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A reunião seria às 14 horas. Franka passou no restaurante de Bê, numa rua tranqüila dos jardins em São Paulo, deu duas buzinadas e parou a Land Roover preta. Avistou a amiga na frente do estabelecimento e deu um tchauzinho para chamá-la. O restaurante “La Bressiani” era uma pequena trattoria especializada em massas e carnes, e Bê era a melhor amiga de Franka e dona do restaurante. Franka era agente secreta, e Bê ia começar a trabalhar oficialmente com ela de agora em diante. As duas tinham uma reunião com o chefe de Franka, na ANCUS, e ela combinara de pegar a amiga. Na vida real Franka era arquiteta e dona de uma grande construtora, a Construtora Vergalhão, herdada do seu pai. Tinha uma vida de executiva que consolidava com a vida de mãe e dona de casa, e ainda arrumava tempo para as atividades de agente da ANCUS. Bê sempre ajudara Franka informalmente, mas agora o chefe de Franka, F. Agassê, concordara em tornar Bê uma agente autônoma. Aquele seria o dia das apresentações formais. Uma semana antes, a agente Franka contou para Bê tudo sobre a Agência. Explicou que logo depois que F. Agassê largou a presidência do Brasil, assumiu secretamente a direção geral da Agência Nacional de Coisas Ultra Secretas, ou ANCUS. Ele sempre foi um homem apaixonado por histórias de detetives, espionagens, 007, filmes policiais, filmes de agentes secretos e tudo o mais. Quando era presidente criou a AAAs, ou Associação dos Apaixonados por Agentes secretos, um grupo de fanáticos como ele que se reuniam numa sala no subsolo do palácio nas horas vagas para conversar sobre o assunto. O presidente e outros apaixonados colecionavam livros, filmes e teorias sobre esse tema. - Ora – explicou Franka para a amiga – não é porque o cara é presidente que ele não pode ter um hobbie, não é? A agente continuou a contar baixinho, em tom de segredo. - Bê, escute só. F. Agassê sempre teve planos de assumir a ANCUS – disse Franka – No dia seguinte ao término do mandato, numa pequena cerimônia no banheiro do aeroporto Charles De Gaulle, em Paris, o ex-presidente foi nomeado presidente da ANCUS. Ninguém ficou sabendo de nada, pois foi uma cerimônia particular, solitária e secreta. Ele estava sozinho, acredite. Franka pediu sigilo absoluto a amiga. Ela não poderia falar nada para ninguém sobre isso. -Mas porquê eu preciso saber disso, Franka? – perguntou Bê. -F. Agassê me pediu para indicar um ou uma assistente. E eu indiquei você – Franka olhou a amiga – Você terá que passar por um período de treinamento, claro. E... talvez sua vida mude um pouco, Bê. -Um pouco? Hahaha, essa é boa... – exclamou Bê, que sabia que tudo iria mudar dali em diante – Vamos, explique melhor. -Bê, nessa nossa profissão não existem muitas explicações – falou Franka – Aprenda isso: alguém te diz o que fazer. E você faz. Apenas diga sim. Topa? -Sim – disse Bê, de olhos arregalados. -Trabalharemos direto com o homem. Semana que vem iremos até a ANCUS para falar com ele. -Uau! Que rapidez! – respondeu Bê, esfregando as mãos – Ah, enfim, vou sair um pouco dessa cozinha! -Cada agente especial, como eu, pode ter um assistente secreto. Ninguém sabe quem é o AS de cada AE. Tudo isso é justamente para proteger os AS dos perigos que rondam os AEs. Eu sou uma AE, você é uma AS – Franka recostou-se na cadeira e sorriu para a amiga - Ah! E não me pergunte mais nada. -Sim, senhora! – brincou Bê La Bressiani, batendo uma continência para a amiga. As duas estavam na sede da Vergalhão. Franka, como era presidenta executiva geral da empresa e estava a trabalho, usava um seriíssimo tailler preto e sapatos de salto alto. Estava vestida de modo diferente e a amiga estranhava, pois estava acostumada a ver a Franka com calças justas de couro preto ou com jeans muito surrados e botas. A agente levantou-se da cadeira. - Bê, tenho que ir na obra do Gregório e Gregorinho – disse Franka, pegando a sua pasta e o celular. -E eu tenho muito trabalho no restaurante. Olha, veja, já são onze horas! – falou a amiga, levantando-se também. -Então não se esqueça. Semana que vem vamos a ANCUS juntas. No dia combinado, Franka pegou Bê no restaurante. Bê estava viçosa, com um vestido justo e florido que realçava suas generosas curvas e cheirava a água de colônia. Ela olhou para a amiga agente, sorrindo. - Imagine chegar lá com cheiro de cebola! Chegaram dez minutos antes. Não era bom Bê atrasar num primeiro encontro com o homem. Antes de entrar no prédio, ainda no carro, Franka colocou a peruca, os óculos e o batom. A dona do