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Home do Gallacci FAU USP turma de 1980 Literatura  Bêah, a diarista
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Bêah, a diarista

Dr. Charles recebeu o e-mail de JR e ficou boquiaberto. Há um ano que nada de novo acontecia na sua vida. Nenhuma pesquisa era financiada, nenhum estudo era feito, nada era pesquisado. Estava jogado às traças naquele castelo abandonado. A mensagem do ator canastrão, com o pedido (completamente esdrúxulo) para que ele estudasse uma fórmula que fizesse crescer dentes novos em adultos, fora uma força propulsora na sua vida. O homem ficou esfuziante de alegria de voltar a trabalhar. “Sim”, ele respondeu ao ator, “sim, acharemos a formula para fazer crescer dentes” (o médico estava tão feliz de ser contratado novamente que faria qualquer experiência). JR beijou a tela do computador de alegria quando recebeu a mensagem do homem. Segundo o médico, ele fez alguns testes e estudos naquela semana e já tinha chegado a algumas conclusões. O restante ele pesquisaria no Brasil.
“Nada tema, JR.
Minhas pesquisas com sêmem de caprinos e outros quadrúpedes revelaram recentemente que, em altas concentrações e garantida a pureza, tudo fazem renascer... Note que a pureza e concentração naturais dependem, claro, da administração “in natura”.
Tenho uma formula básica para o seu problema. No momento, creio que as dosagens recomendadas são ainda um tanto elevadas, e o produto é para administração oral, exclusivamente. Requer-se um bochecho prolongado após o qual seguir-se-á a ingestão. Como sempre, nossos produtos devem ser manuseados com extremo cuidado, evitando-se chacoalhar os frascos em que são apresentados.
Observei-se nessa fase experimental que o crescimento de novas dentições não é absolutamente regular, podendo resultar em falhas como comprimento e alinhamento irregulares. Portanto, no estado atual da arte, pode ser necessário o acompanhamento de um ortodontista.
Em breve disporei de uma avançada linha natural, na qual a adição de substâncias como acidulantes e edulcorantes será reduzida a um mínimo, assim como se espera que o crecimento da dentição seja mais uniforme. Verifique abaixo, por favor, minhas credenciais médicas e veterinárias que envio anexo.
Um grande abraço. Chegarei assim que conseguir a documentação necessária.
Dok Charles”
Lá em Montalcino o Dr. Charles estava na penúria. Ele queria muito começar uma nova experiência, mas era difícil não ter nenhum patrocinador, e toda a sua poupança estava se esvaindo em álcool. O médico estava mais caído a cada dia, já nem saia mais do laboratório do subsolo. Dormia sobre a terceira prateleira da estante do depósito (o local menos úmido do ambiente), apoiado em sacos de algodão vencido, almoçava sanduíches de queijo de cabrito trazidos pela ex-esposa e se embebedava dia e noite.
-Levante-se e reaja, Charles – falou Bêah, preocupada – Você vai acabar ficando doente se não sair um pouco daqui do porão. Tem muito fungo nesse local.
-Tsc – resmungou o homem, carrancudo – Levantar para que? Tsc! Quer que eu faça o quê, minha lolita? Tsc – suspirou o homem, deitando-se novamente.
-Levante-se daí, Charles! – gritou Bêah, nervosa – Você vai morrer se ficar deitado ai o dia todo! Vai ficar doente!
-Tsc. Não perturba, menina – bufou o homem – Me deixe em paz. Bah!
-Mas você precisa sair daí! – insistiu a ex-esposa, irritando ainda mais o homem.
Charles levantou-se subitamente e olhou para o rosto da mulher. Berrou tão alto que ela quase se desequilibrou e caiu no chão. Bêah assustou-se com aquela atitude de Charles, pois nunca o vira assim.
-Ei – falou a mulher – Calma...
-Como “calma”, Bêah? Impossível ter calma! Não tenho trabalho nem dinheiro, e estou decrépito e bêbado dia e noite! Quem me dera morrer logo, cherie! – desabafou o homem, com o rosto inchado.
-Não fale assim! – gritou a moça, assustada com o olhar do médico francês – Não!
-Mas nem isso! Nem isso eu posso fazer! – desabafou Charles.
-Charles... o que houve? – perguntou Bêah, mudando o tom da voz – Você tem algum problema que eu não sei?
