|
|
|||||||||||||||
| Home do Gallacci |
|||||||||||||||
|
-=> novoMiolo=" -=> aTab=stdClass Object ( [tagIni] => [trs] => Array ( [0] => [1] => ) ) -=> umTr="
| -=> contTd=1 -=> oTr=stdClass Object ( [tag] => [tagIni] => [tagFim] => [tds] => Array ( [0] => ) ) -=> umTd=" " | -=> oTd=stdClass Object ( [tag] => [subtags] => Array ( ) [colspan] => 1 [rowspan] => 1 [tagIni] => [tagFim] => [conteudo] => ) O castelo abandonado |
O Conde Ribolla andava sozinho pelos corredores do Castelo dos Ribolla, na pequena cidade de Montalcino, no interior da Itália. O local estava escuro e abandonado. Alguns vidros das janelas estavam quebrados e entrava um vento frio carregando muitas folhas secas no interior do castelo. O antigo telefone começou a tocar, fazendo um som estridente. O homem, encurvado e mal vestido, continuou o seu caminho sem se alterar. Arrastava as sandálias havaianas e tossia. Passou ao largo do telefone sem tocar no aparelho. O som ressoava pelos corredores escuros, dando um ar tétrico ao lugar. Uma voz de mulher gritou de dentro de um dos quartos. -Pôôô Condeee! Não você que tá ai? Não vai atender essa droga? O homem continuou andando devagar e olhando para o nada. A moça saiu de dentro do aposento e correu em direção ao telefone numa pequena salinha anexa ao corredor. -Alô. Bêah era uma mocinha loira e bonita, com rosto de adolescente e cabelos encaracolados. Mascava chicletes, estava descalça e vestia um pequeno shortinho jeans bem justo. Falava alto e gritado num tom arrogante. -Olhaquí, estar ele está, mas vai ser impossííível falar com ele, sabe? – a mocinha explicava e gesticulava exageradamente – Aqui é o Castelo do Conde, sim, mas acontece... – ela tirou o telefone do ouvido e verificou se o homem estava longe – ... acontece que o Conde Ribolla não atende mais telefone. Se você quer falar com ele vem aqui e fala. Eu não consigo tirar uma palavra desse homem. A mocinha colocou a mão na cintura e falou mais alto, irritada. -Como quem sou eu? Sou Bêah, oras. Sou uma hóspede do castelo – completou a menina, simulando passos de dança e desligando o aparelho com um muxoxo. Virou-se para trás e deu um pulo. -Aaa! Nina! Que susto! Era Regina Nina, a velha governanta do Castelo. A velha senhora morava no local desde que nasceu. Nunca se casou ou teve filhos: entregou sua vida à família do Conde e ao trabalho no Castelo. No ano anterior, na época da grande festa do Conde onde os problemas começaram, a mulher estava adoentada e teve que ser internada por um mês. Ficou numa clinica de repouso em Montalcino, recuperou-se e voltou. Mas depois que retornou a velha senhora perdeu a vitalidade e a saúde. Volta e meia confundia as coisas, se atrapalhava e não conseguia mais comandar o castelo como antes. O lugar foi assim, pouco a pouco, sendo descuidado e largado. A bagunça foi se instalando, ninguém mais varria ou cuidava dos salões, os pisos foram ficando encardidos e o pó foi-se acumulando nos cantos, isso além das baratas e ratos que passaram a tomar conta da casa. A velha Regina Nina, semi- esclerosada, passava os dias andando pelo Castelo e falando com as paredes. Além do problema da esclerose, Nina também estava enxergando menos e ouvindo menos a cada dia. -Ninaaa – falou Bêah bem alto, colocando-se na frente da velha senhora – Nina, já te falei que você tem que parar de me dar esses sustos. Tem que me chamar antes de aparecer. -O telefone, menina... – falou a velhinha, andando para o outro lado – Eu preciso atender o