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Home do Gallacci FAU USP turma de 1980 Literatura  Entre as camas e os sofás
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Entre as camas e os sofás

A sala de estar estava na penumbra. JR Rodrigues entrou assoviando e tropeçou logo depois de entrar.
-Uiii! – disse o homem, pulando de dor.
-JR? – disse uma voz – É você?
Rodrigues acendeu a luz do hall e olhou ao redor.
-Caramba, quem colocou esse monte de sofá aqui?
-Oi Rodrigues... – disse a voz que vinha da escuridão.
-Alex? O que você está fazendo ai nesse escuro? – falou JR, acendendo todas as luzes.
-Shiuuu. Não acenda tudo, Rodrigues. Aquela moça do apartamento da frente está me espionando... sabe aquela moreninha e cheinha, que é sua amiga? – o homem indagou.
-Lulu? Acha que ela está te perseguindo? Mais uma? – debochou Rodrigues – Hahaha!
Alex Fontes, um cineasta famoso e bem sucedido, tinha uma mania de perseguição que o assolava nos períodos pós-filmes. Enquanto estava empolgado com as filmagens, com a produção e em atividade, Alex era um homem alegre, divertido e comunicativo. Porém entrava em depressão (e em perseguição) quando as filmagens acabavam. Era uma espécie de stress pós-trabalho. Nessas épocas Alex se via perseguido por mulheres de todas as espécies, e tinha certeza que elas queriam se aproveitar dele, de seu corpo, de seu dinheiro, de seu sucesso.
-Alex – disse JR, paciente – A mulher do apartamento da frente é casada, tem três filhos e só vai a janela para respirar, pois aquele bando de crianças a deixa louca. É uma das minhas fãs, e nem sabe quem é você. Você pode ficar tranqüilo.
-Não sei... – falou o homem, desconfiado – Não sei não. Acho que ela me piscou agora há pouco...
JR Rodrigues olhou ao redor e suspirou.
-E o que significa isso aqui?
-Isso o quê? – perguntou Alex.
-Esse monte de sofás. O que é isso, Alex? – estranhou Alex ao ver sua casa entulhada de móveis.
-Ah! Os sofás? É a coleção do meu irmão – explicou o cineasta.
-Coleção? – JR não estava entendendo nada – Como assim, coleção?
-JR, eu me mudei para cá, não foi? Então esse apartamento é um pouco meu também. Eu te avisei que meu irmão ia chegar da Itália – disse Alex Fontes, cansado – Pois ele chegará hoje a noite e as sua bagagem veio antes.
-Bagagem? A bagagem do seu irmão são... sofás? – Rodrigues suspirou fundo.
-Você tem mania de camas, não é? Pois ele tem mania de sofás! E como eu estou pagando um belíssimo aluguel para morar nessa cobertura agora, nós conviveremos com suas camas e você com os sofás do meu irmão! – explodiu o cineasta.
-Mas Alex, não dá para andar nessa sala – disse o ex-ator, mostrando o chão e dando uns passinhos miúdos – Veja, está tudo amontoado!
JR suspirou. JR Rodrigues, um dos maiores atores brasileiros de cinema popular, que representava nas telas o então famoso “Detetive Rangel”, não estava nas suas melhores fases. O homem sempre fora um canastrão e péssimo ator, mas isso, surpreendentemente, nunca atrapalhou seu sucesso. Todos os críticos e diretores da área se assustavam: parecia que quanto mais o “ator” deslizasse nas suas péssimas interpretações, mais sucesso fazia junto ao público.
JR Rodrigues Jr. podia ser canastrão, mas era lindo-de-morrer e destroçava corações. Era só lançar um dos seus olhares esverdeados ao redor que poderia ter todas as mulheres que quisesse na hora que quisesse. Dizia-se que era o homem mais lindo do Brasil. Só foi ligeiramente destronado com o aparecimento de Rô Gianechinni, que era (na sua cabeça), o seu maior rival e inimigo mortal (já Rô Gianechinni não o conhecia pessoalmente e nunca emitiu nenhuma opinião a seu respeito). JR ficou milionário nos seus tempos áureos e montou um apartamento de cobertura de solteiro digno de um paxá.
