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Como toda grande festa, era impossível controlar tudo que acontecia. Obviamente que alguns convidados beberiam muito e passariam dos limites, e era justamente esse o desejo do Conde. O nobre homem tamborilava e cantava uma musiquinha com o número “6996” sem parar. Logo depois do espetáculo de dança entre o anfitrião e La Bressiani, o Conde observou que Gemada e Montagna correram para as mesas onde seria servido o vinho, ansiosos por um gole. Foram seguidos pela turma dos mafiosos da família Castellari, e pela bela lolita francesa Bêah, que estava de olho nos dois perigosos bandidos, apesar da advertência da secretária assistente do Conde. O Conde Ribolla esfregou as mãos, animado. “Ótimo, maravilha, mergulhem no barril, meninos! Hehehe!”. De longe o anfitrião observou, satisfeito, os colegas da confraria com seus (confiáveis) copos de “Johnnie Walker 120 anos”. O Conde Ribolla fizera questão de comprar um uísque de qualidade para os amigos. O “Johnnie Walker 120 anos rótulo cor de rosa” não era para qualquer um. Era apenas o uísque mais caro do mundo, e o predileto de Rodrigues. Porém o Conde se preocupava com Alex. O cineasta, um homem sempre fino e intelectual, não estava habituado a tomar uísque. Tinha o estômago, os miolos e o corpo fracos para destilados. O Conde pedira a Rodrigues que ficasse de olho nele, mas duvidava que o ator o fizesse. JR Rodrigues não conseguia sequer ficar atento às próprias falas nos seus próprios filmes. Além disso, o Conde sabia que Rodrigues não podia ver um rabo de saia que já saía atrás, assanhado, e o que não faltava na festa eram rabos de saias. Pensou em pedir ajuda a Moreirão. Mas onde ele estava? O Conde desconfiou, preocupado, que Moreirão poderia estar de caso com alguma convidada, pois o homem sumira desde o dia anterior. Mas... quem seria? Não percebera o desaparecimento de nenhuma das mulheres. Era estranho, era melhor pedir a Carmutcha que o encontrasse antes que fosse tarde demais. O Conde Ribolla sorriu e passou a passear entre os convidados. “Sim”, pensou o homem, satisfeito, “... o meu plano dará certo...”. O homem pensou o seguinte: que o vinho era realmente afrodisíaco, isso não havia dúvida. A questão era descobrir se o vinho causava ou não desvios em humanos. Ele concluiu o seguinte: não poderia perguntar aos homens na manhã seguinte, claro. Mas, se o vinho causasse realmente desvios cavalares, o Conde sabia que nada seria comentado na manhã seguinte (homens nunca comentam casos assim); mas, se fossem positivos, não haveria homem que não se gabasse da noitada na manhã seguinte, ele tinha certeza absoluta. “Hahaha! Homens são assim!”, pensou, satisfeito. “Ainda bem que somos todos uns enormes canalhas! Ainda bem!”, pensou o homem, que encontrou Franka e La Bressiani juntas conversando. Aproveitou para abraçar as duas, colocando uma das mãos na bunda de Bê e a outra no seio de Franka. Franka, sorriu, irritada, e tirou delicadamente a mão intrusa do seu decote. Já Bê não se mexeu, suspirando. -Belíssimas! – disse o homem, mordendo os lábios. -Conde, que festa espetacular! – disse Franka, puxando a amiga – Mas eu estava levando Bê para tomar uma água comigo! Me dá licença? – desconversou a agente, sem paciência com o homem. Franka segurou no braço da amiga, que estava sonhando acordada olhando para o homem, que mandava beijinhos para ela na medida que ela se afastava. -Bê. Fale comigo! -Ah, Franka... ah! – disse a moça, encantada – Você viu o que ele faz comigo? Ah! -Bê, você está maluca! O Conde é casado, e você dando essas bandeiras, se insinuando para ele! – repreendeu Franka. -Mas cara Franka, os astros confirmam! – disse Bê, sonhadora. -Hahá! Sabia! Aposto que Mônica vidente tem algo a ver com isso! – concluiu Franka. -Sim... ela me disse que tudo pode acontecer “na hora que os nobres adormecem”... -Hã? Acho que você pirou. – completou a agente secreta, atônita. -“Na hora que os nobres adormecem”... – Bê saiu andando pela festa, falando sozinha, largando a amiga. Franka ficou preocupada. Será que a amiga cozinheira estaria hipnotizada? Seria algum tipo de... feitiço? Sempre notara que Bê tinha uma quedinha pelo Conde, mas aquilo era exagero. Percebeu que Bê não falava com quase ninguém, dispersa. Viu a amiga trombar em Dobem, que derrubou um copo de vinho em Gui Whitaker, que desequilibrou e caiu sobre Renatone, o cabelereiro de cabelos pretos. “Ichi”, pensou a amiga. Nesse instante, Franka observou Maina Clara entrando no salão. Ao contrário de Franka, que estava imbatível e maravilhosa com um longo justíssimo de couro preto, todo bordado com desenhos de porcas e parafusos prateados. Mas Maina Clara desceu as