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Home do Gallacci FAU USP turma de 1980 Literatura  A moça do Porsche cor de vinho
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A moça do Porshe cor de vinho

A cozinha, no subsolo do Castelo, estava muito quente. La Bressiani e as suas ajudantes estavam quase sufocadas, mas isso não era problema. “Tsc, quem trabalha com comida sente muito calor mesmo”, pensou Bê, sorrindo ao verificar que o caldo do cozido estava divino. E o clima no castelo e na cozinha eram tão alegres e festivos, que não valia a pena pensar em problemas. O importante era que comida ficasse boa, que todos ficassem satisfeitos com a massa e com o “capretto” e que os convidados se divertissem muito.
Bê supervisionava tudo. Ainda bem que trouxera Kátia, a sua ajudante, que era exímia cozinheira como ela. Com Kátia ao seu lado, Bê La Bressiani ficava tranqüila.
-Kátia! Secou?
-Ainda não, Bê.
Bê foi verificar a massa do gnocchi, que estava sendo preparada no outro lado da cozinha. Perfeita. A farinha que o Conde arrumou era excelente.
-Kátia! – Gritou Bê – Secou?
-Ainda não!
Bê viu que Franka chegou na cozinha. A amiga colocava o dedo aqui e ali, experimentando. Estava muito elegante com sua tradicional calça de couro e botas, e vestia uma linda camisa branca com um grande decote, onde era possível ver os enormes seios da moça. Mas, como sempre, carregava a mochila esportiva preta nas costas. Bê olhou de longe e sorriu. A amiga nunca esquecia de suas missões, e tinha tudo que precisava naquela mochila... "Ah, essa agente Franka!...".
Os cozinheiros-homens todos se voltaram para ela: além do furor que o corpo da moça causava, o seu perfume de flores era delicioso. Bê viu que alguém ia queimar alguma coisa... Gritou, brava.
-Gente! Ao trabalho, vamos! – e logo em seguida olhou para a ajudante – E Kátia! Secou?
-Secou! – disse a moça, e Bê saiu correndo em direção à panela.
O segredo do molho do cabrito era esse: em certa altura da receita, ele deveria quase secar. Quase. Era esse o instante que fazia toda a diferença.
-Olá! Franka, venha cá. Sei que você adora experimentar...
Bê estava corada por causa do calor, arregaçara suas mangas e prendera os cabelos num coque no alto da cabeça. As duas juntas provaram o caldo do cabrito, e aprovaram. “Delicioso”, disse Franka, “Hum.. nossa, perfeito”, disse Bê para Kátia, sorrindo.
-Vamos conversar um minuto lá fora - disse Bê tirando o avental e rindo – Aqui, Franka querida, você atrapalha os meus cozinheiros...
A porta da cozinha dava para uma escada que chegava em um grande páteo de serviços. Lá fora avistava-se uma grande área de varal, uma horta, alguns galinheiros e muitas árvores frutíferas. Estava fresco e gostoso, ao contrário do ar abafado da cozinha. Bê se sentou numa mureta, ao lado de Franka.
-Ah, que delícia esse lugar! – Olhou para a amiga, fofocando – Bê, mas esse Conde Ribolla! – comentou Franka, rindo – Ele está impossível! Que assanhamento!
-Hahaha! Está feliz, Franka! Que implicância! Deixa ele, ele é tão bacana! Sempre te disse que eu adoro o Conde – Bê fez uma cara nostálgica, que não foi notada pela agente Franka.
Franka mudou de assunto, distraída. Olhou a amiga e deu uma risadinha.
-Que horas você marcou no Moreirão, Bê?
-Nossa... daqui a pouco... preciso tomar um banho, eu acho... – respondeu Bê, olhando o relógio.
-Puxa. Vai ser bom para você. Você vai voltar relaxada. Hihihi!
-É – a dona do restaurante estava distraída e esfregou a mão no rosto – mas estou com um problema... tsc...
-Problema? Fale – disse a agente - Resolveremos juntas.
-É que meu vestido, que trouxe para usar hoje a noite... é muito cavado! Decotado, entende? Na frente, nas costas... Como vou fazer para esconder... os escritos do Moreirão?
