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Home do Gallacci FAU USP turma de 1980 Literatura  Mas afinal, quem é “Moreirão”?
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Mas afinal, quem é “Moreirão”?

O Conde chegou esbaforido à sala de jantar do palácio. Charles, Bêah (cada vez mais mocinha e lolita) e Carmutcha estavam aguardando o homem, que chamara todos para conversar depois do jantar. O Conde cumprimentou a todos e dirigiu-se a um aparador lateral, onde pegou uma garrafa de vinho. Arrumou os óculos para olhar melhor a garrafa e sorriu. Virou-se para Carmutcha.
-Não achou Isaura, Carmutcha?
-Achei sim, Conde. Ela está na sala azul da torre sul. Mas está entretida com a fabricação de umas fivelas de cabelo e disse que não poderia vir agora.
O Conde balançou a cabeça. Como uma mulher podia ser tão difícil de ser encontrada? Deu de ombros e pigarreou.
-Bom – o homem sacou a rolha e olhou para os três, animadérrimo – chamei todos aqui para comunicar que no mês que vem farei uma grande festa aqui no castelo! – o Conde serviu um pouco de vinho na sua taça, aprovou e passou a servir para todos.
Charles, cambaleante como sempre, avançou no copo antes das moças. Foi interrompido pelo elegante e educado Conde.
-Dr. Charles, dr. Charles... contenha-se! Olha os modos, querido Doutor! As moças!
O Conde deu uma taça para cada uma delas e continuou. Era um homem muito formal, gostava muito de cerimônias e protocolos. Em alguns momentos, chegava a ser chato por causa disso. Mas esse era um dos seus segredos para conquistar tantas mulheres: ele sabia que todas as moças, independente da idade, da raça, ou profissão gostavam muito de ser galanteadas por um homens gentlemans e educados. O Conde, em muitas ocasiões era tão exagerado nos cortejos que beirava o ridículo, avaliavam os homens – mas elas continuavam se apaixonando por ele.
Aliás, o seu casamento com Isaura era simplesmente perfeito para um homem conquistador como ele. A esposa nunca se preocupava em saber onde ele estava e nem com quem estava, e, de tão distraída, muitas vezes nem percebia que ele estava no mesmo ambiente do que ela. O Conde se sentia liberado para resolver sua vida amorosa com outras mulheres, claro, sempre com total discrição, mas sem tanta culpa. Isaura vivia em outro mundo com suas bijuterias, seus acessórios, suas pequenas miçangas e sua paixão pelo artesanato.
Charles esperou sua vez, pegou a taça de vinho e virou toda de uma vez.
-Chére Ribolla... Ulálá! Hic! Um gran festâ... ulálálálá... mas é uma festa como... como... hic, como as festas que chère Conde... – ele quis se referir aos bacanais do Conde, mas se conteve por causa da esposa e de Carmutcha, que o olhou com reprovação.
O Conde desconversou, sem graça, e mudou de tom.
-Uma festa, Charles, uma enorme festa onde eu vou mandar trazer todos meus amigos antigos da época da escola do Brasil. Carmutcha já sabe de tudo e já entrou em contato com quase todos eles. Só falta acertar os detalhes finais: o dia da festa, as acomodações, as atrações – o Conde olhou para os amigos e sorriu – e para isso eu queria a opinião de vocês!
Charles se assanhou todo. Até que enfim alguma coisa ia acontecer naquele castelo!
-Oba, chére Conde! Amigos e amigas? Hic! Muitos? Ulálá!
-Cerca de cem pessoas, eu acho. A lista inicial tem cento e cinqüenta, mas não acredito que venham todos. E vocês não conhecem ninguém a não ser Alex e Rodrigues – o Conde olhou para eles, explicando.
Beah, cada vez mais animada, exclamou alto.
-Ai, mas que legaaaal, Conde! Uma festa para animar esse castelo mal assombrado! Ótimo!
O Conde sorriu para ela e explicou. A casa ia ficar lotada. Para isso, ele e Carmutcha já tinham feito as contas: o castelo era enorme, mas não tinha 100 quartos. E como o Castelo dos Ribolla era distante de tudo, na longínqua região de Montalcino, não havia a hipótese de ninguém ficar num hotel nas proximidades, pois simplesmente não havia hotel nenhum nas proximidades.
-E... e como todos vão dormir? – perguntou Bêah, com sua cara de criança e seu sorriso angelical.
O Conde olhou para ela. Como ela podia ser assim, se perguntava o Conde?
