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Foi preciso muita astúcia e coragem para Marcel alcançar o sucesso que tinha no momento. O pequeno homem construiu toda sua recente fortuna ao longo de apenas um ano. Não que seus negócios estivessem completamente consolidados naquele momento – ainda havia muito a ser feito – mas ele já estava estabelecido e tinha um nome. Tudo começara no ano anterior, numa festa promovida por um velho amigo. O Conde Ribolla e Marcel estudaram juntos na Faculdade de Arquitetura, em São Paulo, há vinte anos. No ano anterior o Conde (um grande produtor de vinhos da região de Montalcino, na Itália) fez uma grande festa no seu castelo para promover o reencontro de todos os amigos da classe. Marcel era intrigado com o enriquecimento do colega Conde Ribolla. Já vira muita gente ganhar dinheiro com boas idéias e bons produtos, mas o Conde enriqueceu muito em pouco tempo (e homens muito ricos sempre interessaram Marcel). O nobre homem dizia que o que alavancara sua produção fora a criação do seu vinho “rejuvenescedor”: se tratava de um vinho especial criado pelo Conde e pela sua equipe de pesquisas (comandada por seu amigo francês Dr. Charles Vincent), produzido com uvas pálidas cultivadas na penumbra e adubado unicamente com esterco de cabrito. O tal vinho, se tomado com regularidade por mulheres de mais de quarenta anos (era necessário que as mulheres estivessem na pré-menopausa, com a composição hormonal adequada), era capaz de causar um rejuvenescimento ímpar. Nunca foi comprovado cientificamente que tal fato realmente acontecia, mas o vinho vendia feito água na Europa e milhões de mulheres quarentonas, todas já crônicamente alcoolizadas, se olhavam no espelho, miravam a imagem turva e se acreditavam mais jovens, quando estavam apenas “bêbadas”. A única mulher que ingeria o vinho e realmente rejuvenescia era Bêah, a mulher do médico e pesquisador francês, que tinha (segundo ela mesma) mais de 55 anos e que aparentava menos de 20. Não se sabe se o que acontecia com a moça era devido ao vinho ou se era algum problema cromossômico de nascença – a questão é que a cada ano Bêah ficava mais e mais menina, e a cada ano a mocinha se embebedava mais. O Conde Ribolla enriquecia a cada dia. Continuou com seu centro de pesquisas etílicas e estéticas no subsolo do Castelo, onde moravam, além dele, sua esposa Isaura, Dr. Charles e Bêah. Com seu talento etílico e sua curiosidade, Dr. Charles acabou descobrindo um outro vinho especial. Disse ao Conde que se aquilo desse certo, seria um sucesso estrondoso. O homem descobriu que se produzisse um líquido com essência de esperma de cabrito, adicionasse esse liquido ao vinho antes da fermentação e deixasse o produto decantar e descansar por alguns anos, criaria um produto afrodisíaco. Assim foi criado o vinho “Ribolla 6996”, um vinho único e capaz de resolver qualquer problema de disfunção sexual masculina. A bebida era capaz de transformar o homem que o ingerisse em uma potência sexual nunca vista anteriormente. O Conde Ribolla, ao deparar com aquele exilir da virilidade, viu que ali estava todo o sucesso e fortuna de sua vida. Escondeu a fórmula a sete chaves e deu início às pesquisas para aprimorar o produto. A ingestão do líquido em estado bruto era capaz de tornar um homem inadequado ao convívio com seus semelhantes. Era uma fórmula tão afrodisíaca, mas tão afrodisíaca, que os homens que a ingerissem não tinham controle de seus impulsos durante dias. Dr. Charles resolveu que era preciso diluir (e muito) a fórmula para que ela pudesse ser consumida como vinho, além de manter o liquido em repouso por alguns anos. O “elixir”, como era chamada a fórmula em estado bruto, ficava armazenado em pequenas garrafas de ouro, o único material que era capaz de mantê-lo sem perder suas propriedades. Para a produção de um único litro do “elixir”, era preciso de dois anos de trabalho, entre retirar o esperma correto dos cabritos, produzir as uvas selecionadas com o adubo correto e na penumbra mais homogênea possível, além do tempo de