Era apaixonado por camas king size, e a cada dia adquiria uma nova. As camas tomaram conta de todo o apartamento, o que o envaidecia muito, pois o homem achava que a simples vizualização de tantos “antros” de sexo deixavam claro o poder de sua potência sexual junto às mulheres. Assim, a cada novo caso, o galã comprava uma cama nova. Chegava a minúcias: cada cama tinha um nome de um lugar, uma história de sexo fenomenal e uma decoração especial. “Vamos para Tolouse, cherie”, dizia para uma das amantes; ou “os segredos de Hokkaido nos aguardam, minha gueixa”, dizia à outra; ou ainda “Tuché, vamos para Guadalarara!”, dizia a mais uma. JR, orgulhoso da sua capacidade sexual, dizia que um dia tudo aquilo ainda iria para um museu.
Porém no ano anterior as coisas mudaram um pouco de figura. JR se encantou com uma grande atriz hollywoodiana, Martylin Dora, e deixou o Brasil. A mulher era mais velha que ele, e ele, imitando Rô Gianechinni, achou que se ele se casasse com uma loira-mais-velha e ainda-famosa, ia fazer muito sucesso. Mas a atriz, que no início lhe pareceu encantadora, era uma verdadeira sanguessuga e uma bruxa, que o aprisionou em sua casa em Los Angeles. A ensandescida amante de JR deu ordens expressas aos seguranças da sua casa em Beverly Hills que impedissem o amante de sair dali, pois precisava dele para um “trabalho”. Deu início assim a diversas sessões de magia negra e rituais satânicos e estranhos, sempre usando JR com sua beleza gianechianna nas experiências. Pelo que ele entendeu (pois Martylin, quando estava possuída, falava latim), ela pretendia retirar a sua beleza e sex-apeal e colocar nela própria (JR achou aquilo era bastante estranho, uma vez que ela era mulher e ele, homem, e imaginou que talvez ela fosse uma bisexual ou bolacha). Foram dias tortura para JR, que ficou nu na cama da Martylin, acorrentado e ouvindo-a declamar algo como “hic jacet lepus, quod abundat non nocet, scintilla contempta magnum incendium” e muitas outras palavras incompreensíveis. Estava sempre acompanhada de sua gurua, Paty Cócegas (que todos sabem que é uma charlatã do mundo do misticismo).
Depois de mais de um mês, JR conseguiu ajuda de uma amiga e pode fugir dali. Quem o ajudou foi Clyce, uma das dançarinas de Magoo, um amigo de JR que morava em Hollywood e foi casualmente visitar o ator. A moça, que já tinha sido namorada e amante de JR, percebeu que o ator estava sofrendo – ao andar pela casa de Martylin não achou nenhuma cama – e chamou a amiga Lili Picadinho (uma poderosa marginal do submundo do sexo que foi morar em Miami e agenciava meninas) para tirar o homem dali no dia seguinte.
Claro que isso valeu a Clyce uma das melhores e cativas camas no apartamento de JR, o famoso “leito hollywoodiano”. Mas o final não foi assim tão feliz. Como ficou muito tempo no casamento-cativeiro com Martylin e como JR chegou muito carregado de magia negra no corpo, e o seu diretor, Gui Whitaker (Gui era também, além de diretor e produtor, pai-de-santo), teve receio de investir muito no ator canastrão e ver seus negócios decaírem, pois o homem estava carregado de maus fluidos. Assim, iniciou um novo projeto, com outros tipos de filme (mais pornográficos, com novas estrelas), disse a JR que a sua imagem estava um pouco desgastada e deveria ser poupada, e colocou o ator de licença por um ano.
Foi desesperador para JR enfrentar aquilo. Além da redução do número de mulheres que o procuravam, o ator canastrão teve que conter as despesas e economizar dinheiro. As coisas apertaram mais ainda e JR conjeturou que teria que sair dali e vender o belo apartamento, quando veio a proposta do amigo Alex Fontes de dividirem o imóvel.
-Pense, JR, esse lugar é enorme. Se você quiser posso pagar um bom aluguel e morar com você. Como viajo muito, não estou interessado em renovar o aluguel do meu apartamento, pois não tenho tempo de mantê-lo.
-Alex, não sei... e as minhas tetéias? Você sabe que eu... que eu... eu tenho “compromissos” quase todo dia!
O cineasta só agüentava JR porque era muito amigo. Sabia que naqueles tempos escassos JR só recebia bacalhaus em casa.