telefone! -Mas Nina, eu já atendi! – Bêah suspirou e balançou a cabeça – Nossa, mas isso aqui é uma casa de loucos. A mocinha segurou na mão de Nina e passou a andar ao lado dela, como se estivesse passeando. -Isso aqui está imundo, esse castelo está um horror, Nina. Ninguém limpa nada, não há mais gente trabalhando, falta tudo, até a comida está escassa! Nunca imaginei que o Conde fosse ficar nessa falência, nessa miséria. Onde isso vai parar? -Não fale assim do patrãozinho, menina Bêah! Um homem tão bom, tão fino, tão elegante, o Conde – exclamou a senhora – E não se esqueça. Você está aqui de favor, mocinha! -Mas é nojento – resmungou a menina – Alguém precisa reclamar! Deixar toda a limpeza e arrumação desse Castelo nas suas mãos e nas mãos de Padovano, dois gagás! -E porque você não ajuda? – disse a velha senhora, ríspida. -Euuu? Eu não sou empregada, Nina! – irritou-se a mocinha, que saiu batendo os pés pelos corredores sujos. Bêah resolveu falar com Dr. Charles no laboratório, em um dos porões da ala oeste. Todo o local, que anteriormente abrigava um dos mais modernos e sofisticados centros de pesquisa de produção de vinhos, agora estava praticamente desativado. Quase todos os equipamentos tiveram que ser vendidos para saldar as dívidas. Quando Bêah entrou no local, teve que fechar os olhos para se acostumar com a escuridão. Como o seu ex-marido conseguia enxergar alguma coisa ali dentro? -Chèreee... – falou a moça, chamando o homem que se debruçava numa mesa – Está ocupado? O homem não se mexeu. -Charles, querido – falou a mocinha – Charles? Bêah percebeu que o homem, ao invés de estar trabalhando, estava dormindo sobre a mesa. Por isso não se incomodava com aquela penumbra. -Chaaarles! – gritou a menina – Acorda, peloamordeDeus! -O que foi? – ele se levantou assustado. -Ahhh – desabafou a moça – Acorda, fala comigo! Estou aqui há uma semana e não agüento mais! Esse lugar está cheio de mortos vivos, por favor, fale comigo! -Bêah, mas foi você que pediu para voltar. Foi você que quis vir morar aqui de novo. Eu já tinha até esquecido que um dia eu tive uma esposa – falou o homem, bocejando. -Eu sei, mas eu não tinha para onde ir, Charles! Estava passando fome, né? – retrucou a moça. -E reclama de que? O Conde te acolheu – falou o ex marido – Agora você tem casa, calor, teto, comida... -Comida? Não agüento mais comer sopa, sopa, sopa... Isso aqui está a maior pindaíba! -Não é sopa, é brodo. E não fale mais assim! O Conde está em dificuldades e temos que ajudá-lo a sair dessa penúria. Devo muito à ele – o homem olhou para a ex-mulher – Você poderia ajudá-lo a sair dessa situação. Você poderia trabalhar, fazer alguma coisa. -Eu? Charles, está maluco? Eu já te falei, meu caro – a moça passou a cochichar baixinho, irritada – Você me usou nas suas experiências, me fez remoçar desse modo, eu não paro de ficar menina, menina, menina, não agüento mais! – Bêah olhou para ele e fez uma careta – Alguém agora tem que cuidar de mim. Sou sua experiência. Sua cria. Feito a mulher do Frankenstein. -Nossa, Bêah – assustou-se o homem, rindo – Não precisa exagerar. Venha, vamos tomar um café. Os dois saíram da sala e foram até a cozinha do Castelo. Bêah e Charles sentaram-se numa mesa e serviram-se de um café ralo e fraco feito pela moça. -Eca. Isso parece chá – falou o médico. -Estou economizando pó de café, Charles. Tem só um restinho – Bêah olhou fundo para os olhos do doutor ex-marido – Charles, quer me explicar o que acontece aqui? Porque toda