O médico olhou para a sua velha esposa com aquela cara de menina e teve vontade de chorar. Talvez fosse bom contar tudo para ela. Alguém precisava saber do que acontecia. Alguém.
-Bêah, sente-se aqui comigo na prateleira – pediu o homem – Venha aqui ao meu lado. Me dê a mão, minha querida.
-Charles, o que houve? – perguntou a moça.
O médico suspirou e começou a contar.
-Olhe. Há uns anos atrás fiz uma experiência. Uma experiência sensacional. Eu inventei a fórmula da vida eterna.
-Vida eterna, Charles? – falou a mulher, sorrindo – Ah, você tem cada uma...
-Ouça e não me interrompa, Bêah – falou sério o médico – Eu trabalhei nessa fórmula muito tempo. Meses. Anos. Décadas. Um certo dia, eu a conclui... Quando acabei, quase chorei de emoção. Eram somente nove gotas, mas era a fórmula da vida eterna.
O médico francês olhou para o teto, suspirou e continuou.
-Eu tremia todo. Tinha certeza que aquilo era milagroso, que era a mais poderosa fórmula já inventada em toda a humanidade. Fiquei, muito, muito feliz. Acho que foi o dia mais feliz da minha vida. Sendo assim, resolvi comemorar. Sai pelas ruas de Paris rindo sozinho. A vida eterna, eu pensava. Achei que ficaria milionário com aquilo. Entrei no “La Tortue” e pedi uma bebida. Uma não, pedi muitas bebidas. Bebi, bebi, bebi até ficar tonto. Bebi, bebi, bebi até não lembrar de mais nada. Eu estava feliz, minha Bêah! Entende?- perguntou o homem – Feliz, muito feliz!
Charles pigarreou e continuou relembrando.
-Nem me lembro como cheguei ao laboratório. Entrei no local, me deitei no chão e dormi. Acho que foi isso, Bêah. Dormi profundamente e muito feliz. Só sei que acordei com as labaredas ao meu redor. Muitas labaredas, um grande incêndio tomava conta de todo o prédio do laboratório. Acho que fui eu mesmo que causei aquilo, pois o lampião estava no chão quando acordei.
-Lampião? Mas.. – a moça interrompeu.
-Shiu, ouça! – mandou o homem – Eu fiquei apavorado. Tudo pegava fogo, tudo! Minhas experiências, minhas pesquisas, minhas fórmulas. Tudo queimava como gravetos secos, estalando e indo embora. Eu me desesperei, e comecei a tentar apagar o fogo sozinho. Era impossível, ele corria muito mais que eu. Como não sabia o que fazer, peguei a fórmula da vida eterna, o frasco de ouro com as gotas e bebi. Eu mesmo bebi a fórmula. Não sei porque fiz isso. Talvez porque achei que fosse o único modo de salvá-la.
Charles tapou os olhos com as mãos, chorando.
-Não sei porque eu fiz aquilo. Nem imaginava o que aconteceria comigo, achei que desmaiaria e viraria pó junto com todo o laboratório, mas meus olhos se abriram e eu senti uma força estranha se apossando do meu corpo. Parecia que eu crescia. Fiquei enorme, me levantei e sai dali vagarosamente. Fiquei em transe uns dez dias.
O médico olhou para a ex-esposa e completou.
-Isso tudo aconteceu há exatos 426 anos atrás, Bêah.
-O quê? – a moça deu um pulo – Como?
-Sim. Quatrocentos e vinte e seis anos atrás, minha Bêah. Estávamos no ano de 1.578 – ele parou e suspirou – Eu vivo, Bêah, para achar o antídoto dessa fórmula. Não agüento mais viver. O seu Dr. Charles Vincent vive há quase meio século... Não consigo envelhecer. Sou o mesmo homem há 426 anos. É insuportável, é horrendo, é desesperador. É desumano viver tanto, Bêah!
A ex-esposa, assustada, afastou-se dele e passou a olha-lo com aflição. Que tipo de monstro era aquele homem? Um morto vivo? Bêah ficou toda arrepiada e passou a sentir frio. Seus pensamentos estavam confusos. Então ela se casara com uma anomalia? Uma aberração? E aquilo que ele fizera com ela, rejuvenescendo-a até a juventude? Será que ele a usara como cobaia?
-Charles, eu... eu... não! – falou a moça, apavorada, tapando a boca.
-Eu preciso que alguém me financie, estou quase descobrindo o antídoto, Bêah! Mas sem dinheiro não dá! Os ingredientes são caríssimos e raros.... entende o que eu passo? – falou o homem, suspirando – preciso envelhecer!
