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No final da tarde do dia seguinte, quando Ovomalta ia entrar na sala da torre para falar com Bob sobre as notícias da erupção do vulcão Benevolo, viu que irmã Claudina subia as escadas com dois forasteiros desconhecidos. Mas... o que era aquilo? Quem eram aqueles dois? Ovomalta ficou nervoso, pois dera muitas instruções para aquela freira tapada para que ela não deixasse ninguém entrar na torre sem avisá-lo. “Nunca, jamais, never”, pensou Ovomalta, mas a moça era muito ingênua e acreditava em tudo que lhe contavam. “Em que conto do vigário que ela caiu agora?”, pensou Ovomalta, “e quem eram aqueles dois que subiam para falar com Bob?”. “Droga, droga, essa irmã Claudina é boazinha demais”, refletiu Ovomalta, furioso. “Uma hora terei que eliminá-la, pois ela vai nos colocar em apuros”, pensou o foragido, “não tenho paciência para essa mulher e suas caridades! Falarei com Maína Clara assim que puder”. Ovomalta ficou atrás da porta, espiando escondido. Viu uma moça bonita, de rabo de cavalo, mochila nas costas e roupa preta se aproximar de Bob. Atrás dela estava um rapaz moreno, cabeludo e descabelado, com ares de intelectual. Ouviu a irmã Claudina os apresentando a Bob, dizendo que eram dois cineastas latinos americanos. A moça se aproximou de Bob, e Ovomalta ouviu um berro altíssimo, exatamente quando ela olhou pra Bob. -Aaa! – gritou a agente ao reconhecer o homem cego. -Signora? – disse a Irmã Claudina para ela – o quê... -Você é... – disse Franka, apontando para o homem cego – Aaa! Ovomalta viu a moça de preto emudecer, embranquecer e desmaiar diante de Bob, que, como não enxergava, não sabia de quem se tratava e nem porque ela tinha gritado. Porém Ovomalta, como um verdadeiro guardião, no mesmo instante percebeu que ali havia um perigo. Ligou imediatamente para Maína Clara e contou tudo. -Mas como ela se chama, Ovomalta? Lembre-se já do nome que irmã Claudina falou quando a apresentou a Bob! Por favor, é importante!... – implorou Maína Clara, do outro lado da linha. -Aaa... acho que era Tranca ou Branca... ou seria Franka? Já o moço eu me lembro. Ele se chama Alex – disse Ovomalta, sussurrando – e saiba, a moça desmaiou quando viu Bob. Está caída no chão, e Irmã Claudina cuida dela nesse momento. O que acha? Estamos em perigo? – cochichou Ovomalta à sua amada. Maína Clara foi rápida. -Sim, Ovomalta. Corra até lá, agora, pois Bob não pode saber quem é essa mulher nunca! Desgraçada! Ela sabe que Isaura foi seqüestrada, pois ela estava aqui no Castelo! É convidada do Conde! Tire-a de lá, rápido! – mandou a moça. Ovomalta não perdeu tempo. Correu na sala, empurrou a irmã Claudina e deu uma coronhada na Franka desmaiada. A freira, que morria de medo do foragido, encolheu-se num canto ao vê-lo armado. -Olhai! Vou cuidar dela, ô irmã Claudina, e você vai ficar caladinha, falo? Beleza? – berrou Ovomalta – Fique longe de mim, irmã! – disse para a freira, apontando o revolver para os três e para Franka, que estava caída no chão. -Mas o que acontece aqui, Ovomalta? – perguntou Bob, aflito, pois não via nada, mas sentia uma grande agitação em volta de si. -Nada, senhor Bob! Tudo sob controle, falô? – declarou Ovomalta – Temos bandidos perigosos aqui! Fique calado que estou salvando a sua vida! Irmã Claudina se enganou, pois esses forasteiros vieram aqui nos assaltar! A freira, crédula de tudo, ficou pasma. Que horror, como ela não percebera antes que Franka e Alex eram bandidos? “Mas que pena...”, pensou a moça, “um rapaz tão lindo!...”. Já Alex Fontes, confuso, não sabia o que fazer, estatelado. Ovomalta apontou a arma diretamente para ele. -Venha cá, seu cretino! Ou quer que eu estoure seus miolos? -Não atire! Por favor! – disse o cineasta, tremendo da cabeça aos pés. -Pegue a moça no colo e venha comigo, vamos! Alex o seguiu, sob a mira da arma. O homem o fez carregar Franka até o andar de cima, numa sala escura e fétida no sótão da torre. Ovomalta os amarrou, amordaçou e trancou a porta com uma grossa corrente. Alex estava apavorado. O que significava aquilo? Porque eles foram presos? Porque Franka berrou? Quem era aquele homem cego? O que acontecia? Olhou para a amiga. A cabeça dela sangrava e ela estava desacordada. Ouviu o telefone da moça tocar diversas vezes, dentro da sua mochila, mas não podia fazer nada, preso daquele