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Os cinco homens se sentaram em círculo na sala de estar do chiqueirinho. O Conde, antes de começar a falar, se levantou e checou se as portas anti ruído estavam fechadas e se as janelas estavam cerradas. O assunto que seria abordado ali era ultra-secreto. Um grande segredo, que deveria ficar entre os membros da “confraria dos cafas”, como eles sempre se auto-intitulavam depois de beber alguns copos. -Queridos! – disse o Conde Ribolla, coçando o saco e dando um grande sorriso – Ah! Vocês não sabem como fico feliz em ter vocês todos aqui...! Acho que todos se conhecem, menos Moreirão e Charles, não? Mas já falei muito de um para o outro – o homem olhou para Charles e apontou Moreirão – Charles, esse aqui que é o grande Moreirão!... Foi até um armário num quarto anexo e pegou uma garrafa de vinho empoeirada. Trouxe e mostrou aos amigos, orgulhoso. -Vejam. Cinco mil reais. É o que dizem que vale. Cinco mil! O Conde sacou a rolha com certo espalhafato e completou, exibido. -Acho pouco, muito pouco... cinco mil... esse encontro vale muito mais que isso...! Não acham? O homem serviu a bebida aos amigos, orgulhoso da sua safra, do seu castelo, do seu poder. Rodrigues, sentindo a cena, levantou-se. -Um brinde ao nosso grande amigo Conde Ribolla! Tim Tim! -Tim Tim! – disseram todos, em uníssono – Tim Tim! Rodrigues sentou-se novamente e deu um suspiro. -Conde, mas que viagem cansativa! Nossa! Alex adiantou-se e deu uma risada. -Ah... a viagem que foi cansativa, Rodrigues? Hahaha! Essa é boa! – virou-se para os outros quatro e apontou o ator – O nosso amigo “representou” a noite toda... e depois fala que a viagem foi cansativa! Hahaha! Essa é boa! Rodrigues entendeu a piadinha que o cineasta fez e não perdeu a chance de comentar a noite anterior. -É mesmo! E que filme, que filme! – disse Rodrigues, animado – Há tempos que eu não tinha uma noite dessas! – Virou-se para o Conde e cochichou – Três, Conde. Três biluzinhos daqueles! Tetéias! Oh my Jonnhie! Ú ú! O Conde sorriu e abanou a cabeça torta. Esse Rodrigues era dos seus... -Fiquei preocupado se você vinha ou não, Rodrigues... As filmagens do seu novo filme ainda não começaram? – disse o Conde a Rodrigues. -Não, só depois de acabar a época das chuvas. Todas as cenas são externas, entende? Nada de estúdio. Alex virou-se para Rodrigues. -Ah. Um novo filme, Rodrigues? – o tom era levemente sarcástico – E... do que se trata? O ator canastrão se inflou ao responder. Rodrigues realmente achava que era um grande astro. O papeis que ele fazia na tela e na vida real eram exatamente os mesmos. -Sim! O meu primeiro filme “infanto-juvenil”, Alex. Um grande investimento nesse mercado – Rodrigues falou, orgulhoso – patrocínio da “playmobil”! -Um... filme “infanto-juvenil”? – assustou-se Alex, acostumado com cinema de arte. Arriscou – Um filme infanto-juvenil do nosso velho e bom... “detetive Rangel”? -Isso! “Power Rangel”! – respondeu Rodrigues, animado, dando um pulo da cadeira – Não é o máximo esse nome? “Power Rangel”! – completou o ator, fazendo uma ridícula pose de lutador com uma espada imaginária na mão. Rodrigues deu um largo sorriso e olhou para todos. Nunca passaria pela cabeça de J.R. que o colega diretor e cineasta Alex Fontes considerasse aquilo cômico ou grotesco. Mas Alex, ao ouvir o nome do filme, “Power Rangel”, teve um acesso súbito de riso, que, como teve que ser contido, causou um enorme engasgo no homem. Para que Rodrigues não visse que Alex, mesmo engasgado, ainda ria; e para que ele não percebesse que os urros que ele dava eram gargalhadas disfarçadas; Alex caiu no chão e começou a rolar, como se estivesse tendo um ataque. O Conde, confuso, ajoelhou-se e passou a dar tapas nas costas do homem, e Charles correu a chamar Bêah, que tinha curso de primeiros socorros e veio imediatamente com sua maleta. A respiração de Alex logo se restabeleceu, depois uma massagem cardíaca feita pela mocinha. Já o acesso de riso de Alex ainda perdurou por mais um tempo, mas logo se transformou em choro disfarçado. Rodrigues, preocupado com o amigo, agia como se já estivesse dentro do filme e fosse o próprio Power