escadarias com um vestido muito estranho. Franka olhou a moça, intrigada. Não que ela não estivesse vestida adequadamente. A questão é que a moça escolhera uma cor que... desaparecia no corpo dela. Pareceu a Franka que a moça queria sumir na festa e que não queria ser observada, o que era estanho para qualquer mulher solteira e disponível como Maina Clara. Além disso, Franka olhou o decote posterior do vestido. Sim, era certo que a moça guardava uma arma ali! Era possível ver a saliência no drapeado! Depois de cumprimentar Alex e Rodrigues com beijos dissimulados, Maina Clara cumprimentou Francis Drake como se ainda não tivesse visto a velejadora no castelo. “Ora, mas elas se encontraram naquela tarde!”, pensou Franka, confirmando suas suspeitas contra a moça. Franka adiantou-se. -Maina Clara! Quanto tempo! – A agente disse, com um grande sorriso. -Franka! Quanto tempo! Como vai a Vergalhão? – Maina Clara deu uma baforada no seu cigarro e um beijo sem graça em Franka. -Não tinha te visto ainda no castelo – falou Franka, testando a moça – chegou agora? -Não, cheguei pela manhã... mas tive uma enxaqueca horrível. – disse Maina Clara, exagerando – Tive que ficar deitada a tarde toda... Depois do show de “Magoo e as meninas de Honolulu” foi servido o jantar. A enorme mesa, em forma de “T” (o Conde Ribolla, com suas superstições, fez questão da letra “T” para o formato da mesa), estava magnificamente decorada, e o aroma da comida, delicioso. Bê La Bressiani, completamente bandeirosa na sua tentativa de conquistar o Conde de qualquer maneira na festa, pegou o microfone de Magoo e anunciou que traria uma surpresa. Kátia, a moça que secava o molho do cabrito como ninguém, segredou à alguns convidados que sua patroa Bê La Bressiani preparara um prato surpresa para o anfitrião. Bê voltou com uma enorme travessa nas mãos, e pediu uma salva de palmas para o Conde. O homem se derreteu, encantado com a amiga. -Mas que maravilha, bella Bê! Um prato surpresa para mim! -“Culhoada di capretto con salsa de Pomodoro!” – exclamou, Bê, apaixonada – A minha especialidade! O Conde engoliu seco, atônito. "O quê? Culhoada? Mas que diabos era aquilo?". Desesperado, o homem perguntou cochichando para Gui Whitaker, que estava ao seu lado. O ex-ator pornô, rindo baixinho, respondeu: "Ué... testículos, caro Conde! Testículos de Cabrito! Hahaha!". O Conde estatelou. Só Deus sabe o esforço que ele fez para não vomitar ali mesmo, naquele mesmo instante. Nunca, nunca e nunca ele colocaria qualquer tipo de pênis ou testículo na sua boca! Nunca, nunca, jamais! Preferia a morte a isso! O homem passou a suar frio, seu sorriso foi se desmanchando enquanto ele respirava fundo. “Não”, pensou, ele não podia desmaiar ali, naquele instante. Olhou para a bela Bê La Bressiani, sorrindo com aquele prato nojento na mão. “Que pesadelo...”, pensou o pobre nobre. O que ele faria? Resolveu propôr brindes antes do jantar. -Brindemos aos convidados! Tim Tim! -Brindemos aos 20 anos! Tim Tim! -Brindemos à cozinheira! Tim Tim! -Brindemos à Rodrigues! Tim Tim! -Brindemos à Alex! Tim Tim! O Conde ganhou tempo, mas descobriu que não ia conseguir fazer com que os testículos sumissem dali. Engoliu seco e tomou coragem, resignado. Ele não poderia magoar a sua bela Bê (ainda mais que ele sempre tinha más intenções com mulheres bonitas como ela). Olhou o prato, conformado e nojado. Quem sabe se ele comesse só o molho? Bê percebeu que o Conde estava estranho, mas achou que aquilo tudo era apenas amor. “Ah... um homem apaixonado é assim mesmo”, enganou-se La Bressiani, devaneando. Ela olhava sem parar para o Conde e para o prato, pois precisava ver o Conde comendo a iguaria. Na verdade, Bê La Bressiani realmente preparara um prato especial para o homem. Colocara sonífero na comida, pois, segundo a previsão da vidente, “tudo aconteceria depois que os nobres dormissem”. Como mulheres como Bê sempre acreditam nessas bobagens, Bê ficou enfeitiçada com a idéia e resolveu colocar um pouco de lexotan nos testículos de cabrito ela mesma, pois não agüentaria esperar o sono natural do Conde no final da festa. Isso ia funcionar, ela tinha certeza. O Conde Ribolla ia dormir, e, logo depois ele seria dela. “Sim, pois Mônica era uma grande vidente...”, pensou a cozinheira, enlevada. O Conde, ali, diante de todos, suava e tremia. Também percebeu que, sendo ele o anfitrião, se ele não começasse a comer ninguém comeria, e os cabrito e o gnocchi esfriavam na mesa. Assim, com valentia prendeu a respiração, espetou um naco de testículo no garfo, levantou o talher, e, num arroubo de coragem, gritou: -Bon appetito, amicci! E enfiou o testículo na boca. Foi a morte para ele. “O que um homem não faz pela fama e pelo