A agente secreta franziu o rosto e olhou para a amiga cozinheira. Realmente, aquilo era grave para uma mulher.
-Ichi... isso é um problema mesmo... e saiba, Bê. Aquilo não são somente “escritos”! São poesias concretas em alemão! Belíssimas! Dizem que são difíceis de entender, pois ele não costuma usar vogais, ainda por cima! Hahaha!
-Nossa! É como o sambista pagodeiro? O Drkn?
-É! Hahaha!
-Franka, temos que entrar numa aula de alemão urgente! Eu...
As duas amigas começaram a rir, quando a agente segurou o braço da amiga e apontou para o palácio, interrompendo a conversa.
-Ei, Bê, olhe ali... olhe, rápido! – falou Franka, apontando a porta da escada da cozinha.
As duas viram um vulto sair, vestindo uma roupa preta e tênis. Quem seria aquela pessoa? Pareceu que o indivíduo saía escondido, pois olhava para trás e se esgueirava pelos cantos. Franka, como era agente secreta e tinha o hábito de investigar, logo pressentiu que o clima era estranho. Deu um pulo e se escondeu rapidamente atrás da mureta. Puxou a amiga, sussurando.
-Bê! Venha cá, sua tonta! Se você ficar em pé a pessoa vai te ver...
As duas ficaram observando, caladas e agachadas. O vulto preto passou pelo páteo vazio, cruzou a horta correndo e se dirigiu ao estacionamento, sorrateiramente.
-É a Condessa! – disse Bê, cochichando – Não é? Só pode ser ela!
-Não sei... – falou Franka – Shiu... fica aqui, Bê, que eu vou até lá.
Franka correu atrás da figura. Percebeu que ele, ou ela, já entrava em um dos carros do Conde. O carro arrancou rapidamente dali. A agente percebeu que a "pessoa" era uma mulher, pois um cacho de cabelo loiro e comprido se desprendeu da touca e estava a mostra.
Franka não perdeu tempo. A garagem do Castelo era grande, o Conde Ribolla tinha, ao menos uns dez carros, entre furgões e carros esporte. A moça misteriosa saiu num antigo “Porche” cor de vinho, mas Franka resolveu segui-la num carro que chamasse menos a atenção. Entrou numa van fechada, que deveria ser usada pelos funcionários do castelo para transporte de gêneros alimentícios. Ao abrir o carro, Franka verificou que a chave estava no contato, mas a agente teve que esperar um vigia passar ao largo e estar a uma certa distância dela, para poder sair dali sem ser vista. De dentro da mochila, Franka tirou uma peruca chanel loira e um boné preto e vestiu. Era melhor se manter disfarçada, nessas horas.
O telefone tocou.
-Tá maluca? – Era Bê, brava com a amiga – Sua doida, você pegou um carro do Conde? E vai seguir a pessoa? Acha que isso aqui é um filme de 007?
Franka, acostumada aos medos da amiga de longa data, riu, tranqüila.
-Hahaha... Fica fria, Bê. Só estou... brincando – respondeu a agente, falando baixinho e rindo da amiga - "Chame o detetive Rangel, Bê!". Hahaha!
-Brincando? Você está seguindo uma pessoa, a troco de nada! – falou Bê, atônita – Franka, isso aqui é uma festa, somos todos amigos, não há mistério nenhum!
-Hehehe... beijo, beijo, beijo... Bê! Vá ao Moreirão e relaxe, que está quase na sua hora... – Franka desligou o telefone, sorrindo.
A agente concentrou-se na saída da propriedade. Afinal, deveria dirigir como alguém que conhecia o local. Avistou o porshe cor de vinho ao longe. Manteve-se a uma certa distância, para não chamar a atenção da motorista misteriosa.
O carro saiu da propriedade do Conde Ribolla e pegou uma estrada local. “Caramba. Onde ia aquela mulher?”, pensou Franka, intrigada. Enquanto dirigia, pensou que aquela moça não poderia ser a Condessa, afinal, a Condessa era morena (pelo menos estava morena, pois vira a mulher pela manhã e não era possível que ela tivesse tingido os cabelos em algumas horas). Além disso, Franka pensava naqueles tênis. A Condessa nunca usaria “tênis”. “Não, não, a Condessa é impossível.”