-Dê uma idéia, Bêah! É para isso que chamei vocês todos aqui! – disse o anfitrião.
-Hummm... – a moça era ótima para dar idéias - Teremos que colocar três pessoas em cada quarto – disse Bêah, que tinha o maravilhoso hábito de simplificar os problemas com seu jeito infantil – sendo assim, para não haver confusão, Conde, acho melhor fazermos a divisão por... – ela olhou para todos e sorriu – ordem alfabética!
-Hã? – Carmutcha protestou – Ordem alfabética, sua maluca? – as duas sempre discutiam muito – e se caírem mulheres e homens no mesmo quarto?
Charles fez um muxoxo, debochando do falso pudor da secretária do Conde. Todos sabiam ali que ela não era flor-que-se-cheire, agora queria fazer o tipo da moça pura e envergonhada?
-E daí? – Disse o Dr. Charles – Isso faz parte da farra! Hihihi, hic! Se quiserem, dormirão sem roupas e tudo pode acontecer! Hic! Mas... hic! Se quiserem, também podem dormir vestidos e comportadinhos, que também tudo... hic... pode acontecer! Hic! Hahaha! – o Doutor começou a rir alto.
-Mas... eu acho que... - protestou Carmutcha.
O Conde interrompeu as duas.
-Eu concordo plenamente com você, Beah! Melhor solução não há! Faremos uma lista e dividiremos as pessoas. Caiu, caiu, não pode reclamar! Isso é maravilhoso, genial, minha moça linda!
A moça sorriu, dengosa, para o homem galanteador. Dr. Charles não gostou nada daquilo e foi rude na resposta.
-Beah,Hic! Mas isso serve para os colegas do Conde. Nós, que moramos aqui, ficaremos nos nossos quartos exatamente como estamos hoje, ora bolas!
A moça ficou desiludida.
-Ah. É mesmo, Conde?
-Sim – ele inclinou mais a cabeça. – Infelizmente sim, cara Beah! Hahaha!
O anfitrião foi além. Contou que dentre as pessoas que viriam a festa existiam pessoas um pouco “diferentes”. Era preciso alertá-los.
-Diferentes? – disse o velho e já torto dr. Charles – como... hic... assim “diferentes”?
-Você sabe, Charles. – falou o Conde, com a natural cabeça torta - As pessoas mudam com o tempo. Tomam rumos diferentes...
-Ele quer dizer que tem amigos que se tornaram bandidos perigosos – interrompeu a rápida Carmutcha, irritada com as meias palavras do Conde – Homens que até foram presos!
A bela Bêah ficou excitada com a idéia e exclamou, sem conseguir se conter.
-Juraaa? Uúú! Um bandido verdadeiro?
O Conde suspirou fundo. Não ia ser fácil, não ia ser fácil... Sim, ele disse, Montanha e Gemada eram traficantes no Brasil e já haviam sido presos diversas vezes. Mas antes disso tudo foram muito amigos do Conde. E era isso que importava. A amizade.
O homem continuou contando sobre os colegas e a festa: descobriu que uma das suas grandes amigas, chamada “Bê La Bressiani”, tinha uma trattoria maravilhosa e muito famosa no Brasil. Os pratos principais do restaurante, com a qual Bê ficou famosa, eram o “Assado de Cabrito a là Martins” e o “Gnocchi a là Paolo Vidal”. O Conde pensou em chamar Bê para fazer na festa esse tal cabrito e essa maravilhosa massa.
-Trazer o restaurante para cá! Afinal, pense, Charles meu velho, temos cabrito a dar com pau aqui em Montalcino! Afinal – lembrou ao bêbado homem – precisamos de quilos e quilos de esterco para a produção do vinho rejuvenescedor da penumbra, lembra-se?
Todos concordaram na mesma hora. E a cozinheira do palácio, uma senhora já idosa chamada Hanah Beluzzo, estava gagá e a comida andava intragável, lembrou Beah.
O homem continuou. Para animar a festa ele traria dois grandes astros. Um deles era o famoso Barry Manillow, um cantor que o Conde adorava há anos e de quem tinha se tornado amigo íntimo. E alám dele – o homem olhou para Carmutcha – contou que eles descobriram que na turma deles existia um grande artista.
-Magoo e as meninas de Honolulu! – falou o homem, animado.
