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Depois de algum tempo, Franka abriu os olhos. Tinha levado uma pancada na cabeça, mas acordara. “Uiii...”, pensou, abrindo os olhos. Olhou ao redor. Estava ainda no salão do jantar do Castelo do Conde. Alex ainda cantava e ela não viu mais ninguém por ali. Levantou-se devagar, tirou a toalha de uma das mesas do salão vazio e foi até seu amigo. -Chega, Alex. Agora chega. O homem usava uma garrafa de uísque cor de rosa como microfone, e tinha amarrado a echarpe de paetês de Francis na testa, estilo “Cazuza”. -... e o que me importa se ela é coroooa, panela velha... é que faz comida boa... – rebolava o homem, bêbado e alheio à tudo. -Venha comigo, Alex... vamos, saia daí de cima da mesa – Franka falou, séria – Ei... você sabe quem me bateu na cabeça, Alex? Você viu quem fez isso comigo? O cineasta olhou para ela e começou a cantar uma outra música. -... aproveita hoje porque a vida é uma sóóó... o amanhã quem sabe... se o Brááás é tesoureiro a gente aceeeerta no final... olha o bréééque... -Alex! – Franka estava cansada e irritada – Responda! Alex parou de cantar e olhou para a agente, que abria a toalha de mesa para acolhê-lo. -Opa! Opa! Opaaa! Falaí, ô gostosona! – disse o homem, cambaleante -Saia já daí de cima dessa mesa! – mandou Franka – Já, vamos! -Êêêpa... tá nervosinha, ô Frank´s querida? – o homem olhava para o corpo dela de um modo vulgar – Você está bonitona hoje, hein... mas tão brava...! Franka estava sem a menor paciência com o homem. Agarrou-o com força, irritada, embrulhou-o na toalha e carregou-o, arrastando-o para fora do salão, sob protestos. Ele era bastante pesado, mas a agente não podia deixar o colega daquela maneira. Tinha que conseguir chegar ao quarto dele e colocá-lo na cama. Nos cantos dos corredores do palácio, Franka viu diversos seguranças da “Raposo Sisters” dormindo. Provavelmente foram envenenados. Mas... Quem teria feito aquilo com eles? -Chegamos. Entre aqui, Alex. O cineasta olhou o interior do seu quarto. Ele deveria dividir o quarto com Moreirão e com Ainda Aida, mas a moça não estava (provavelmente estava em outro quarto com algum homem sob os efeitos do vinho “Ribolla 6996”) e Moreirão estava (obviamente ainda) na masmorra secreta do subsolo com algumas das pessoas da longa lista. Franka não se lembrava de tê-lo visto na festa. O local estava vazio. Alex ainda falava bobagens para a amiga agente. -Olha só... quem diria, a minha Frank´s, uma moça tão séria, levando um homem sério como eu pro quarto... que coisa mais feia... olha lá, hein? Não faça mal ao moço aqui...! Franka respirou fundo e sorriu. Alex chegava a ser engraçado quando ficava bêbado. Ele poderia ficar bêbado sempre, pensou a agente, sorrindo. Seria outro homem, e não aquele sujeito maníaco, paranóico e nervoso de sempre. -Venha. Vamos entrar no chuveiro – ordenou a moça. -Ôba! A tetéia vai tomar um banhinho com o Alex? Ôba! -Você está bêbadaço, moço! – ela declarou, séria – Venha aqui agora, vamos! – disse a moça, sem delongas. -Não senhora, Frank´s! Não estou bêbado coisa nenhuma! – ele cambaleava e protestava – Olha aqui: eu não tomei o vinho meia nove e meia nova ... meia e nove e nove e meia... ô Franka... como se chama mesmo aquele vinho perigoso, que a gente não pode tomar? -Vinho perigoso? – a agente não entendeu do que ele falava – Não tem nada de “vinho perigoso”, Alex. – disse Franka, paciente – Venha. Vamos tomar uma chuveirada. -Tem sim! Tem sim, sim! – o homem embriagado insistiu – O Conde falou para nós todos antes da festa! – ele olhou sério para Franka – Ele disse que, se a gente tomasse o vinho perigoso, a gente ia ficar com o pinto torto! Hahaha! Pinto torto de cavalo! Hahaha! – o cineasta voltou a dançar rebolar na frente dela – Pinto torto, pinto torto... -Tsc. Você não está falando coisa com coisa. Venha aqui – disse a moça, séria. Franka desenrolou o homem da toalha de mesa e ligou o chuveiro frio, sob os protestos do homem, que berrava feito criança. Teve que entrar com ele lá dentro e os dois acabaram ensopados, mas Alex acordou um pouco. O cineasta era um bonito homem, pensou Franka, mas frágil demais. Sempre achou que ele e Bê fariam um belo casal, mas o destino reserva muitas surpresas. Um homem