“Mas... Qual das convidadas do Conde ou moradoras do castelo eram loiras?” Franka lembrou-se de Bêah. A mocinha francesa era loira, sim... aquela moça realmente poderia ser Bêah. Mas porque a francesa se esgueiraria porta afora, como uma bandida? Afinal, sendo ela uma moradora do Castelo, poderia sair pela porta da frente e pedir o carro ao Giovanni, o motorista do Conde. Será que Bêah tinha um amante misterioso, e fugia do dr. Charles vez ou outra? Franka tentou lembrar-se de Bêah. Mas Bêah era tão bunduda, tão roliça, deixava os homens tão assanhados... Tinha um corpo tão sedutor, e a mulher do carro cor de vinho parecia tão magrinha, tão... miúda....
Será que era Carmutcha? Não, a secretária do Conde era bem morena. E Maina Clara? Sim, sim, aquela moça poderia ser a misteriosa Maina Clara. Ou talvez uma das moças de Honolulu, Bia, que era mais loira ainda... A Paquita não viera, conseqüentemente não seria ela. Francis? Não, a mulher-pirata ainda não tinha chegado ao Castelo.
O Porshe corria em alta velocidade pelas estradas sinuosas da Toscana. Franka fazia um certo esforço para manter seu furgão próximo do carro esporte. Pelas placas da estrada, depois algum tempo, percebeu que o veículo se dirigia à cidade de San Geminiano. San Geminiano? Que será que existia nessa cidade? Ao longe avistou um monte de torres. Nunca vira tantas juntas. “Será que todos as pessoas ali moravam em torres?” Sorriu. Uma vez lera que homens constroem torres para mostrar sua virilidade. “Ah, esses italianos...”, pensou Franka, rindo sozinha.
A moça do carro cor vinho passou a andar vagarosamente quando entrou na cidade. Depois de muitas voltas, Franka viu que ela estacionou o carro e saiu andando pelas vielas. Franka colocou os óculos escuros e fez o mesmo. O telefone tocou de novo.
-Alô.
-Faz uma hora e meia que você saiu, sua louca... – disse Bê, suspirando – Ainda está viva?
-Bê, estou em “San Geminiano” – falou Franka.
-Uau. A cidade das torres? É linda...
-Shiu... Depois falamos – e Franka desligou subitamente.
A moça caminhava rápido e Franka não podia perdê-la de vista. Percebeu que a mulher entrou num pequeno café e sentou-se numa mesa do lado de fora, na calçada. Franka, de onde estava, via a moça de costas, e ainda não era possível reconhecê-la. Parou junto a um muro e ficou olhando de longe. Embora não fumasse, Franka o fazia como disfarce, em momentos como esse. Pediu fogo a um italiano que passava, olhando de soslaio a moça e agradecendo.
Exatamente nesse instante, uma outra moça aproximou-se da mesa. Francis! Era Francis sim, impossível não reconhecê-la, pois a velejadora francesa era muito bonita, bronzeada e alta.
“Mas...”, pensou Franka, “... quem a velejadora fôra encontrar, em San Geminiano, escondido do Conde Ribolla? E porque Francis não fora ao palácio, como todos os outros amigos e colegas?”. Tudo passou a ficar bastante nebuloso aos olhos da agente Franka. Percebeu que, ao invés da mulher pirata velejadora sentar-se à mesa com a moça de preto, as duas se levantaram e começaram a andar juntas, conversando seriamente. Não sorriam, não se abraçaram, nada. Parecia que tratavam de negócios... A agente as seguiu de longe. Teve receio de perdê-as de vista, mas se ela se aproximasse poderia chamar a atenção.
As duas moças entraram numa antiga porta com grade. Franka olhou para cima... óbvio, uma torre... seria aquela a mais alta da cidade? As duas desapareceram ali. Estariam lá em cima? O tempo passava, Franka esperava, mas nada acontecia. Uma senhora gorda e idosa surgiu de lá de dentro, depois de mais de meia hora de espera. Franka abordou – a, sorrindo.
-Signora.
