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O Editore Tertuliano entrou no local a contragosto. Não gostava de samba, pagode, nem de lugares muito cheios. Mas Terê insistira tanto que ele cedeu. -Editorinho querido, vamos comigo, vai... estou há tanto tempo longe do Brasil, morrendo de saudade de dar uma dançadinha! Me leva, vá! – implorou a moça, uma morena linda, com corpo deslumbrante e seios fartos, que já trabalhara como modelo na Europa. Terê, uma amiga do Editore, era a proprietária da agência “Bum-bum Models”, em Amsterdã. A “Bum-bum Models” era a maior agência de modelos bundudas da Europa inteira, e Terê era presidenta e dona da empresa. Quando a moça teve a idéia, foi avacalhada e desmoralizada, mas os alemães ficaram tarados pelas meninas da Terê e a coisa deu muito certo. Terê era carioca, nascera em Copacabana, fora para a Alemanha a fim de ganhar a vida. Não era fácil, mas ela conseguiu. Não havia um alemão que não conhecesse as bundas das meninas de Terê. As bundas da Bum-bum Models eram bundas de grife. A moça conheceu o Editore em Roma, num desfile de modas. Ele estava lá a negócios, pois procurava moças modelos com talentos literários, para escrever um livro ilustrado sobre bundas e textos. Conheceu Terê e a atração entre os dois foi recíproca. Os dois ficaram tão tarados um pelo outro que, instantaneamente, tiveram que deixar o desfile e correr para o hotel. Era disso que o Editore gostava, e essas eram as mulheres que o satisfaziam: moças que se entregavam ao prazer, aos seus desejos carnais, selvagelmente, sem nenhum obstáculo nem medo. Essa era sua natureza, sua raça, o seu instinto animal. Depois desse dia, Terê e o Editore passaram muitas outras noites juntos. Depois de alguns anos tornaram-se amigos, pois tinham o mesmo instinto para os negócios e os mesmos gostos. Volta e meia se reencontravam e passavam uns tempos juntos, felizes e sem compromissos. Terê veio para o Brasil há um mês para achar mais dez moças para a agência. Precisava de mais “produtos” para levar para a Alemanha. Carne fresca, jovem e bunduda. Encontrou o Editore no shopping no dia anterior e combinaram de sair dia seguinte. Depois de um fim de tarde maravilhoso na praia na Barra e uma “rapidinha” no velho e bom sofá azul, Terê e o Editore jantaram e resolveram dançar. A moça insistia numa casa de samba, e acabou dobrando o homem. -Editore, me disseram que esse lugar é fantástico. Uma casa de “grife”. Mas preciso saber mais sobre isso... – falou a moça – pois estou desconfiada duma coisa. -Desconfiada? – falou o Editore, aconchegando-se mais na amiga, insinuante – Desconfiada de que, meu tesouro? -Acho que essa “casa de samba” é um disfarce para um local de agenciamento de moças – falou Terê, mordendo os lábios, como sempre fazia quando tinha uma idéia. -Hã? Um... puteiro? Hahaha! Nossa, Terê! – espantou-se Tertuliano, sorrindo com o canto da boca – Será? É um local enorme e muito bacana. É bem pertinho de casa, em São Conrado mesmo. Perto da Rocinha, mas num local bom. -Chama-se “A Condessa Assanhada” – falou Terê, pensativa – E isso lá é nome que se dê para um puteiro, Tertuliano? Hahaha! Que condessa assanhada será essa? Hahaha! Vamos lá comigo investigar, vamos? Topa? O Editore pôs-se a pensar no que falara a sua amiga. Nossa, um prostíbulo tão perto da sua casa? Mas isso era uma maravilha! “Mulheres, mulheres, muitas mulheres!”, pensou, esfregando as mãos. O homem adorava mulheres. Ao mesmo tempo que se entregava à elas como um cordeirinho, o famoso e imponente Editore as dominava e fazia o que queria. Era um homem extremamente ambicioso e sedutor. Difícil que uma mulher não caísse em seus braços peludos e não se apaixonasse imediatamente por ele. Tertuliano era um homem de estatura normal, mas com um corpo rijo e forte, além de ser muito peludo. Tinha o tronco e os braços rijos por causa da musculação diária e pernas grossas por causa da corrida e dos exercícios na esteira. O homem vendia saúde e disposição, e gabava-se muito de seu corpo e de seu bronzeado, que sempre mantinha impecáveis. Achava-se invejável por sua virilidade aos cinqüenta anos, o que o tornava irritante e arrogante diante de outros homens. Sempre teve poucos amigos. Na