Todos olharam para o Conde. O que “Magoo e as meninas de Honolulu” tinham a ver com o Conde Ribolla? Todos sabiam que Magoo era um astro hollywoodiano famosérrimo, mas era havaiano e não brasileiro! E era atualmente o maior astro de Vegas, de onde o Conde inventou que aquele homem tinha alguma coisa a ver com... com ele?
-Mas tem! – insistiu o Conde – ele nasceu em Santos! E foi meu colega na faculdade, é verdade! Eu juro! Em Santos!
-Nossa... Exclamou Carmutcha, e ele é liiiindo demais! Que corpo!
-E as meninas dele – Bia & Clice - são ótimas! Já falei com elas ao telefone, estão muitíssimo animadas de virem para a Itália! – completou o Conde.
O Conde acabou a garrafa de vinho e finalizou contando sobre os demais colegas. Franka era uma grande executiva, e atualmente dona da maior construtora da América Latina, herdada do pai; Mônica, que na época da escola era uma grande fotógrafa, embrenhou-se em uma vila de Estocolmo, conheceu um guru e nunca mais se separou dele; Sônia Ainôs, uma grande estudiosa de história da arte, largou a arquitetura e abriu uma grande fábrica de cerveja em Ribeirão Preto: seria apenas rica se não fosse um pequeno pormenor – foi a primeira inventora da cerveja feminina, mais leve e doce, e, importantíssimo – rejuvenescedora, - segundo uma mentira que ela mesma inventou, mas que até agora ninguém tinha descoberto (Sônia Ainôs se associou a um criador de cabritos para produzir cevada com esterco do animal na mesma época que soube que os vinhos do Conde eram produzidos com uvas adubadas com esterco desse mesmo animal – na verdade, nunca foi comprovado que a cerveja de Sonia, a “VW Extra” rejuvenescia como o vinho do Conde, mas ela, esperta, preferiu deixar aquilo no ar); e ainda havia Luciana, a misteriosa Luciana, de quem Conde pouco sabia atualmente...
O homem pigarreou e continuou: “e temos... Maina Clara Diniz”. Ele fez um silêncio e olhou para os três. Foi o dr. Charles que se adiantou.
-Mas essa não é a moça... hic! A moça do escândalo? Hic?
-Sim – disse o Conde, conformado – o governo brasileiro desconfia muito dela... É o que dizem, que ela está envolvida no escândalo das contas fantasmas do Paulo Maluf na Suíça – ele olhou para os amigos e sorriu – mas quem é que pode provar? E aqui, na minha festa, e no meu castelo – o Conde olhou fundo nos olhos dos três – ela é minha convidada antes de qualquer coisa!
-Mas... – disse Beah, assustada – e se polícia...
O Conde deu um grito.
-Não, Beah, não! Enquanto ela estiver aqui, nós a protegeremos! Eu a protegerei com todas as minhas forças – o homem estava visivelmente emocionado – Nunca uma amiga minha ou um amigo meu será ameaçado ou preso nos meus domínios! Hahaha! Nunca! Nem Maina Clara, nem Montanha nem o pequeno e divertido Gemada serão perturbados aqui no castelo! E eu falarei com o delegado Gnocchi, afinal de contas, há anos que eu molho a mão daquele carcamano!
Ninguém se mexeu. Quando o Conde se exaltava daquela maneira, amedrontava a todos a seu redor. Ele tossiu e retomou.
-Ainda teremos Drkn Zxcvbnm, um sambista e pagodeiro ioguslavo simpaticíssimo; o meu bom Marques Marqueta, que hoje um lindíssimo cassino em Monte Carlo e muitos, mas muitos outros convidados! E, só mais uma coisa... – o Conde parou e olhou para Beah e Carmutcha – Precisarei muito da ajuda de vocês duas.
Carmutcha ficou intrigada e olhou para Beah.
-Nossa? Porque?
-Um dos meus amigos, aparentemente um homem normal, tem hábitos bastante estranhos... – disse o Conde – Preciso que vocês tomem conta dele.
-Mas... mas o que ele faz? – Perguntou Carmutcha, confusa –... e quem ele é?
-Moreirão. – o Conde respirou fundo – Mas... mas depois vocês vão entender. É só ficar de olho nele, meninas. De olho. Moreirão.
O Conde olhou no relógio. Já era tarde, ele estava exausto. Deu um beijo nas meninas e se recolheu, deixando o dr. Charles coçando a cabeça e pensando: “Moreirão? Mas que diabos é isso?”

Rodrigues, Rodrigues...

Onde está Isaura?