restaurante levou um susto, mas Franka explicou que não poderia entrar na Agência como uma pessoa comum. Franka riu e explicou. - Com o tempo você aprenderá, Bê. Uma das maneiras de você não ser reconhecida como uma agente ultra hiper secreta é se vestir como uma agente ultra hiper secreta, com capa, peruca e óculos - disse Franka, rindo. Franka tinha um corpo descomunal, com grandes e roliços seios e chamava atenção por onde passasse. Vestida de agente secreta, então, era um escândalo. Ninguém, em sã consciência, ia acreditar que ela era realmente uma agente ultra secreta. Era um disfarce confuso, mas no final dava certo, pensava a moça. Entraram no saguão do edifício, anunciaram-se ao porteiro e subiram. No hall do déciomo oitavo andar, encontraram uma mulher esbaforida. Era Paty Cócegas. Paty também era agente da ANCUS e secretária de F. Agassê. Franka analisou as roupas da moça e percebeu que ela estava descabelada, usava uma bolsa Prada falsificada e carregava diversas sacolinhas de plástico. Hum. Um disfarce perfeito. A moça sorriu para elas e disse que o homem as aguardava na sala de reunião grande. Perguntou a Franka o que ela achava do seu disfarce novo. - Andar “riponga” desse jeito não é perfeito? Ninguém desconfiará de mim – falou Paty, animada – Aliás, nem me deixam ela entrar em alguns lugares. Só não posso usar sandálias de dedo. F. Agassê me disse as havaianas que são proibidas na ANCUS. Pena. Adoro havaianas – disse a moça, sorrindo. Franka riu e concordou. Bê simpatizou com a moça naquele momento. Era engraçada, e parecia estar muito feliz com seu trabalho. Mas Bê estava nervosa. Aquilo tudo era muito diferente, e, embora ela tivesse topado na hora, estava amedrontada, pensando o que estava por vir. As duas entraram na sala. Bê olhou o local. Era desastroso. Parecia que elas estavam na sala do Pingüim, o inimigo do Batman. A sala era escura, confusa, com toda a fiação a mostra, com uma distribuição errada de mobiliário, com móveis velhos e muito usados. Numa parede lateral haviam fotos de filmes de espionagem, e numa outra havia um enorme pôster com uma foto do ex-presidente andando numa praia de bermudão florido. O que seria aquilo? Será que também era um disfarce? Franka sorriu, mas não disse nada a amiga. O homem estava sentado numa grande mesa e levantou-se quando elas entraram. Era ele mesmo, apesar de disfarçado também. Vestia uma roupa completamente inadequada para um homem como ele, mas isso tudo fazia parte do plano. As calças de nylon, cheias de bolsos laterais, dignas de um skatista de 15 anos, faziam um chiado quando ele caminhava, e a camiseta usada e rota com dizeres em inglês parecia um pijama surrado. Perfeito, pensou Franka, esse homem é um gênio. O conjunto se completava com um lindo sapato social de couro italiano, provavelmente da época da presidência. Ele se adiantou e pôs-se a falar, animado. Elogiou muito Franka. -Franka, Franka… minha Franka 4-26. Você é uma das nossas melhores agentes, sabia? – disse, sorrindo – Mas não diga que eu te contei isso, pois aqui na ANCUS não temos o hábito de elogiar as agentes mulheres, pois elas ficam exibidas e podem alegar assédio sexual. Hahaha! Mas você é especial, merece um elogio mesmo. -Obrigada – disse a moça, lisonjeada. F. Agassê olhou para o lado e continuou. - E essa é a... – disse o homem olhando para Bê. - Bê La Bressiani – disse moça, estendendo a mão – Prazer. F. Agassê aproximou-se dela e, ao invés de apertar a sua mão, deu um estalado beijo na bochecha, assustando a moça. Ele sorriu. - Hahaha. Não é preciso tanta formalidade, Bê – disse o homem, sorrindo. Ele pigarreou e mudou de assunto, olhando para Bê – Cara Bê... em primeiro lugar, teremos que mudar esse seu nome – declarou o homem, categórico – Você vai ser a Agnes, Agnes Senga 3-69. - Quê? Eu serei a Agnes o quê? – espantou-se a dona do restaurante. - Bê – interrompeu Franka, explicando – Não somos nós que escolhemos esses nomes. É a Agência. - Agnes... – falou Bê, pensativa – Agnes Senga 3-69... puxa... F. Agassê retomou a conversa, sério. - Vocês duas vão trabalhar juntas de agora em diante. Já conversei com Franka a respeito e ela me disse que já falou com você. Porém, Agnes, você terá que passar por um treinamento. Dentro de vinte dias estará liberada. Nosso centro de treinamento é em Angra dos Reis, numa ilha. É relativamente simples e é para sua própria segurança – o homem suspirou fundo e continuou – Agora a novidade. Vocês duas serão transferidas para o Rio de Janeiro logo que Agnes voltar do centro de treinamento. Franka