Rangel em pessoa. Passou a tomar providências absurdas e a dar empurrões em Moreirão, no Conde e em Charles, como se eles fossem os inimigos de Alex. Ao ver Bêah com sua maleta, até gaguejou para não chamá-la de Takumi. Quando tudo se restabeleceu, o ator passou dar ordens bem alto, como se fosse necessário que alguém comandasse a desordem. Essa foi a cena que Bêah viu no chiqueirinho. A moça ficou boquiaberta diante do acesso de Alex, da encenação de Rodrigues, do olhar enfadado e irônico de Charles (já bastante embriagado) e da irritação do Conde, que tinha um grande segredo a contar aos colegas, mas não pôde faze-lo por causa da burburinho. Mas nada disso deixou Bêah mais pasma do que a visão de... Moreirão. “Nossa...”, pensou a moça, estatelada diante do homem, “Mas... como um adônis como esse pode ser... perigoso?”. Bêah saiu da sala sem ar, esquecendo a maleta de primeiros socorros no sofá. A simples visão do moço calado e tímido deixou-a de pernas bambas. “Céus”, pensou a senhora lolita, assustada consigo mesma, “mas... o que está acontecendo comigo?” Quando ficaram sós, o Conde deu um copo d´água para Alex e continuou a reunião. Depois de alguma conversa, o homem passou a contar aos amigos qual o motivo daquela reunião e porque os convocara ao castelo um dia antes dos demais convidados. -Claro que me dá um enorme prazer tê-los aqui comigo antes da festa. Mas o motivo é um pouco mais sério que isso – o Conde olhou para Charles, que assentiu com a cabeça. -Ah... Algum problema sério, Conde? – perguntou Alex, gaguejando, preocupado com suas perseguições. O Conde sorriu, tranqüilo. -Não, não se tomarmos cuidado, meu caro. Veja bem – o Conde se inclinou para a frente e passou a falar mais baixo – Claro que eu adoro festividades em geral. Adoro ver meu castelo cheio de gente, com muita música, belas mulheres e vinho! Mas... – o Conde olhou para os amigos – Ah, mas... vocês aqui sabem bem qual é o tipo de festa que eu gosto. Qual! O quatro não entenderam e continuaram olhando para o Conde Ribolla sem proferir uma palavra. O homem fez uma cara de safado sem vergonha, entortou mais a cabeça e continuou. -Ora, ora, meus queridos... Todos nós gostamos é de mulher e de bebida, ora, ora! O resto é formalidade! – sorriu para eles e cochichou – Eu gosto é das nossas festas, rapazes. Das nossas, hahaha, entenderam? – o Conde falou de modo irônico – não dessas festas chatas de reencontro de amigos depois de vinte anos! Bah! Pataquada! E eu lá quero reencontrar aquela gente horrorosa de novo? Bah! -Mas... Porque então tudo isso?... – perguntou Alex, abrindo os braços –... Porque não deu mais uma festa aqui no nosso... chiqueirinho? Como a do ano passado e pronto? -Ahah! Ai que está! – disse o Conde, coçando o saco – Porque eu preciso, porque nós precisamos dessa grande festa. -Hã? Nós? – disse Alex, confuso. -Sim! Nós sim! – falou o Conde, olhando para Charles, animado – Vou explicar melhor: eu e meu querido Charles aqui, vocês sabem bem, temos que aguardar um certo tempo para termos certeza que o vinho “Ribolla 6996” terá todos os efeitos que esperamos que tenham... – disse o Conde – Bem, já esperamos alguns anos, ainda teremos que esperar mais um pouco até a fermentação acabar... mas fizemos diversos testes paralelos com animais (que necessitam de vinhos com fermentação menor que os humanos), e, bem... a fórmula exata talvez ainda tenha que ser alterada.... química, rapazes, apenas acertos de química, pequenos acertos... -Mas... o que houve com os animais? – perguntou Alex, assustado, pois ele mesmo já tinha tomado alguns goles do elixir nos casos de necessidade, em segredo – Existiu algum... efeito colateral? Charles percebeu, pela cara de Rodrigues e Alex, que eles (embora disessem que não, se fossem perguntados) já tinham tomado o vinho afrodisíaco. Rodrigues estava branco. Alex suava e tinha as mãos trêmulas. O único impassível era Moreirão, mas ele achava que o Conde não tinha dado nenhuma garrafa para o homem ainda. O Conde tomou a palavra. -Bem... Em cabritos, não. Em porcos também não. Em galos também não. Mas alguns... cavalos, vejam bem, alguns... só alguns... Apresentaram grandes desvios. – disse