essa miséria? Essa história de “corte de despesas”... de “viver uma vida mais espartana”... isso, vindo do Conde Ribolla, não me convenceu. O que houve aqui, pelo amor de Deus? O homem levantou-se e foi fechar a porta. Era uma precaução desnecessária, uma vez que no Castelo moravam somente cinco pessoas: o Conde, Charles, Bêah, a velha Regina Nina (surda, esclerosada e meio cega) e o poeta e artista português que vivia absorto na masmorra, o famoso Bernardes Moreira, e que nunca saia de lá. Há um ano atrás Bêah juntara todo seu dinheiro e fugira do Castelo e do marido. A moça, que ficava a cada dia mais moça, fizera parte de uma experiência inédita de rejuvenescimento do médico francês. Porém, como ela tomou a fórmula que ainda estava em período de testes, Bêah ingeriu-a de forma muito pura, o que alterou a formação cromossômica da moça e inverteu o processo de rejuvenescimento – assim, a cada dia a moça tornava-se mais menina, apesar de já estar perto dos cinqüenta anos. Quando viu-se jovem, a moça se assanhou e resolveu fugir dali para correr o mundo numa grande aventura. Mas, como toda adolescente, já não sabia mais administrar o seu dinheiro. Acabou gastando tudo em baladas, farras, bebidas e homens, e acabou voltando para o ex-marido para pedir ajuda. Dr. Charles, um velho médico beberrão, bom e simpático, a aceitou de novo sem problema algum. Era até bom ver a moça novamente, pois o clima do castelo estava para lá de deprimente e ele não tinha mesmo condição de arrumar outra moça para se casar ou namorar. Já Bernardes Moreira, um antigo amigo do Conde, veio para a festa que houve no ano anterior e resolveu não voltar ao seu pais de origem. Depois de uma grande decepção amorosa (apaixonou-se por uma moça religiosa, que o trocou por um empresário de filmes pornô), o homem não se recuperou mais. Entrou em depressão profunda e parou de comer, beber e fazer sexo. Enterrou-se numa velha e fedorenta masmorra e começou a escrever, rabiscar, pintar e desenhar sobre telas feitas de couro de cabrito. Era a sua válvula de escape, o homem não tomava mais banho, não comia direito, não fazia mais nada, apenas ficava calado e mergulhado naquelas obras de arte, “minhas poesias animais”. Bêah se assanhava toda quando via aquilo, pois tinha certeza que, se algum bom marchand descobrisse que Bernardes Moreira estava ali e fazendo aquelas coisas esquisitas, ela e o marchand ficaram milionários. Mas isso não poderia demorar muito, pois senão Bêah seria nova demais para a coisa e não aproveitaria nada. Bêah olhou para Charles, seu marido de tantos anos e por um milésimo de segundo sentiu-se mais velha, mas logo em seguida a moça voltou a suspirar como uma adolescente. -Ah, vamos Charles, me fale o que houve aqui! Ninguém me fala nada, me tratam como criança! – resmungou a mocinha. O homem bufou e falou mais alto. -Bêah, quer saber a verdade? O Conde não perdeu o dinheiro ou fez maus negócios. O Conde foi assaltado. Roubado. Por causa disso estamos assim. -Assaltado? Nossa! – a moça fez uma cara de espanto – Mas então vamos chamar a polícia, ora! Charles respirou fundo e lentamente acendeu um cigarro. -Não, minha cara, sem polícia. Esse foi um tipo de roubo que não pode ser denunciado a polícia. -Como assim? – perguntou Bêah – Eram jóias roubadas? Eram drogas? O que a polícia não poderia saber? -Digamos que... – o homem hesitou um pouco – Digamos que o Conde Ribolla não queria ver a polícia envolvida nisso. Digamos ainda que... o que foi roubado