a vitória.
-Além disso – disse Bob para o irmão – tenho um outro projeto, Onil... agora que eu enxergo, poderei realizá-lo!
-Projeto? – surpreendeu-se o Conde Ribolla, afinal, o irmão estava há anos sem fazer nada por causa da cegueira – E o que é?
-Sim, tenho um roteiro completo para um desenho para a TV. Sempre me interessei por literatura infantil, você sabe – disse o meio irmão do Conde.
-Ah é? E do que se trata? – perguntou o Conde, surpreso.
-Um personagem atrapalhado. Acho que vou chamá-lo de Bob Escova. Ou Bob Estojo. Bob alguma coisa... Ainda não sei bem o que, mas acho que vai ser um sucesso... Ainda estou estudando. Quem sabe Alex Fontes possa me dar umas dicas. Hahaha!
Mas, para a tristeza do Conde Ribolla, Bê olhou para ele e disse que também não ficaria ali.
-Mas porquê? – espantou-se o homem.
-Conde, já tivemos nossa noite de paixão e volúpia e sexo animal... tenho minha vida, meu restaurante... tenho que voltar! – disse a bela cozinheira, que apareceu já vestida com calças brancas, botas e uma grande echarpe no pescoço.
Carregava uma valise e deu um beijo no Conde.
-Bê! Onde vai? Vai me deixar?
-Conde! Vou rodar a Europa com uma “sócia” que arrumei aqui! Vamos em busca do ponto de fuga! Você jamais pode entender o que seja isso... o encontro do céu e da terra! – disse Bê, rindo, feliz, e correndo para fora do Castelo.
-Sócia? – espantou-se o Conde – Mas que sócia é essa? – perguntou o homem, espantando-se ao ver Bêah chegando num conversível branco e buzinando.
-Bêah! – berraram o Conde e Charles, juntos - Voltem aqui!
Bê voltou-se e explicou, sem mais delongas. As duas seriam sócias, e as duas rodariam a Europa a busca de cogumelos para novas receitas. Bêah ganhara muito dinheiro e comprara o carro. Alex Fontes, com a cabeça germinando de idéias, ao ver aquele carro conversível e as duas moças dentro dele, começou a berrar, animado.
-Um outro filme! Olha que idéia que eu estou tendo! Duas moças sozinhas rodando num conversível! Que idéia sensacional! As duas largam tudo em busca de aventura e liberdade! Outro filme!
O Conde emudeceu ao ver o carro se afastar. Virou-se para Charles e o abraçou.
-Meu bom amigo... temos agora um ao outro... só nós dois!
Charles sorriu.
-Eu, você e muito vinho, chère Conde! Hahaha! Temos 6996 a dar com o pau! Hahaha! - disse o médico beberrão, com lágrimas nos olhos e um sorriso triste.
Todos os amigos do Conde olhavam Alex com outros olhos. O cineasta, sempre com manias e complexos, saia dessa história como um herói. Afinal, fora ele, juntamente com Franka, que salvara a Condessa do seqüestro. O homem já tinha outro ar, um ar de confiança, de vitória. Estava falando com Franka quando sentiu que a detetive Matahari Néri e Clice, uma das bailarinas de Magôo, se aproximavam dele sensualmente.
-Alex... nós soubemos que você... foi valente, corajoso, um verdadeiro herói... – disse Matahari – É verdade?
-Ah, isso não foi nada... – disse o homem, emproado e com falsa modéstia – Fiz apenas o que era necessário para ajudar Franka... – disse o cineasta, feliz com seu sucesso.
Nesse exato momento, percebeu que Franka o olhava. Alex deu uma piscadela para ela e sorriu. Ela virou-se, olhou as meninas e disse.
-Sim, meninas – disse Franka, sorrindo – Esse moço é realmente um herói! Um grande herói! Sem ele, Isaura nunca estaria aqui!