-Meu caro, não vou atrapalhar nada! Combinaremos um código, e quando você tiver com alguém, eu entro pelo andar de cima! – resolveu Alex.
JR Rodrigues hesitou, mas acabou concordando. Na verdade, o homem adorou a idéia. Estava precisando muito de dinheiro para saldar as dívidas e Alex cozinhava muito bem.
Depois de dois meses, Alex Fontes fez outra proposta a JR. O cineasta contou a Rodrigues que seu irmão mais velho estava voltando da Europa e pretendia morar com ele por uns tempos. O irmão de Alex Fontes era editor muito talentoso, solteiro e morava em Roma. Tinha negócios na Itália e em Portugal. Era o proprietário da Editora Basttone, uma editora pequena, porém poderosa, que tinha sede em Roma e uma filial em Portugal. Agora o homem pretendia atacar o Brasil, explicou Alex Fontes a JR, e, até achar um local adequado para se instalar, perguntou se poderia morar com eles para morar ficaria com eles.
-Ele pagará o mesmo que eu – disse Alex, e viu que os olhos de JR brilharam – E cama é o que não falta aqui... – sorriu Alex.
Com as camas de JR e com os sofás do irmão de Alex Fontes (a maioria deles puído, roto e cheios de manchas estranhas, beirando o nojento) a casa ficou com uma aparência esquisita, mas que não incomodava JR. O lugar exalava sexo e a pornografia. Bastava que qualquer um deles abrisse a porta para qualquer mulher, que, na penumbra, a moça caia ora numa cama ora num sofá, pensou JR, satisfeito, “e uma mulher deitada já é meio caminho andado, hehehe”.
O irmão de Alex Fontes chegou na noite seguinte aos sofás. O editor apresentou-se como “Conselheiro Tertuliano Ramalho Fontes de Ouro”, mas avisou a JR que ele podia chamá-lo apenas de Editore, se quisesse.
-É mais intimo, menos formal – explicou o homem.
JR passou a analisar o homem que via na sua frente. O Editore era um homem alto, esguio e magro, mas forte. Tinha toda a cabeleira branca (igual à de Alex), era muito bronzeado e falava muito, num timbre muito alto e decidido. Era um homem seguro e poderoso, exatamente como explicara Alex. JR torceu oi nariz. Aquele homem deveria ser, como ele, um grande conquistador de mulheres. Era melhor tomar cuidado com seu rebanho, pois o homem era um lobo.
-Penso que posso fazer bons negócios por aqui... tinha me esquecido como era bom esse pais! – falou o Editore, esfregando as mãos e se servindo de um uísque – Bons negócios mesmo... Só preciso de um tempo para achar as pessoas certas.
-Pessoas certas, Tertu? – perguntou Alex – Como assim? Escritores, você diz?
O homem desconversou e sorriu para os dois.
-Ah, depois vemos isso... Alex, Alex, quanto tempo que eu não te vejo... está muito bem... Tenho visto seus filmes. E que bela casa, essa... e vamos, me digam... há quanto tempo os dois estão juntos? – perguntou o homem, fazendo um rosto sacana, sorrindo torto e acendendo um cigarro.
-Ju-juntos? – gaguejou JR – Co-como assim?
-Ora – falou o Editore, dando uma baforada – Há quanto tempo os dois pombinhos se casaram?
-Quê? Nós dois? – berrou Alex – Ta maluco, Tertú?
O Editore franziu os olhos.
-Mas... vocês dois não...
JR se levantou bufando e pegou o Editore pelo colarinho. Estava furioso pronto para socar o rosto bem barbeado e perfumado do homem e transformá-lo em carne moída.
-Calma, JR! – gritou Alex –Pare, calma, por favor! Ele se confundiu! Tertú, olha, nós não somos gays, somos só amigos que dividimos um apartamento... não fale assim, o JR não gosta... é um engano, JR, um engano, meu irmão se enganou!
-Ei, calma, JR, tudo bem... – pediu o irmão do cineasta, quase sem voz e sem ar, esganado sob os braços musculosos do ator gianechiano.
JR soltou o homem com violência e jogou-o longe. Olhou para ele e falou bem alto e berrado.
-Olhaqui, babacão. Viado é a avó.
Cuspiu no chão bem perto do pé do Editore, coçou o saco e saiu de casa, deixando Alex e o Editore assustados e boquiabertos.

As poesias de August Hills
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