daqueles andando com aqueles rapazes safados era uma pena. Depois de mantê-lo no chuveiro frio por um tempo (e de estragar totalmente seu próprio vestido de couro preto bordado), Franka tirou o homem dali, o enxugou e o deitou na cama. Alex começou a chorar feito um bebê. -Ah, Franka, que vergonha, que vergonha... olha como eu estou... – as lágrimas rolavam do rosto dele – Mas... Eu não me conformo! Como Rodrigues tem tantas mulheres, se ele é tão canastrão? Hein? Franka sorriu para ele, carinhosamente. -Ah, Alex, você é um homem maravilhoso... Vai achar seu par, logo, logo... -Franka, fique comigo, sinto que alguém está me perseguindo... não está? Não ouve um barulho? Ei, Franka, fique aqui... A agente, paciente e amiga, concordou. Pegou uma lata de coca diet no frigobar e sentou-se ao lado dele na cama. Depois de um longo cafuné no amigo, ele adormeceu. Franka levantou-se. Era preciso tomar alguma providência. Mas... Por onde começar? Isaura fora seqüestrada, todas as pessoas da festa sumiram misteriosamente, o Conde dormiu no meio do jantar, Maina Clara falava hebraico com os guerrilheiros, Francis distraíra os convidados facilitando o seqüestro, os seguranças não se mexeram, Franka levara uma paulada na cabeça e agora Alex tinha dito que o vinho estava envenenado. Vinho envenenado? Mas o que acontecia? Franka pensou em tirar a roupa molhada e tomar um banho antes de qualquer coisa. Deixou Alex dormindo e foi até o segundo pavimento, no seu quarto, número 10. Mas ao chegar na porta, percebeu os dois colegas que dividiam o quarto com ela estavam bastante... “empolgados” lá dentro. O barulho era bastante comprometedor. “Tsc”, pensou a agente, “melhor não atrapalhar...”. Sendo assim, a moça voltou ao quarto de Alex Fontes (que ela tinha certeza que estava sozinho) tirou o vestido de couro ensopado e se enxugou. Achou uma camiseta e uma bermuda na mala de Alex, trocou-se, apagou a luz do quarto e saiu dali. Ao fechar a porta, Franka encontrou Charles, correndo esbaforido pelo corredor. -Von Franka! Enfim, alguém vivo nesse castelo! -Doutor Charles! Eu... -Temos que chamar a policia, Franka! Já! A Condessa... -Eu sei, eu vi... mas onde está o Conde, doutor? Franka e Charles montaram um rápido plano de ação para encontrar, em primeiro lugar, o dono da casa e anfitrião. Não podiam sequer chamar a polícia se não soubessem se ele fora ou não seqüestrado junto com a esposa. Era preciso ter dimensão do problema. -Eu não vi nada! - disse Charles – Estava tudo tão confuso! -E eu fui agredida! – disse a agente, mostrando o galo na cabeça – Veja! O homem estava fora de si. Nem olhou o ferimento de Franka. Olhou para os lados, vislumbrou aqueles homens caídos no chão, ressonando, e começou a gritar. -Temos que achar o Conde Ribolla! – berrou Charles, pelos corredores vazios – Conde! Conde! Franka lembrou-se da amiga Bê La Bressiani. Ela, Franka, não prestara atenção nenhuma no anfitrião na festa, mas com toda a certeza Bê não desgrudara dele um segundo, apaixonada como estava. Assim sendo, Franka largou Charles gritando pelos corredores e foi até a cozinha do castelo, no subsolo, procurar a amiga cozinheira. O local estava abandonado no meio da madrugada. Uma enorme bagunça fora deixada sobre as mesas e bancadas, pois todos os cozinheiros e ajudantes tinham fugido dali quando os guerrilheiros israelenses armados entraram no palácio. -Bê? – Franka ia andando pelo local e chamando a amiga – Bê, você está aqui? Ninguém respondia nada. A agente continuou andando pela cozinha. -Bê? Bê? -Ei! Aqui! – falou uma voz fininha vindo de trás de uma porta. -Bê? É você? -Sou! – disse a voz – Abra aqui, estou presa aqui dentro! Franka abriu a porta e Bê saiu, confusa e sem ar. -Franka! Eu não sabia que essa porta da despensa trancava só por fora! Ufa! -Bê, você está bem? – perguntou a agente. -Sim. E... – a cozinheira estava sem graça – e o Conde também. -Conde? O Conde Ribolla está aí dentro? – a agente secreta apontou para a despensa – Está aí dentro? -Sim... - falou Bê, envergonhada – Dormindo... e tortinho de tudo... lindo! -Você soube do que aconteceu? – perguntou Franka, confusa. Bê tinha outra versão dos fatos, uma versão mais apaixonada. Em primeiro lugar, confessou, envergonhada, que o Conde Ribolla dormiu no jantar porque ela colocou lexotan da comida do Conde. “Naquela comida lá que eu fiz especialmente para ele...”, disse Bê, “mas acho que coloquei demais...!”