Rodrigues e Moreirão se mordiam de ciúmes. Ora, porque não tiveram a idéia de ir com Franka, como fizera Alex? Assim o sucesso poderia ser deles, pensou Rodrigues, enciumado e irritado ao ver que Alex roubava suas fãs.
-Isso era um trabalho para o Rangel, ora bolas! – disse o ator canastrão, inconformado – Ora, Franka, porque não me chamou? Eu poderia ter ajudado e muito, pois você sabe que tenho muito mais prática nisso do que Alex!
-Ora, Rodrigues, mas você estava a dois dias trancado naquele seu quarto investigando outras coisas com a nossa detetive! – disse Moreirão, rindo do amigo e da detetive desaparecida, e olhando de soslaio para a freirinha, que sorria para ele, assanhada.
Gui Whitaker chegou-se ao lado dos dois.
-Moreirão e Irmã Claudina. Podemos conversar um momento? Sou Gui Whitaker, empresário, produtor e diretor de Rodrigues - o moço estendeu a mão.
Explicou melhor. Já ganhara muito, mas muito dinheiro com JR Rodrigues e Rangel, mas gostava mesmo era de pornografia. Foi claro com Moreirão e com a irmã Claudina, que (mesmo sabendo que se tratava de pornografia explicita), se assanhou toda. Disse que, assim como ele transformou JR Rodrigues num astro, pretendia transformar Moreirão e a Irmã Claudina em outros dois astros. De filmes pornográficos, claro. Eles topavam?
-Astros? – perguntou Moreirão.
-Um filme concreto - religioso - pornô! Uma idéia inédita!
Os dois se olharam e sorriram. Ora. Porque só Maína Clara, Franka, Rangel e Eolo podiam fazer sucesso?
O Conde entrou no meio dos amigos e declarou, feliz da vida.
-Chame Carmutcha – falou o Conde para Bê – Peça a ela que nos providencie champanhe para brindarmos essa vitória! – falou o Conde, feliz.
-Conde... – disse Mônica, a vidente – Trouxe aqui biscoitos da sorte para todos! Mas... Não é preciso ser tão vidente para perceber que você não tem mais secretária... hihihi...
-O que você quer dizer? – perguntou o Conde, confuso, pegando um biscoito.
Mônica explicou, sorrindo e servindo os biscoitos para todos.
-Carmutcha deixou o castelo hoje pela manhã. Me disse para avisar a você que ela achou o homem de sua vida! – explicou Mônica.
-E quem ele é? – perguntou o Conde.
-Montagna, ora! – exclamou a moça, sorrindo - Montagna resolveu investir na idéia dos tubos "desentortadores" de pênis... os dois sairam para montar uma pequena micro empresa em Milão, Conde!
O Conde deu um largo sorriso e suspirou. Sentiria saudades daquela moça tão gostosa. Ouviu uma voz vindo de trás das pessoas.
-Conde, Montagna se foi, mas eu estou aqui! E com um lote dos bons! – falou Gemada, sorrindo e mostrando seus dentes de ouro – tenho que ficar mais uns tempos, para ajudar um amigo da “gema”! Hahaha! – disse, referindo-se a Ovomalta, que o homem trataria logo de tirar da cadeia.
O Conde respirou fundo, colocou o cachimbo na boca, entortou o pescoço, olhou para Franka e deu um beijo na bochecha da moça. Abriu os braços e disse a todos que estavam ao redor dele:
-Caríssimos amigos! Então, agora, só há uma coisa a fazer! Vamos à nossa festa! Há muito vinho a ser tomado e muito cabritos com gnocchi! Vamos todos brindar e acabar com o nosso estoque todo de “Ribolla 6996”! Hahaha! À nossa saúde!
Todos olharam para o Conde Ribolla e para o céu do fim da tarde de julho, onde nascia uma bela e enorme “blue moon”.
E assim, a festa começou.

Fim
Onde está Isaura?