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O apartamento de cobertura estava escuro quando o Editore entrou vagarosamente na sala de ginástica da cobertura. Empunhava uma arma, calçava chinelos de pano e tinha um olhar catatônico, como se estivesse hipnotizado. O Editore Tertuliano olhou para os lados, procurando por alguma coisa. Não havia ninguém ali e o cheiro era muito forte. Há quase um mês ele não subia naquele local, pois o animal de Charles, Sementin, se apossara do espaço. Nas noites quentes e úmidas o cabrito dormia lá fora, no ar fresco do terraço (e por causa disso destruiu todo o jardim de bromélias, para a tristeza de Alex Fontes, que cultivava o hábito e hobbie da jardinagem), porém nos dias de chuva Charles o colocava na sala de ginástica. Por causa disso, Sementin comera todos os colchonetes, os estofamentos das cadeiras e sofás, as palhas e sizais dos móveis e causou uma caatinga tremenda no local com seu cheiro de bode molhado. Além disso, o animal, que vivia eternamente assustado, berrava feito um condenado. Todos os homens da casa andavam irritadíssimos e mal humorados com o cabrito do Dr. Charles, mas JR Rodrigues, que precisava do animal para a experiência que poderia mudar a sua vida, se abstinha de reclamar. Porém Alex Fontes e o Editore tinham acessos de fúria (principalmente o Editore, que antes da chegada de Sementin se exercitava mais de duas vezes por dia na sala de ginástica e que agora se recusava a colocar os pés lá dentro por causa do cheiro fétido) quando viam o animal, que além de usar a sala de ginástica como quarto e banheiro, vez ou outra ainda entrava na pequena piscina spa jacuzzi que ficava na varanda do terraço. A área da sauna e das duchas, que ficavam num espaço contíguo à sala de ginástica, também estava inutilizada, pois o médico as transformara em depósito de equipamentos, centro de estudos, laboratório de fotografias e sala do servidor dos micros usados para as experiências. Os dois irmãos berravam, esperneavam, gritavam e implicavam, mas JR não fazia menção de mandar Charles e Sementin embora dali tão cedo. As experiências do médico, segundo ele mesmo, estavam apenas começando. -Não é nada fácil, caro JR, nada fácil ter que trabalhar sozinho e nessas condições... – disse o homem, balançando a cabeça. JR vivia esperançoso ao ver o médico trabalhando dia e noite. -Você acha que vai conseguir, Charles? – perguntou o ator canastrão, fazendo figas – Acha mesmo que consegue me arrumar dentes novos e definitivos? O que mais eu posso fazer para você me ajudar? -Hum... Se você me ajudasse com aquilo... – sugeriu o medico, cauteloso. -Aquilo o quê? – perguntou JR, distraído. O médico deu um sorriso safado e apontou o cabrito. -Ora, JR... se você me ajudasse com aquela parte da experiência... -Ahhh... não! – berrou JR, apavorado, quando percebeu do que se tratava – Nunca, Charles, nunca! Isso não! -Hahaha! Ora, JR! É só conseguir um pouco do sêmen do cabrito para mim! – falou Charles, gargalhando – Vamos, é para o seu bem! Assim eu posso ter mais tempo para trabalhar nas experiências! -Não, não, não! – gritou o ator, apavorado com aquela idéia absurda e saindo correndo do gazebo laboratório – Nunca, Charles, nunca mais me peça para fazer isso! Charles riu alto ao ver o amigo sair dali. Suspirou. Sabia que quase ninguém toparia fazer aquele trabalho sujo, ainda mais num cabrito. Mas era preciso, pois o sêmen era a matéria prima mais importante para suas experiências. Ele precisava de sêmen e por isso trouxera Sementin, seu cabrito mais viril. O médico foi até o cabrito e respirou fundo. Olhou o animal e sorriu. -Olá, meu querido Sementin... – suspirou fundo e continuou falando com o animal – vamos nos divertir um pouco, meu caro? Hahaha... isso até que é gostoso, não