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Quando o celular tocou no restaurante, Bê correu para atender pois sabia que era a sua amiga Franka. O local estava cheio, afinal era um domingo, mas todos os freqüentadores estavam bem atendidos e tudo estava totalmente sob controle, concluiu Bê, satisfeita. “La Bressiani” era uma casa pequena, que servia massas e assados. A comida era deliciosa, e a “chef” e proprietária, Bê La Bressiani, sempre tomava conta do local como se estivesse dando um jantar na sua própria casa. Era um restaurante especializado em cabritos (assados, fatiados, grelhados, ensopados, cozidos) e massas, especificamente um tipo de gnocchi, que no “La Bressiani” era chamado de “Gnocchi à la Paolo Vidal”. Por causa dessa massa e do cabrito assado de Bê (receita de família), a casa ficou famosa em São Paulo. Não havia critico de culinária ou revista especializada que não conhecesse a iguaria. O restaurante, um pequeno bistrô no centro da cidade, num local agradável e resguardado, recebia gente de diversos paises e muitos famosos: políticos e celebridades. Naquele domingo Bê aguardava o telefonema da amiga, pois talvez Franka fosse ao restaurante no final da tarde para conversarem. Há meses que não encontrava a sua melhor amiga. O motivo da visita era a festa do Conde Ribolla. As duas haviam sido convidadas para a festa do colega, e estavam ansiosas para falar no assunto. Bê era uma típica camponesa italiana, com seus cabelos ruivos e seu corpo roliço. Sempre foi uma mulher linda e sensual, com sua pele alva e seus modos delicados. Era quase um atrativo à parte no restaurante: ver a moça rodando entre as mesas com suas saias rodadas e seus grandes decotes que mostravam o colo alvo era o encanto de muitos dos freqüentadores. Porém Bê não se interessava por ninguém. Desde que ficara viúva de modo trágico numa viagem à Itália, nunca mais se interessou por homem algum. O corpo do marido, Bob Delboux, nunca fora encontrado. O homem desapareceu por completo quando foi (sozinho) visitar um palácio estilo Francês em Roma, chamado “Pallais de Boulée” (Bê, com uma forte enxaqueca, ficou no hotel). Bê passou meses sozinha e desesperada em Roma, acionou a policia secreta, detetives e investigadores, mas nunca achou o homem. Supôs-se que ele fora seqüestrado, ou que tenha se afogado, ou que tenha tido algum tipo de amnésia súbita e desaparecido. Depois de 10 anos, Bê desistiu e assumiu-se viúva, mudando de vida, largando a arquitetura e montando o restaurante. Franka e Bê estudaram juntas na mesma turma do Conde. Eram inseparáveis na faculdade e assim continuaram após a formatura. Ambas casaram, tiveram filhos e durante um tempo até trabalharam juntas. Franka acabou herdando uma grande construtora do seu pai, a Construtora Vergalhão, uma das maiores do Brasil. Teve que aprender a administrar o negócio. Era atualmente uma grande executiva e a construtora ia de vento em popa. Franka passou a incorporar as construções e vender apartamentos e escritórios, e assim dobrou o patrimônio da empresa. O pai ficaria feliz com ela, caso estivesse vivo. Porém Franka tinha um segredo. Além de presidenta da Vergalhão, mãe e dona de casa, tinha um trabalho clandestino. Era uma agente secreta, a agente Franka 4-26. Trabalhava em missões perigosas, e, exatamente por ser tanta coisa além de agente secreta, ninguém desconfiava dela. Tinha álibis para tudo, o tempo todo. Franka trabalhava para a Agência de Informações do Governo, a ANCUS (Agência Nacional de Coisas Ultra Secretas). Era uma grande profissional do assunto (investigações em geral), tinha táticas e idéias além de ser uma mulher lindíssima, morena e com grandes e maravilhosos seios, que enlouqueciam qualquer homem. Mas não foi fácil alcançar sua posição na ANCUS, onde tinha como chefe nada mais nada menos que o ex-presidente F. Agassê (o homem, um apaixonado por histórias de espionagem, após deixar a Presidência da República, assumiu secretamente a presidência da ANCUS). Franka precisou trabalhar por anos com outros agentes, precisou receber treinamento espacial e cumprir missões perigosas e ridículas até chegar onde chegou. Ela tornou-se a pessoa de confiança de F. Agassê, e a única agente do país a ter o sapato-telefone secreto diretamente ligado com o ele: um sapato velho de onde era possível discar os números na sola, exatamente como o do agente 86, aquele do seriado. O próprio F. Agassê, ao entregar o sapato para ela, disse: “Franka, ninguém desconfiará de uma coisa ridícula dessas. Só você e eu temos um desse, pois sapatos vem em pares!” A única pessoa fora da ANCUS que conhecia essa vida clandestina de Franka era Bê. Bê, inclusive, ajudava Franka em muitas missões, pois a ANCUS deixava ao encargo do agente a definição de quem seria seu “partner” nas diferentes missões – contanto que não se contasse nada sobre a Agência. Assim, há anos que Franka e Bê se encontravam numa pequena sala secreta no “La Bressiani”. O acesso a essa sala fora criado por Bê, que achou bastante divertido criar uma porta secreta para uma sala secreta. E, para que a porta secreta se abrisse, Bê também criou um código secreto: no fundo do restaurante havia um corredor, no fundo desse