jeito. “Céus”, pensou Alex, apavorado e desesperado, “Ò não, não, nããão! Franka morreu!”, já piorou Alex, quase chorando. Escureceu. O silêncio da torre só era entrecortado pelo barulho desesperador do vulcão Benévolo, que lançava chamas para o céu iluminando o pequeno quarto. Com muito esforço, arrastando-se, Alex conseguiu se aproximar da amiga desfalecida. Podia encostar seu pé nela, e passou a tocá-la e empurrá-la lentamente, tentando ver se ela estava viva. -Frânnn... – era difícil falar com uma mordaça na boca – Frânnn... acooorja, vaaamushhh... Viu que Franka abria os olhos, assustada. Alex respirou fundo. Sim, ela estava viva, graças a Deus. -Frânnn... “Mas... como vamos sair daqui?”, pensou Alex, apavorado, “e o que acontecerá conosco?” O que Alex Fontes não sabia é que Franka era uma agente secreta da ANCUS, ou melhor, que a moça era a maior e mais bem treinada agente do Brasil inteiro. E que, para ela, uma das coisas mais fáceis a fazer era se desvencilhar de amarras e mordaças. Afinal, tinha anéis e dentes especiais para isso, com microserrilhas mínimas que destruíam cordas e correntes. Era preciso apenas técnica. E isso Franka tinha demais. Depois de dez minutos Franka já estava desamarrada. Silenciosamente tirou as amarras de seu amigo Alex, que a abraçou, aliviado. -Franka, você é demais! Como você fez isso? – ele perguntou, feliz. -Shiu! Estamos desamarrados, mas não soltos! Fale baixo e pare de rir... não se mexa daí. Temos que fazê-lo acreditar que estamos presos, até sabermos o que fazer, Alex! – mandou Franka – agora vamos, me conte o que viu. Continuaram na mesmo posição. Alex contou a Franka o que houve, falando baixinho. -Mas porque você gritou, Franka? Quem é esse homem? – perguntou Alex. -Shiu, Alex! Não posso falar agora. Apenas me diga o que houve... – pediu a moça. Alex contou como o rapaz magro e com cara de bandido, que se chamava Ovomaltino ou coisa parecida, bateu na cabeça dela, apontou uma arma para todos, os trouxe para aquele quarto e os amarrou. Contou que depois eles ficaram silêncio por horas, mas que no meio da madrugada ele ouviu vozes. -Vozes? – estranhou Franka. -Ouvi um choro, Franka. Um choro de mulher. – explicou o cineasta. -Um choro de mulher? – perguntou a agente. -Sim. Não é estranho? – falou Alex. -Era a irmã Claudina? – indagou Franka. -Não, Franka, isso que era estranho. Era alguém falando com a irmã Claudina! Eram duas mulheres, parecia que uma chorava e outra consolava! Mas... quem mais mora aqui além dela? Será que existe alguma outra mulher nessa torre? – perguntou o cineasta, animado e tagarelando sem parar. “Nossa, mas esse Alex fala demais!”, pensou a agente, aturdida. Franka fez um sinal de silêncio com o dedo na boca e pulou sobre Alex Fontes. Amarrou o homem novamente, do mesmo modo que ele estava antes, sob os protestos do cineasta, que não estava entendendo nada. -Você não deve entender nada mesmo, Alex. Apenas acredite em mim – disse a moça a ele – e confie em mim. Deixou-o preso e amordaçado e saiu pela janela, devagarzinho e pendurando-se nas cordas que tirou dela mesma. -Mas Frânnn... – falou Alex, murmurando. Franka desceu um andar, pendurada na parede de velhos tijolos. Logo abaixo, achou uma janela de um quarto. Entrou. Era preciso descobrir quem estava naquela torre e saber o que havia naquele lugar. Andou de correr em corredor, silenciosamente. Achou o quarto de Bob Delboux. Pobre homem, porque estaria cego? E porque se escondia ali, naquele fim de mundo? Franka viu que o homem dormia calmamente num simples catre, ao lado de uma mesa com um computador. Ao seu lado, no chão, dormia Ovomalta, como um cão de guarda. Franka olhou o homem atentamente. Sim, era exatamente como Alex contara, um maloqueiro com cara de delinqüente. Dormia empunhando uma arma. Teve dúvidas se Ovomalta cuidava de Bob ou se o tinha como prisioneiro. Entrou no outro quarto ao lado e viu Kroh Neimbier, a freira, ajoelhada e absorta, rezando sozinha. A agente não a incomodou. Silenciosamente subiu uma pequena escada de pedras e alcançou um último quarto naquele andar, no fundo do corredor. Abriu a porta, usando uma chave que achou atrás da porta. Franka entrou e olhou a mulher que estava acordada olhando pela janela. Finalmente, ali estava a Condessa Isaura. Afinal, Isaura! Onde está Isaura? |
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