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Já se ouviu essa história na forma de farsa. Se bem me lembro, o título era Memórias de um gigolô. Na farsa, ela debandava sempre para o amante que parecia o mais fraco. Ajudava-o a reerguer-se, aprumar-se e tomar jeito para, inexplicavelmente, bandear-se para o oponente. Não suportava o sucesso de seu homem. Viciara-se em fracassados. :: . :. ...: .:. Mas Kika era diferente. Não tolerava fracassados. De início vira no alto e encorpado JR - o conhecido Jawless Rufus - um companheiro de jornada. Singraram o mar da China espalhando terror e devassidão como nunca se vira desde os tempos em que a esquadra imperial dominara aquele quadrante. Mas a decadência rondava JR. Dado a noitadas com seus companheiros em ilhas desertas, logo denunciou-se seu espírito canino. Para um pirata, era demasiado leal, e isso Drake jamais perdoara. Apenas duas coisas nos sete mares a enojavam tanto: possessividade e submissão. Toleraria desdentados, calvos, barrigudos, manetas e caolhos.. tudo, menos aquele apego canino. Nojo. Apenas nojo figurava agora entre os sentimentos que nutria por Rufus. ..: .: . :.. .. Na noite em que reencontrou Xela, em meio à violenta briga entre JR e Lês Char, já lhe passava pela cabeça largar aquele coitado numa de suas ilhotas desertas, abandonado aos seus pares. Xelas, um discreto armador, havia construido em surdina sua mais potente nave. Clandestinamente trouxera ao cais 96 o melhor mogno filipino, cedro das encostas da Siria, panos tecidos com linho irlandês e cabos tramados com fibras de juta egípcia. Os planos e linhas d'água da nave haviam sido secretamente furtados nas costas da Polônia e trazidos ao estaleiro, onde as cavernas foram desenhadas e moldadas em mogno. Diz-se que os carpinteiros que entraram no escuro galpão do cais 96 não foram mais vistos. Não se sabe de seu paradeiro, e ninguém ousaria inquirir a respeito. Apenas um, Helio, pode ser ainda visto vagando pelos cantos escuros do cais 96. Cego, sua lingua cortada, vive das doses de rum que as vadias do cais lhe fornecem. :: .. .: Xela estusiasmara-se tanto com Drake que não notou uma peculiaridade na equipagem do Golden Hind: apenas belíssimas marujas o tripulavam. Rudes e um tanto curtidas de sol e sal, mas belíssimas. Naquela noite, fizeram-se ao largo, valendo-se da lua nova e céu encoberto. Quase ao amanhecer, quando a brisa matinal caiu a menos de um nó, Xela saiu de seus aposentos e caminhou até a ponte. Kika dormia, ainda, entediada com o fraco vento. A imediata, ao timão, olhou para ele de soslaio, um sorriso malicioso nos lábios carnudos. Outras marinheiras se achegaram a Xela, que tímido, sentiu um calafrio percolher-lhe a espinha. Aos poucos, o cercaram de carícias, beijos lânguidos. Afrouxaram suas roupas, deitaram-no no convés e lhe sussurraram coisas... Então, oculta pela tripulação que o afagava, aproximou-se a mais antiga tripulante de Drake. Não se podia notar a fisionomia, apenas se percebia a silueta longilinea. Xela ouviu sua voz rouca e profunda, melancólica quase. Sua excitação era grande, provocada tanto pelas meninas do Golden Hind como pela expectativa que a rouca voz da marinheira lhe causava. As meninas afastaram-se e ela aproximou-se. : ..: Xela não podia crer na visão que tinha pela frente. Sabia que ela o buscara por muitos anos e, passado tanto tempo, não imaginava que esse dia chegaria. Trêmulo, balbuciou: - Katza ?! Mme Katza ? ! New dreams Navegar é preciso |
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