é, querido Sementin? O médico vestiu as luvas masturbatórias e começou seu trabalho. Como não tinha mais os irmãos Gilles e Gilles para fazer isso por ele, e como nunca viu quais eram os métodos utilizados pelos dois gêmeos em Montalcino, teve que descobrir sozinho como executar aquela estranha tarefa. Já fizera muita coisa naqueles seus 426 anos, coisas muito piores que aquilo. Uma punhetinha a mais, uma menos, num cabritinho tão inocente como Sementin não ia acabar com a reputação de ninguém, conjeturou o médico. “Bah...”, pensou o homem, “não vai fazer diferença nenhuma...”. Na verdade, Charles não tinha nenhuma intenção de acabar logo as experiências para resolver os dentes de JR. Não tinha para onde ir e nem quem o financiasse em pesquisas posteriores, assim demorava de propósito em tudo que fazia. O médico nem pensou em usar outro ingrediente nas experiências para crescer os dentes de JR, pois precisava de sêmem para as suas experiências para acabar com aquela vida eterna interminável. Assim, usava sêmem para tudo e trabalhava uma hora nos dentes de JR e as duas horas seguintes fazia escondido experiências para si próprio. Naquele dia as coisas não estavam fáceis para o Sementin. O cabrito não estava muito a fim de colaborar, estava disperso e nervoso, e o seu estoque de sêmen tirado na semana anterior já tinha acabado. Charles parou um pouco com os movimentos e foi ao laboratório buscar uma pasta com diversas fotos de cabritas e de bundinhas de cabritas. Colocou na frente do animal, aquilo as vezes resolvia. Mas nada, o médico chegou a ter câimbras nos braços e Sementin bocejava e reclamava. Pensou em chamar Bêah, mas ela sempre fazia cara de nojo se recusava a ajudá-lo nessas horas. Ele suspirou e se levantou. Resolveu ir ao apartamento no andar de baixo. Saiu pela casa a caça das revistas pornográficas de JR e do Editore. Preciso achar uma humana bem gostosa, pensou. Quem sabe se o cabrito se animava com alguma generosa brasileira pelada? Desceu a escada e ouviu uma musica clássica suave. Charles sabia que era Alex Fontes que cozinhava uma massa e assoviava na cozinha. -Ulalá! Que delicia, querido Alex! – disse o médico, salivando ao sentir o cheiro do molho. -Sente-se aqui, Charles, venha tomar um vinho comigo – falou o cineasta, que gostava sempre de ter amigos ao redor para poder reclamar da vida e das mulheres. Charles tirou as luvas masturbatórias imundas e largou sobre um sofá. As luvas que usava para executar o “trabalho pesado” eram sempre as mesmas. Eram luvas grandes e velhas, de pano, pois o médico descobriu que eram as preferidas de Sementin. Tentara mudar uma vez de luvas e não conseguiu uma única gota de sêmen. As luvas eram importantíssimas para a experiência, Sementin chegava a tremer de excitação quando sentia o cheiro fétido delas. Dr. Charles costumava umedece-las com água morna e aplicar um lubrificante oleoso antes de usar. -Oba! E desde quando eu não aceito um bom vinho, Alex? – disse o médico, sentando-se na frente do cineasta. Alex Fontes chegou bem perto de Charles. -Charles... estou animadíssimo. Sabia que a nossa Bê vai abrir um restaurante aqui no Rio? -Bê? A bela e maravilheuse Bê La Bressiani? Mas isso é esplêndido! – disse o médico, esfregando as mãos e entornando toda a taça de vinho – Além de tudo, ela é lindíssima! O cineasta debruçou-se mais e continuou cochichando. -Quem me contou foi Franka, aquela outra nossa amiga. Lembra-se dela? -Aquela das roupas de couro? – perguntou o médico francês. -Isso. Ela tem uma construtora em São Paulo e abriu uma filial aqui. Encontrei-a hoje pela manhã, no calçadão – respirou fundo e contou – Ainda bem que ela apareceu para me salvar, a Franka. Uma das minhas atrizes, a Marcinha, anda me seguindo quando saio para andar. - E