sucesso...”, pensou, vendido e humilhado por dentro. Viu de longe os amigos Alex e Rodrigues dando risadinhas cínicas, já bêbados com o uísque 120 anos. “Eles riem de mim, eu sei, esses filhos da mãe!”, pensou raivoso o Conde, mastigando e engolindo os órgãos sexuais do animal. Porém... o rosto do Conde subitamente se transformou. Que alimento mais maravilhoso, que sabor, que paladar, que aroma! O Conde, já que tinha perdido mesmo sua hombridade, resolveu se jogar nos testículos de uma vez. Ora, e não é que aquilo era bom? Para a satisfação de Bê La Bressiani, o Conde Ribolla passou a devorar a iguaria como uma glutão, como um maluco, doido, sem modos, babando, enlouquecido, cego de paixão pelo manjar dos deuses. Os convidados, acostumados com a boa educação do nobre, assustaram-se: que era aquilo? Que deu no homem para comer feito um bicho aquele estranho quitute? Daquele momento em diante, tudo ficou muito confuso. Não se sabe, exatamente, quando e como a Condessa Isaura foi seqüestrada. A questão foi que os seguranças da “Raposo Sisters” e os capangas do delegado Gnocchi Balbôa não foram advertidos que a Condessa (e as demais convidadas, obviamente) poderiam ter mudado de cor de pele, e, sendo assim, não sabiam sequer quem era a condessa no meio de tantas convidadas mulatas. Além disso, quando os guerrilheiros israelenses entraram, armados com metralhadoras Uzi e vestimenta de guerra camufladas, foram aplaudidos pelas mulheres e homens embriagados e assanhados com o vinho “Ribolla 6996”, o que confundiu mais ainda a todos. Ninguém sabia se aquilo era real ou não. No meio da confusão, Rodrigues começou a bater palmas para os homens de roupa camuflada, achando que se tratava de algum novo tipo de show. Já Alex perdeu totalmente a compostura com a bebedeira. O uísque “Johnnie Walker 120 anos rótulo cor de rosa” realmente era forte demais para seus miolos intelectuais: o cineasta perdeu totalmente a compostura e passou a cantar e a dançar, alheio a tudo. Animou-se sozinho e passou a fazer um strip tease, tirando lentamente suas roupas e ficando somente com uma cuequinha samba-canção cor salmão, pequena e justinha. Além disso, embrulhou-se em uma echarpe de paetês que roubou de Francis Drake, que gargalhava do ex-comedido homem (mas que foi percebida por Franka – com toda a certeza a pirata estava envolvida com o seqüestro e tentava distrair a atenção dos convidados para o vexame do cineasta bêbado). Assim (des)vestido, o homem subiu na mesa e pôs-se a dançar, rebolando e girando a echarpe, dando um vexaminoso show erótico pornô. O homem, sempre tão preocupado com sua aparência, além de dançar feito dançarina de cabaré, ainda chamava os guerrilheiros israelenses de “lindões, tesões, gostosões”, completando mais ainda o escândalo. O Conde, depois de devorar mais de três pratos de testículo como um glutão animal, dormiu com a cara na mesa. Não se mexeu quando os seqüestradores guerrilheiros israelenses levaram sua esposa mulata, e nem percebeu os gritos de horror da Condessa Isaura ao ser arrastada com violência do salão. Foi carregado discretamente por La Bressiani para um cantinho da despensa, que o deitou sobre os sacos de farinha, e ali desapareceu com a cozinheira. Aliás, excluíndo-se Franka, que teve receio de beber qualquer coisa, desconfiada, aparentemente só a suspeita Maina Clara e a pirata velejadora Francis Drake tinham consciência do que realmente acontecia. Franka percebeu que Maina Clara, estranhamente, gritava palavras em hebraico aos homens camuflados, mas impossível saber se ela gritava “não levem Isaura” ou “levem Isaura”, pois a agente não falava hebraico. Nem o delegado Gnocchi Barbôa, que também tinha bebido muito vinho, percebeu o perigo e ajudou a pobre Condessa, que foi levada sem dó. Franka, desesperada, tentou pedir ajuda, mas os homens e mulheres todos só queriam saber de uma coisa naquele momento: sexo, sexo, sexo. A festa acabou com o salão vazio e Franka, cansada, assistindo ao patético show infindável de dança de Alex Fontes, com seu shortinho cor salmão e sua echarpe, agora imitando as meninas de Magoo, numa rebolação total. Todos os demais convidados estavam embolados em seus quartos, tendo a noite mais selvagem de sexo de toda a sua vida. Ao som da cantoria embriagada do famoso cineasta, Franka olhou para o chão e viu um dos sapatos da Condessa, perdido no chão do salão. Era difícil compreender o que realmente tinha acontecido ali. “Nossa... mas... ” – pensou Franka, assustada e confusa – "... a Condessa nunca aparece, e quando surge some assim? Frankamente, onde estará Isaura?” A agente Franka leva uma paulada na cabeça Onde está Isaura? |
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