deu um pulo da cadeira e gritou alto. - Quê? Rio de Janeiro? Não! F. Agassê não deu a mínima bola para o grito de Franka. - Rio de Janeiro, sim. Sei que no inicio vocês terão que ir e vir daqui para lá, mas teremos um flat e carros a disposição. Depois arrumaremos apartamentos para vocês se estabelecerem por lá definitivamente com suas famílias e mudança. - Mas... – hesitou Franka – e a Vergalhão, como eu...? Ora, acho que... - Ora Franka! Isso se resolve! Uma grande empresa como a sua pode muito bem ter uma filial no Rio! – ele cochichou para ela, sorrindo – E... e quem sabe não aparecerão novos negócios por lá? Bê olhou assustada para o homem. - E eu? - Você vai montar um filial do seu restaurante no Rio, Agnes. Já estamos providenciando um belo local no Leblon. Pode escolher o nome – ele completou, falando em outro tom – Conheço seu restaurante. É maravilhoso. - Nossa... – falou Bê, assustada com a quantidade de novidades – Rio de Janeiro? E o que vamos fazer lá? O homem virou-se para Franka. - Por enquanto, não posso revelar nada. Estamos precisando muito de agentes no Rio. Vocês duas serão muito úteis por lá. - Você também vai, F. Agassê? – arriscou Franka. O homem olhou para a sua agente e amiga. - Ai que está. Eu não vou, Franka. Terei que assumir a direção de uma grande e perigosa missão em Frankfurt. Volto só daqui a seis meses. - E quem... – Franka olhou para ele, interrogativa – E quem vai nos... comandar? Ele sorriu, tranqüilo. - Vocês estarão nas mãos do meu sucessor. Ele está aqui na ANCUS e eu o chamarei para que vocês o conheçam. É o grande P. Ettthê, vocês sabem quem ele é – ele fez uma pausa, pois o nome do homem, o maior intelectual e pensador brasileiro, causou um tremendo impacto nas duas. Olhou para Franka, que estava muda e boquiaberta. - Franka, você sabe. Não gosto de explicar muito, nem de falar muito. Gosto que meus agentes ajam com suas cabeças e que se resolvam sozinhos. Você continuará com suas missões, e, se for preciso, me ligará do nosso velho sapato. O ex-presidente tirou o sapato da gaveta, igual ao que Franka tinha na bolsa. Era um sapato telefone igual ao de Max, o agente 86 do seriado da TV. Era cômico, e Agnes caiu na gargalhada, como acontecia toda vez que via o outro par daquele sapato velho da amiga que a comunicava com F. Agassê. Ele pegou o interfone. - Paty, chame P. Etthê, por favor. Franka e Bê prenderam a respiração quando a porta se abriu e o homem entrou na sua cadeira de rodas motorizada. Era um homem grisalho e elegante, com um olhar pesado, sério e penetrante, que vestia um casado de lã cinza de gola rulê. Tinha um ar de tranqüilidade e segurança. As duas prenderam a respiração. Elas sabiam quem era aquele homem e o que ele significava para o país e para o mundo. Trabalhar para ele seria maravilhoso porém perigoso, pois ele não admitiria um deslize sequer. - P. Etthê, essas são Franka e Agnes, as agentes que lhe falei. Franka trabalha comigo há um ano, e Agnes está em treinamento. Deixo as duas com você, de agora em diante. O homem na cadeira de rodas olhou dentro dos olhos de cada uma delas e estendeu a mão vagarosamente, sem sorrir ou expressar nenhuma emoção. - Agnes, Franka, é um prazer trabalhar com vocês – ele ficou em silêncio um bom tempo olhando as duas, até que falou, sério e pausadamente. O homem não tirava os olhos das duas – Ao trabalho. Encontrem-me dia vinte e cinco de outubro nesse endereço no Rio. Mandem-me uma mensagem, um dia antes, confirmando a chegada de vocês, dizendo “the eagle has landed”. E aguardem as orientações seguintes. Eles lhes deu um cartão com um nick e um endereço de e-mail. - Ei. Acordem. As duas olharam para F. Agassê e sorriram. O novo chefe era um homem hipnótico. -Errr... F. Agassê, alguma recomendação a mais? – perguntou Franka ao ex-chefe. -Sim, minha cara – falou F. Agassê, sorrindo – Boa sorte para vocês. Não se esqueçam que nesse mundo da espionagem é importante ser óbvio. As pessoas não desconfiam de coisas óbvias. Por isso eu estudo tanto os filmes de espionagem. Ninguém acredita que as coisas que as pessoas vêem no cinema possam acontecer na vida real. Se imitarmos a ficção, estaremos sempre salvos – disse F. Agassê, dando um beijo em cada uma e saindo dali, fazendo um certo barulho com suas calças de nylon cheias de bolsos. Quando elas se voltaram para falar com o grande P. Etthê e se despedir dele, descobriram que não havia mais ninguém na sala. Elas estavam sozinhas ali. As luvas do Dr. Charles Navegar é preciso |
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