isso não é bom, Alex? – indagou o médico. -Não! De modo algum! Sabe, elas sempre querem se aproveitar de mim, algumas mulheres, eu sei... é estranho o modo como me tratam – Alex Fontes mudou de tom – Dr. Charles, você não sabe de nada. De nada. Marcinha é perigosa. O médico francês desconversou. -Mas... conte-me sobre a Franka – falou o médico, enchendo outro copo de vinho. -Ah, Franka! – falou Alex – Foi ela que me contou sobre o restaurante. Parece que será uma casa de aves e peixes: “Bê La Mare”, vai se chamar a casa. Estou curioso, pois faz algum tempo que... Alex Fontes parou de falar por causa do berro. Era o Editore que tinha acabado de chegar e estava histérico. -Aaa! Que é isso? Quem colocou essa porcaria aqui? Quem largou esse pedaço nojento de bode podre em cima do meu especiallíssimo e assinadíssimo sofá “Bird”? Que significa isso? Caramba! Charles fechou os olhos e se lembrou da luva masturbatória suja e suada. O problema era com ele mais uma vez. Deu um pulo da mesa e correu para pegar as luvas, mas foi tarde demais. O Editore, possesso de raiva ao ver seu sofá mais caro e especial manchado por água suja, sêmen de cabrito e lubrificante oleoso, jogou as luvas violentamente pela janela e partiu para cima do médico, que saiu correndo e se trancou no gazebo laboratório, apavorado. O Editore olhou o irmão que quase chorava ao ver o estrago. -Puxa vida, Tertú... Que porcaria que esse cabrito fez... -Cabrito? É coisa desse médico! Não suporto mais esse bode peidorrento aqui em casa. Chega! – disse o Editore, olhando fixamente para o irmão – Chega! -Epa, Tertú, que cara é essa? Você não vai fazer uma maluquice, vai? – perguntou Alex, assustado. O Editore não titubeou nem um segundo para responder. -Vou fazer o que é certo. Vou matar esse animal fedorento, meu irmão. Matar, meu caro! Ma-tar! Hahaha! -Não, Tertú, Charles vai ficar... – argumentou o cineasta, apavorado com o olhar do irmão mais velho e mais bravo – Você não... -Dane-se esse médicozinho de araque! Chega de viver assim! – o Editore levantou a blusa e mostrou um pneu na barriga – Sabe o que é isso? Falta de ginástica! Preciso usar aquela sala de qualquer modo, ora! O JR que se vire para resolver onde arrumar mais “porcarias” de bode para as experiências dos dentes dele! – berrou Tertuliano, saindo da sala batendo os pés no chão com força. Alex Fontes tremeu ao ouvir o irmão, mas não falou nada. Matar Sementin era algo que nunca passou pela sua cabeça, apesar dele mesmo não suportar mais o cabrito. Mas... matar? Charles ficaria arrasado, e ele não achava era preciso tomar uma atitude tão drástica. Porém Alex conhecia o irmão, sabia que Tertuliano era capaz de fazer aquilo e até coisas muito piores. “Tenho que fazer alguma coisa”, pensou, subindo ao laboratório para falar com o médico, “e rápido!”. O Editore desmarcou todos os seus compromissos (tinha marcado um encontro com duas amigas, uma vez que não achou a maravilhosa Hipólita no telefone que conseguiu com o garçom) e se trancou no seu quarto. Mas não dormiu. Ficou acordado até as três horas da manhã, quando vestiu os chinelos, pegou a arma e saiu dali. Andava como um autômato, como se estivesse hipnotizado, como se fosse um zumbi, um morto vivo. Estava obcecado com a idéia de matar o bicho e não conseguia fazer mais nada. Subiu as escadas em silêncio e entrou na sala de ginástica no escuro. Nem o cheiro podre do local o fez hesitar. Tertuliano sentiu onde estava o animal e se dirigiu para o local com a arma engatilhada. Apontou para Sementin, que dormia tranqüilamente, e só não apertou o gatilho porque foi atingido antes na cabeça por algum objeto de metal pesado e desmaiou no mesmo instante. Um encontro no calçadão Navegar é preciso |
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