. Franka interrompeu a moça. -E que comida mais estranha que você fez para ele, hein, minha amiga? – falou Franka, sorrindo. La Bressiani explicou. Tudo fazia parte da bruxaria de Mônica. A vidente, ao ler o futuro de Bê, sugeriu que, se ela fizesse uma comida especial para o Conde, elas duas poderiam enfeitiçar a comida. Mônica ainda falou que, se essa comida fossem testículos de algum tipo de animal, o feitiço funcionaria muito melhor. “Franka, ela me disse ainda que, se ele comesse tudo, ele seria só meu!”, explicou Bê, tristonha. -Mas porque o sonífero? – perguntou Franka, tentando entender a mente da amiga. -Sei lá! Isso foi invenção minha! Achei que se o Conde ficasse enfeitiçado e adormecido, as coisas seriam mais fáceis por causa da Condessa, Franka! Pense, eu tinha que tirá-lo de lá do meio da festa! – Bê tomou fôlego e continuou – E assim eu inventei esse prato nojento, a “culhoada”! Argh! Só me surpreendi do Conde achar aquilo bom! O Conde adorou a culhoada, Franka, você viu? Que nojo alguém adorar aquilo! -Mas... como vocês dois vieram parar aqui, na despensa? – perguntou Franka. -Bem, quando a coisa começou a ficar bagunçada, eu percebi que o Conde dormira. Arrastei discretamente o homem pelo chão até aqui e me tranquei com ele! Achei que nós dois iríamos... -Iriam... – Franka olhou assustada para a melhor amiga. -Achei que iríamos... que iríamos... trânãnã... você entende, Franka? – La Bressiani estava envergonhada do seu comportamento. -E vocês... trânãnã, Bê? – perguntou a agente, séria. -Não, nada! O Conde dormiu até agora! Não fizemos nada, droga! Porcaria! Olhe, nem tirei a roupa! A agente Franka respirou fundo, aliviada. Ainda bem que a amiga, transloucada e cega de paixão, não tinha seviciado o Conde Ribolla. Afinal, o homem era casado com a Condessa, que coitada, fora seqüestrada sem dó. Bê sabia disso? -Nossa! Eu não sabia... – falou Bê, assustada – levaram a Condessa mesmo? Jura? -Sim. – respondeu Franka. -E os seguranças? – indagou Bê. -Não sei direito o porquê, mas dormiram todos! Estão por ai, jogados pelos corredores, pelos salões... É muito estranho... -Ahhh! Droga... – falou Bê, batendo a mão na cabeça – Franka... – a cozinheira falou, cautelosa – Acho que isso também foi culpa minha...! -Sua? Porquê? – Franka olhou a amiga – O que você aprontou a mais, Bê? -Ai, perdoa, mas eles, os seguranças da Lolô, jantaram culhoada também! Lembrei agora! Como eu não queria que eles estragassem os pratos que já estavam prontos e montados, fiz um risotinho para eles! Usei o molho dos testículos, mas esqueci que tinha colocado sonífero! Franka respirou fundo, pensando como uma mulher apaixonada pode ser perigosa. As duas amigas se olharam e resolveram que o melhor a fazer era deixar o Conde descansar até a manhã seguinte na despensa mesmo. Mas não conseguiriam dormir, pois estavam excitadas demais. Assim sendo, Bê resolveu fazer um café forte. As amigas se sentaram na enorme mesa da cozinha, quando foram interrompidas por Carmutcha, que entrou esbaforida e descabelada no local, ainda vestida com a roupa da festa. -Ah! Que bom, achei alguém! Vocês viram o que houve? -Sim, Carmutcha! – respondeu Franka – Você está bem? -Não sei... fui atingida por alguma coisa... vejam – a secretária mostrou um galo igual ao de Franka na cabeça – E desmaiei!... Mas levaram a Condessa! Os convidados todos tomaram aquele vinho perigoso e sabe-se lá onde estão! E o Conde sumiu! – Carmutcha falava sem parar. Franka interrompeu a secretária. -Carmutcha, o Conde está bem... fique calma... mas, nos explique melhor essa coisa de vinho... – indagou Franka à secretária assistente – Existe mesmo algum vinho perigoso aqui no Castelo? E como você sabe disso? A moça olhou para os lados, assustada, e fez sinal de silêncio para a agente e para a cozinheira. -Shiu! Franka e Bê... – disse a secretária – Falem baixo! Vamos fazer uma coisa: vamos primeiro chamar a polícia, e depois vamos até o meu quarto conversar a sós, está bem? O celular do Conde Ribolla Onde está Isaura? |
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