época que morava na Itália relacionava-se somente suas meninas. Sua casa fervilhava de mulheres dia e noite, e, além dele, o único homem da casa era Mimi, seu empregado e fiel escudeiro para os desabafos amorosos e sexuais (“um homem sempre precisa falar para outro homem sobre seu desempenho”, dizia o Editore a Mimi, “preciso que você me ouça, caro Mimi”). Mas o rapaz não quis vir ao Brasil com o Editore, pois resolvera fazer faculdade e mudar de vida: “chega de morar com esse homem asqueroso”, pensava, calado. Tertuliano implicava. “Estudar, Mimi?”, provocava Tertuliano, irritado com a escolha do rapaz, “um moço lindo como você poderia ganhar dinheiro mais facilmente com mulheres! Assim como eu!”, arrematou o Editore, que gostava de mandar e desmandar no rapaz. Mimi disfarçava e dizia que precisava cuidar da sua mãezinha, que estava ficando velhinha. Deu um monte de desculpas esfarrapadas e pediu demissão. Na verdade Mimi não suportava mais a arrogância e o cinismo do Editore, que sempre queria todas as atenções voltadas a ele. Ao longo dos anos, Mimi foi adquirindo tanto ódio do homem, que tinha medo do quê podia fazer. Tinha implicância pura pelas manias do patrão, e como a coisa aumentava a cada dia, Mimi achava que um dia mataria o Editore de tanta raiva. Quando o Editore resolveu vir ao Brasil, o moço suspirou aliviado, pois estaria livre e salvo de seus perigosos pensamentos assassinos. Tertuliano pensou que logo se estabeleceria no Brasil e precisaria de um novo assistente. Mas era melhor aguardar, pois no apartamento de JR já morava gente demais. O Editore gostava de mulheres, claro, mas o que queria era mais que isso. O homem, além de editor e dono da Editora Basttone, era escritor. Tinha diversos pseudônimos e escrevia usando diversos deles, mas, na verdade, nada que era publicado era dele mesmo. Tertuliano, um tremendo sacana, na verdade se aproximava de mulheres talentosas para roubar seus textos e publicá-los. Descobrira que a literatura feminina, se publicada com nome de homens, era um grande filão de mercado. Ninguém comprava livros de mulheres por julgá-las melosas e chatérrimas naquelas lengalengas amorosas, mas quando os mesmos textos eram publicados por homens faziam o maior sucesso. Tertuliano sabia disso. E era assim que ganhara dinheiro. As mulheres que vendiam mais eram sempre as mais fogosas. E ele descobrira que uma boa autora, se fosse bem “comida” por um homem, produzia textos incríveis. Mulheres gostavam de falar sobre seus casos. Se não pudessem falar, escreviam. E como escreviam, pensou o homem, encantado. Quando escreviam era capazes de torturar a vida de um homem. E ele sabia disso, e as publicava. Era venda certa e rápida. No início o Editore roubava textos secretamente. Encontrara uma moça no Brasil que dera a ele (ingenuamente) alguns originais maravilhosos, que ele simplesmente copiou e publicou. Foi assim que a coisa começou há vinte anos atrás. Ele se lembrava da moça e sorria: “que idiota que ela foi! Nunca se deve entregar um texto sem um contrato!”. Ganhou muito dinheiro a custa dessa moça que nunca mais viu. Depois passou a arrumar namoradas e pedir que escrevessem. Descobriu que se elas fossem bem amadas, se ganhassem carinho e presentes, escreviam sem problemas. Assim Tertuliano começou a publicar na Europa e construiu uma boa e sólida carreira editorial. Mas era pouco para ele. Veio ao Brasil a busca de mais sucesso, pois sabia que o fogo da grafia das brasileiras (assim como as bundas) era bem maior. O Editore veio a trabalho, para achar mais textos, mais talentos, e, claro, mais dinheiro. Queria se estabelecer aqui, conhecer mulheres e cuidar delas. Olhou para Terê. A idéia de um prostíbulo o excitou. Ainda mais uma casa de luxo, com grife. -Vamos, Terê – decidiu, dando a partida na sua Mercedes – vamos conhecer essa casa dessa Condessa. Como se chama mesmo? -“A Condessa Assanhada” – falou Terê, sorrindo – Mas assanhada estou eu, Editore! Aquele seu sofá me deixou maluca! Vai ter bis hoje, não vai? O homem riu, sem vergonha. -Hahaha! Claro, Terê... temos muitos sofás ainda para testar... muitos, minha amiga! Sob a mesa com Hipólita Navegar é preciso |
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