Bêah o abraçou e passou a agradá-lo. Pobre Charles, pensou a lolita, ainda confusa, mas com pena dele.
-Venha comigo – ela falou, tirando o homem da prateleira – Vamos tomar um banho, vamos dormir juntos essa noite. Eu vou cuidar um pouco de você. Afinal, um homem da sua idade... precisa de cuidados, não é?
Bêah e Charles passaram a ficar juntos e se aproximaram novamente. Bêah começou a fazer uma série de bicos na cidade, fazendo faxinas aqui e ali (a cada dia ela tinha mais disposição, apesar de gastar parte do dinheiro com balas e guloseimas). Pôde comprar comida, roupas novas para os dois e em seis meses ela comprou um novo computador para Charles trabalhar. Foi um período difícil, mas os dois venceram juntos. Bêah fazia tudo que podia por aquele homem. Afinal, na idade dele... Como ele conseguia ser tão viril naquela idade?
Quando Charles recebeu a mensagem de JR, deu pulos de alegria e começou a dançar no quarto como uma criança. Sim, alguém ia financiar uma pesquisa para ele, alguém ia contrata-lo como pesquisador! Isso era fantástico, pensou o homem, animado em mudar de ares e começar um trabalho novo, além de pensar que teria tempo, a noite, para tentar descobrir um antídoto para si mesmo. O Dr. Charles parecia uma criança de tão feliz.
-Bêah, minha querida, vamos conhecer o Brasil! Vamos para o Rio, Copacabana!
-Que bom, meu nenê, que maravilha! – exclamou a moça, encantada com a idéia de sair daquele castelo úmido e escuro e tratando o médico ora feito um velhinho bebê ora feito um morto vivo – vamos, venha comer sua sopinha com a sua Bêzinha... você precisa de cuidados, meu vovozinho...
Bêah arrumou as malas naquela noite. Estava obcecada com a idéia de sair dali. Olhou-se no espelho antes do banho. Sim, pensou, ela estava ficando verde. Estava mofando, sim, mofando naquele castelo horrível. Verde, ela pensou, olhando a sua pela alva e branca. Vou para o Rio de Janeiro, que maravilha! “Poderei tomar sol, me bronzear, colocar um biquininho! E eu serei livre”, imaginou Bêah.
Charles desceu ao laboratório para arrumar suas coisas. Já tinha combinado com JR como as coisas iriam funcionar. Ele montaria seu centro de pesquisas no próprio apartamento de JR, uma cobertura de 900 metros quadrados. Segundo o ator, o apartamento tinha sete suítes, e ele e Bêah poderiam ficar com uma delas. Além disso, Charles poderia montar o centro de pesquisas para crescimento dentário na estufa. O decorador de JR projetou uma enorme estufa para orquídeas no terraço, mas ele nunca se interessara por jardinagem. Uma época colocara uma cama de água no local, mas o lugar era quente demais para a prática do sexo. O Dr. Charles poderia instalar seu laboratório lá, disse o ator canastrão.
Depois que Charles resolveu ir embora, o Conde Ribolla resolveu apressar a sua saída dali. Porém ficou com seus sapatos furados de tanto perambular de imobiliária em imobiliária para tentar vender o Castelo. A cada dia o homem, desesperado, abaixava mais o preço e ralhava mais com todos ali dentro.
-Vou conseguir vender esse Castelo nem que tenha que me prostituir por isso! – berrava o homem, que ainda se achava um galã – Ora, ora, isso aqui é uma pérola!
Mas não conseguiu o que queria, e, pressionado e atolado pelas dívidas, acabou vendendo o Castelo em Montalcino por um décimo do preço que pretendia. O comprador do Castelo fora um investidor italiano que não se identificou e quis se manter no anonimato até na assinatura da escritura (e, segundo as leis do local, isso era permitido: bastava que o proprietário se identificasse por telefone ou por cochicho no ouvido do escrivão). O investidor era conhecido apenas pelo misterioso apelido de “Mama”. O “Mama” nunca foi visto pelo Conde, que não imaginava quem ele pudesse ser (O Conde, dada a situação humilhante de penúria que passava, também pensou que não gostaria de saber nem conhecer esse “Mama” nunca – era melhor que ele fosse apenas uma incógnita na vida do ex-milionário).