-Parla, ragazza.
-Como se chama essa torre?
-Torre Pietro Cardino, signora.
-Pietro Cardino...
Nada se encaixava. Franka, depois de anotar o endereço da torre e resolver voltar ao Castelo do Conde Ribolla, telefonou para Bê.
-Alô, Bê? Pode guardar um pouco de cabrito para mim? Chego ai em uma hora.
-Claro! Ei, o que descobriu? – perguntou a amiga.
-Bem... Falaremos quando eu chegar – disse Franka, chegando ao furgão – ... até já.
A agente guardou a peruca, os óculos e o boné na mochila na viagem de volta. Pensava porque as duas colegas da faculdade, a moça de preto e Francis, foram fazer juntas em San Geminiano. “Estranho, muito estranho”, refletiu.
Quando entrou no palácio, deu de cara com o Conde Ribolla, exatamente no muro da entrada da propriedade. Estava com Lolô e um dos seus capangas, mostrando a área, provavelmente dando ordens e orientações para a hora da festa. Franka teve que pensar rápido numa desculpa para dar ao anfitrião... Porque saíra com um carro dele, escondido?
Olhou ao redor. Um outro grupo, liderado por Eduardo Dobem, fazia cooper pelo jardim dos girassóis. Dobem era também maratonista, e, assim como Ana K., um fanático por esportes.
-Oi Conde! – disse Franka, alegremente, ao ver o homem franzindo o cenho para reconhecer a motorista da van.
O homem estranhou.
-Franka? É você? Mas o que...
A moça desceu do carro e salpicou uma beijoca carinhosa no rosto do anfitrião. Cochichou no ouvido dele, melosamente. Ela sabia fazer isso.
-Hum... Roubei um pouquinho seu carro, querido... espero que não se importe! – falou baixinho no ouvido dele – Sabe, precisei de algumas coisas da farmácia, caríssimo... – Franka sorriu para o homem e continuou sussurando – Hum... Coisas de mulher. Entende? – ela deu uma piscadinha para ele.
O Conde ficou envergonhado. Ora, ora.
-Mas eu poderia mandar Carmutcha buscar, ma bella! Ora, ora! E eu... eu poderia te emprestar um carro mais adequado, imagine, Franka, uma convidada minha saindo num... caminhão! Ora, ora, frankamente, uma grande executiva como você, cara Franka!
-Ah, Conde, querido, imagine... adoro passear! E aproveitei para fuxicar nas lojas de material de construção da cidade...
O Conde abraçou a moça, aproveitando a oportunidade para passar a mão lentamente pelo corpo dela.
-Franka, trabalhando, aqui? Ora, ora! É hora de festejar, cara Franka! Festejar, ma bella!
Franka entrou no carro sorrindo e voltou ao castelo. Eram duas da tarde, e ela estava faminta. Entrou na cozinha esbaforida.
-Bê! Socorro!... que fome!
Bê La Bressiani tinha trocado de roupa e tomado um banho e estava maravilhosa com um conjunto beje claro. Tinha as maçãs do rosto rosado e um sorriso cativante.
-Guardei um prato para você... – olhou para a amiga - Mas vamos. Conte tudo.
Franka e Bê conversaram baixinho na copa do palácio. Bê disse que Bia, a moça de Honolulu almoçara no palácio. A Condessa, Carmutcha e Lili também almoçaram lá. E Bêah também.
-Então... – disse Franka, pensativa.
-Então só sobra uma pessoa, Franka – concluiu Bê.
-Maina Clara... – disse Franka, bebendo um gole de vinho. Sim... foi Maina Clara que encontrou Francis em San Geminiano, escondido de todos, e que entrou na torre Pietro Cardino com ela!
-Mas porquê? Porquê? – Perguntou Bê La Bressiani, intrigada.
-Descobriremos, querida amiga! Descobriremos! Ou então... hahaha... pediremos ajuda ao nosso querido Detetive Rangel!– disse Franka, sorrindo e levantando o copo – Vamos brindar a isso. `A Maina Clara! Tim Tim!
As duas se olharam e deram uma enorme gargalhada. Frankamente!...

Sob o toque das trombetas
Onde está Isaura?