o Conde, cauteloso. -Quê? Desvios? – perguntou Rodrigues, que não entendeu o que o homem queria dizer com “desvio” – Ei, como assim... desvio? Desvio do quê e onde? Quê diabos é isso? Dr. Charles tomou a palavra, sério, resolvido a encerrar as meias palavras do Conde Ribolla. Falou muito alto e subitamente. -É “pintô tortô”! – disse o médico, sem delongas – “Pintô tortô”, ora bolas! – e fez um gesto com a mão junto aos seus genitais. -Óóó, não! – disseram os três, em uníssono – Óóó, não, Conde, não! O Conde fez uma cara preocupada, entortando mais ainda sua cabeça e acendendo o cachimbo. -Tsc... Foram apenas 3 cavalos de uma grupo de 10, rapazes... Três de dez, ora... Trinta por cento, apenas! E, vejam... só cavalos. Só cavalos! Alex se levantou, furioso. -Como assim... “só trinta por cento”? Ora bolas, trinta por cento é muito! – exclamou Alex, nervoso. -Ei, calma, Alex! – disse Dr. Charles – Calma, calma! O Conde falou alto, retomando a ordem. -Silêncio, todos! Sentem-se, vamos! – o Conde respirou fundo – Parem! É justamente para tirar isso a limpo que estamos aqui, ora bolas! – o anfitrião falou alto – E é para isso que estou fazendo essa enorme festa! Não entendem? -Como assim? – Rodrigues estava confuso – O quem tem a festa a ver com os... desvios dos... cavalos? O Conde Ribolla deu uma baforada no seu cachimbo. -E eu lá me importo para essa gente toda? Esses cento e cinqüenta colegas? – olhou nos olhos de todos, malévolo – Ora, ora, até parece que vocês não me conhecem... isso tudo, para mim, é um porre! Uma festa entediante, desgastante, uma gente horrorosa! Mas preciso testar o vinho “Ribolla 6996” em humanos, ora bolas! Precisamos saber se o nosso vinho vai causar... errr.... efeitos colaterais mais sérios ou não! Não posso produzir um vinho que cause “pinto torto” nos homens, oras! Rodrigues ainda matutava. Não tinha entendido qual a relação entre a festa (que ele não achava um porre), o vinho afrodisíaco “Ribolla 6996”, os tais cavalos com pinto torto e o Conde. -Mas então... como nós vamos tomar esse vinho? – Rodrigues arriscou a pergunta – Como? -Não, Rodrigues! Mas nós não vamos tomar nada! – o Conde quase perdia a paciência com a lentidão mental do amigo – Não! -Não? O Conde explicou com calma. Nem ele, nem nenhum deles iriam tomar o vinho afrodisíaco na festa. Exatamente por causa disso que ele e Charles os convocaram ali: justamente para avisar a eles que eles não deviam tomar nenhuma gota de vinho na festa. “Deixarei uísque no quarto de vocês, muitas garrafas”, explicou o Conde. Eles não tomariam o vinho, mas os outros convidados sim. “Entenderam?” – ele perguntou. E, como teriam ali ao menos 100 homens convidados, seria possível saber se o vinho funcionava ou não. E verificar a porcentagem nos humanos! -E... se não funcionar? – Perguntou Alex, desconfiado. Charles se adiantou. Ele alteraria a formula até chegarem na dosagem correta. Era apenas isso, pouca coisa. A fórmula não mudaria nada, apenas as dosagens. Era preciso que eles ainda mantivessem o segredo. O Conde sorriu. -Mas já é tarde! Vocês devem querer descansar um pouco... Vou acompanhá-los até seus quartos, venham! – disse o anfitrião, sorrindo e se levantando da cadeira. Lembrou-se de uma coisa e voltou-se aos homens, animado. -E saibam! Amanhã pela manhã teremos um jogo de futebol aqui no castelo! Uma pelada! Estejam preparados, rapazes! – disse o anfitrião, satisfeito, dando batidas nos ombros dos colegas. -Opa! – disse Moreirão, sorrindo – Isso ai é comigo mesmo! O Conde notou que Moreirão ficou calado durante toda a reunião. “É melhor ficar de olho nele”, pensou, abrindo a porta da sala e vendo Carmutcha passando no corredor e falando ao telefone justamente nesse momento. “Mas... o que Carmutcha está fazendo aqui na ala sudoeste?” Balançou a cabeça. Era bobagem se incomodar com isso. “Carmutcha andava o tempo todo pelo castelo, zanzando, ainda mais num dia de festa”, pensou o homem, caminhando com seus amigos pelos corredores. “E como era bom vê-la andar...”, pensou o Conde, com seus miolos cafajestes, “ah, como era bom...”. A lista do Moreirão Onde está Isaura? |
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