era uma coisa secreta. -Nossa, Charles, que confusão. O que o Conde guardava aqui no Castelo? Um tesouro? Documentos? Isso está parecendo um filme de 007. Hahaha! – Bêah começou a rir alto. -Não ria, Bêah, é sério. Esse roubo acabou o com o Conde. Foi a vida dele que roubaram. E lembre-se, ele perdeu também a Condessa, e isso o deprimiu mais ainda. A mocinha fez um gesto irreverente, dando de ombros. -Aquela assanhada da Condessa. Onde já se viu largar o Conde por causa do irmão dele? Que sem vergonha... Nesse instante os dois ouviram a porta se abrir. Era o Conde, que entrou absorto na cozinha, empunhando uma enorme e velha espada. Estava descabelado, tinha as roupas rotas e rasgadas e os olhos revirados. Charles e Bêah se assustaram e pularam da cadeira. -Conde, que é isso? – falou Charles, preocupado – O que houve? O homem entrou e começou a berrar, agressivo. -Vou matar aqueles ladrõezinhos de merda! – vociferou o homem, babando – Aqueles ladrõezinhos sem vergonha! Acabaram com minha vida! Acham que eu não ia reagir? Que eu sou boilola? Que eu sou viadinho! Bah! Vou matar todos eles, onde eles estão? -Eles quem, Conde? – perguntou Charles, confuso – Que é isso, homem? Onde arrumou essa espada? Antes você estava triste, mas agora está louco? – Charles chegou perto do homem e falou baixo – Conde, o roubo foi há um ano atrás! -Não me chame de louco! – berrou o homem –E não há “tarde” ou “cedo” para uma vingança de um homem! Eu não estou louco! -Então abaixe isso pelo amor de Deus... – implorou Charles, berrando também. O Conde abaixou a espada e deixou cair os ombros. Estava cansado. Olhou para o amigo. -De que adianta lutar se não tenho forças nem para falar, Charles?... -Você deveria conversar com um médico – interrompeu Bêah, mascando chiclete – Uns remedinhos resolveriam esse seu caso. Isso é apenas uma depressão, Conde. Conheço um lugar onde vendem uns desses bem... -Bah, menina, cale-se! – O homem perdeu a paciência com a moça e olhou para Charles, ignorando-a – Charles, temos que lutar com as mesmas armas! Eles roubaram meu maior tesouro, e eu tenho que recuperá-lo, cedo ou tarde. É minha ombridade que está em jogo. Meu orgulho. É a valentia dos Ribolla! -Conde, mas... – titubeou o médico – Você sabe ao menos quem são “eles”? -Descobrirei, oras. Não posso entregar assim de mão beijada o produto de anos de estudo, de trabalho, de dedicação! Charles, aquilo era a nossa vida! O homem, ainda absorto, ignorou a presença infantil da mocinha ao lado e começou a contar a Charles o seu plano. -Plano? -Precisamos de um detetive – declarou o nobre homem – O melhor da Itália. Ele descobrirá quem me roubou. E depois, meu caro... Contrataremos um matador. O maior Matador da Itália. Você sabe de quem eu falo! -Conde! – assustou-se Charles – Não! -Aaa! – gritou fininho Bêah. -Sim! Hahahahaha! – gargalhou o nobre com uma horrível e descontrolada risada malévola – Sim! Sim! Charles estava confuso e com medo. A mocinha Bêah se encolhia num canto, assustada. Charles gaguejou ao falar. -Conde, vo-vo-você não pensa em co-contratar o Matador mesmo, não é? O homem não respondeu nada. Charles esfregou a mão no rosto e tentou dissuadi-lo de outro modo. -E como vamos pagar por isso tudo, Conde? Como? O Conde Ribolla não titubeou ao responder, com uma voz bastante estranha e gutural. -Venderei o Castelo, caro Dr. Charles. Venderei o Castelo para pagar a minha vingança! Hahaha! Minha vingança! Entre as camas e os sofás Navegar é preciso |
|
|||||||||||