No final das negociações o Conde Ribolla estava aliviado, mesmo sabendo que saíra perdendo. Ao menos saldou as dívidas e pagou as hipotecas todas – estava limpo e não devia nada a ninguém. Mas se quisesse sobreviver dali em diante precisaria trabalhar. E era isso que o desesperava: trabalhar. Como o homem ia fazer, se toda a sua vida fora apenas “comandar”? E trabalhar com o que, e para quem?
Depois de um período de depressão, o Conde passou a escrever aos amigos pedindo ajuda. Teve que escrever cartas à mão, dada a sua situação – morava numa pensão em Firenze e não tinha computador – mas tentou ser sincero com os colegas. Pedia desculpas pelo que já tinha feito na vida e dizia que procurava emprego.
A única pessoa que respondeu a suas cartas fora Bê La Bressiani, sua antiga paixão e ainda dona de um restaurante em São Paulo, no Brasil. Bê e o Conde tiveram um affair no passado. A moça gostava do Conde, e compadeceu-se de sua situação. Mandou uma resposta ao homem, dizendo que se ele tivesse condições de vir ao Brasil, ela o empregaria na sua trattoria “La Bressiani”, “Preciso de um maitre, Conde. Topa?”, disse a moça na sua carta. E, se ele quisesse, poderia dormir num quartinho nos fundos do estabelecimento.
O Conde Ribolla viu uma luz no final do túnel. “Ora, ser maitre...”, pensou, “ser maitre de um restaurante não é tão mal assim, afinal, maitres são um tipo de líderes”. Mas como arrumar dinheiro para a passagem? Foi quando lembrou-se de Bernardes Moreira e suas obras de arte. O homem, quando saíra do Castelo, montara um atelier também em Firenze, e ali morava com as duas velhinhas e ex-empregadas do castelo, Regina Nina e Hannah. Estava muito bem de vida por causa da literatura e das esculturas. Bernardes Moreira recebeu o Conde de braços abertos e lhe deu algumas obras, que renderam dinheiro suficiente para a compra da passagem ao Brasil. Mas o Conde manteve em sigilo a sua viagem. Apenas Bê sabia que ele ia voltar. Era melhor assim, pensou o homem, que temia represálias, pois tinha consciência de suas maldades no passado. Não contou nem a Charles que ele também ia voltar.
O dia da chegada de Charles ao Brasil se aproximava. Alex Fontes, ao ver a animação do ator canastrão, foi conversar com ele.
-JR, como está sua combinação com o médico francês? Ele vem mesmo para cá?
-Sim – sorriu o ator, animado – Chegará semana que vem, Alex! E eu já arrumei dinheiro para custeá-lo, ficarei rico de novo, você vai ver! Sabia que vou fazer um novo filme? Chama-se JR-Potes! Um filme infantil! Não é incrível? E Charles chegará em breve! Ele me disse que já embalou todo o laboratório. Sabia que ele e Bêah estão juntos de novo? Sabia que ela também vem para cá? - o ator falava sem parar.
-A moça francesa, aquela, com cara de menina? Iii... – Alex Fontes fez uma expressão de preocupação – Aquele moça não saia do meu pé na festa do Conde.
-Alex, pare com essas paranóias! Bêah é distraída de tudo, nunca reparou em você! – desconversou JR.
-JR, não se exiba desse modo! Você acha que as moças só olham para você. Que coisa mais chata! Pare com isso! Claro que Bêah me notou – Alex fez uma cara de interessado – Mas... ela voltou e está casada com o médico ou é apenas a sua assistente?
-Não sei se eles estão juntos... – falou JR – Mas o Dr. Charles me disse que traria a moça com ele. Ele me disse que ela “cuida” dele, atualmente... não entendi porque, mas, enfim... E disse que ela se encarregaria de todo o serviço doméstico daqui do apartamento. Lá na Itália, em Montalcino, me parece que ela está trabalhando de empregada doméstica! As coisas por lá estão pretas, Alex. Imagine... aquela lolita maravilhosa, com aqueles peitinhos de menina, hum... de empregadinha. Hum-hum... que delicia!... Sabe? Acho que vou até registrá-la. Que acha?
Alex Fontes levou um susto.
-JR! Está me dizendo que Bêah será a nossa... empregada?
-Sim – sorriu o ator canastrão – Já pensou? Bêah será nossa diarista! E que diarista, oh, my Johnnie! Hum-hum! Que diarista!

A "mulata assanhada"
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