corredor uma estante cheia de bibelôs (que na verdade era uma porta camuflada e giratória) que se abria quando se pegava uma garrafa de vinho “Ribolla”, que funcionava como maçaneta. Dentro desse cômodo as duas tramavam e combinavam as suas ações e planos. E, claro, além de tramar e combinar, as duas também fofocavam muito e tomavam muito vinho. Mas dessa vez seria diferente. Nada de trabalho. Franka iria ao local apenas para conversar sobre o Conde Ribolla e a festa dos 20 anos. Naquela semana estava bastante complicado para Franka cumprir as missões, pois seu marido, um diplomata italiano, estava no Brasil e ela tinha que acompanha-lo aqui e ali. Mas no telefone Franka confirmou que teria uma brecha e que estaria lá às seis horas. Bê animou-se e prometeu fazer um prato de petiscos de cabrito para comerem com vinho. Franka surgiu deslumbrante com sua calça apertada de couro preto, botas e uma blusa de cashemere cor de rosa, que marcava seus grandes seios. Ainda bem que não havia mais freqüentadores no restaurante, senão a moça ia chamar muita atenção. - Bê, querida... Estou morta de fome! Cadê os quitutes que você me prometeu? – disse Franka, sentando-se numa das poltronas da sala secreta e sorrindo para a amiga. - Já vou pegar, já deixei aqui ao lado – disse Bê – podemos abrir um vinho? - Claro! Pegue um Ribolla da safra “rejuvenescedora”, por favor! Hahahah! Quero virar “menina”! – debochou Franka. - Franka, Franka... você não acredita mesmo nisso, não é? - Eu nunca acreditei nesse é nesse “Conde”, Bê. – a agente olhou para a amiga – Esse Conde e esses amigos dele... bah! Um bando de bandidos, você sabe! - Fala de quem, Franka? Quais amigos? – Bê quis esclarecer. - Do Conde, do Alex e do nosso... Rangel! – Franka sorriu, recostando-se – São ou não são, no fundo, uns cafajestes, uns malandrões, uns bandidões? Bê ficou pensativa por um instante. De Alex e Rodrigues Franka podia falar, mas já o Conde... O Conde Ribolla sempre fora a paixão de Bê La Bressiani. Mas ela nunca teve coragem de se declarar, nem de contar para ninguém. Era uma paixão secreta. Desconversou. - São homens, Franka. Homens são sempre assim – disse Bê, cautelosa. A moça abriu o vinho. Franka perguntou, provocativa. - Bê. Você está estranha... É a festa que te deixou assim? O passado?... - Não, Franka. É a Itália. Esse lugar me lembra muito o Bob. Os dias que passei lá, as procuras... - O Conde não te ajudou naquela época? Bê não teve coragem de falar a verdade. Nunca contara para ninguém o que acontecera naquela época. Era melhor que Franka não soubesse. Resolveu mentir. - Não consegui encontrá-lo. Mas... Esqueça. Vamos mudar de assunto. Acha que ele chamou todos os nossos colegas? - Claro – falou Franka, alegremente – afinal, é uma festa de 20 anos, Bê! - Até... – Bê parou de falar – Até... Eles? Franka falou baixinho. - Montanha e Gemada, você quer dizer? - É – completou Bê – Será? - Sei lá... – respondeu Franka. Montanha e Gemada eram colegas da mesma turma. Na época da faculdade eram apenas anarquistas inofensivos, mas quando saíram da escola optaram por ganhar dinheiro fácil. Os dois entraram no tráfico de drogas e, com o tempo, foram se infiltrando no meio traiçoeiro do submundo do crime. Nunca exerceram a profissão, mas sabe-se que controlaram durante muito tempo todas as transações de drogas e armas de duas grandes favelas paulistanas. Ficaram milionários. Eram homens perigosos que optaram por viver perigosamente – nenhum colega os julgava, mas ninguém tivera mais contato com eles. Apenas eram lembrados por jornais e TV. Gemada estava sumido há algum tempo, Montanha fora preso junto com Beira Mar, mas conseguiu prisão domiciliar por falta de provas e estava solto. - Não duvido nada que eles apareçam – disse Franka – são loucos o suficiente para aparecerem lá, na cara dura. - Seria divertido, não acha? Um pouco de suspense... – pensou Bê. - Tenho é saudade do Gabi, do Eduardo, da Fran, do Marqueta, da Mônica... - Sabia que agora a Mônica é uma vidente, Franka? – perguntou Bê – ela descobriu os poderes quando foi passar uns dias em Estocolmo... tem até um novo nome... Sra. Prateada, eu acho... Franka bebeu um gole, animou-se e continuou a fofocar. Cochichou para a amiga baixinho. - Vidente? Jura? E você se lembra de Maina Clara? Aquela loira, parecida com a Jodie Foster? – Franka abaixou mais a voz – Um dos nossos agentes esteve atrás dela, mas não conseguiu provar nada... Parece que está envolvida em desvio de dinheiro para políticos... falam que ela tem ligações até com o Maluf... Maina anda armada, Bê! O agente que a seguiu me contou! - Nossa... uma cara de santinha... eu nunca desconfiaria... – Bê ficou pensativa - E aquele iuguslavo... que tinha um nome estranho, só com consoantes, lembra-se dele? – perguntou Franka. - O sambista? Drkn Zxcvbnm? Hahahaha! Nossa, Franka, que saudade! – Bê levantou o copo – Vamos brindar a festa! Tim Tim! Vamos nos divertir muito! As duas amigas levantaram da cadeira e fizeram uma mesura, felizes. - Tim Tim – disse Franka – e será que vamos encontrar a Isaura por lá? Hein? Hahahaha! - Hahaha! Mas afinal, quem é “Moreirão”? Onde está Isaura? |
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