decantação e mistura. Depois de pronto o elixir, bastava pingar uma gota do maravilhoso líquido no vinho Ribolla e aguardar ao menos um ano. Assim estava pronto o famoso e desejado “Ribolla 6996”, um líquido que não precisava de propaganda ou marketing: seu sucesso no boca a boca masculino já assegurava vendas estrondosas. O Conde e Dr. Charles, porém, não podiam lançar o produto no mercado e iniciar uma produção em série, pois a fórmula e o vinho não tinham passado por todos os testes. O maravilhoso líquido, embora aumentasse a potência de qualquer homem que o ingerisse, causava alguns efeitos colaterais desagradáveis e incômodos. Dr. Charles descobriu, usando a si próprio com cobaia, que o “Ribolla 6996” entortava ligeiramente os órgãos reprodutores sexuais masculinos. Depois de mais de seis meses de testes e pesquisas, ele descobriu que isso ocorria somente aos homens com tipo sanguíneo “A” E “B”. Portadores de sangue “AB” e “O” podiam consumir “Ribolla 6996” à vontade, que seus pintos não apresentavam nenhuma irregularidade. Além disso, o médico e pesquisador francês também descobriu que o lado do desvio dependia do tipo sanguíneo do homem: indivíduos com sangue “A” apresentavam desvios para a direita e com sangue “B” apresentavam desvios para a esquerda. O Conde ficou furioso quando soube disso, pois o tipo sanguíneo do nobre era “A”. E, sendo ele o dono da fórmula, do vinho, do castelo e do pinto torto para a direita, ordenou a Charles, berrando, que não poupasse despesas para corrigir tal fato. Dr. Charles chegou numa nova fórmula depois de passar diversas noites em claro (e Bêah também). Mas, para testar o seu funcionamento em humanos, precisava de muitos homens dispostos a usá-la. Teria que contar para os outros homens sobre o vinho, sobre o elixir, sobre o segredo e sobre os efeitos colaterais. Isso era perigoso. -Podemos talvez... – disse o Conde Ribolla – Testar o vinho sem que os homens saibam! Assim o Conde, usando a desculpa de dar uma festa para reencontrar os amigos da faculdade, resolveu dar uma grande festa e testar o vinho “Ribolla 6996” nos seus antigos colegas de faculdade. Era uma idéia má e descabida, mas há tempos que o Conde não tinha mais escrúpulos na sua vida. Preparou uma grande comemoração e trouxe mais de cem pessoas ao castelo. Mas de algum modo a informação vazou e Ovomalta (um perigoso bandido e marginal conhecido em toda a Europa), tramou juntamente com uma colega do Conde Ribolla, Maína Clara Rulks, uma complicada operação que envolvia o seqüestro da Condessa durante a festa para que o Conde entregasse a eles a fórmula secreta do vinho, como resgate. Ovomalta e Maína Clara já tinham todo um esquema montado para a produção do mesmo vinho em Portugal, juntamente com um grande produtor dos vinhos portugueses “Periquitinhas” (O “Ribolla 6996” se chamaria, em Portugal, vinho “Periquita Sai-da-Toca”). O que Ovomalta e Maína Clara não sabiam era que entre os convidados do Conde estavam a agente secreta Franka 4-26 e sua amiga e companheira Bê. As duas eram excelentes profissionais detetives. Cada uma a seu modo, eram capazes de seduzir e encantar qualquer homem, pois tinham corpos deslumbrantes, grandes e rijos seios e uma astúcia e eterno bom humor que encantava a todos. As duas se divertiam muito com as missões e sempre finalizavam os dias gargalhando de rir. Franka desconfiou do comportamento de Maína Clara desde o início da festa e acabou descobrindo a farsa que levou a prisão de Ovomalta. O envolvimento de Maína Clara nunca ficou comprovado e a moça foi solta pela polícia italiana. Logo depois, desapareceu. Franka e Bê souberam, informalmente (por meio de outra agente fofoqueira), que a moça foi para a Inglaterra e se submeteu a uma plástica total, que alterou seu corpo e seu rosto. Maína Clara, que antes era pequena e loira (era quase sósia da Jodie Foster), transformou-se numa mulher morena, alta e com uma bunda roliça e encantadora, digna de uma dançarina de axé. Além disso, Maína Clara alterou o seu tom de pele, e, de branca-alva, tornou-se uma moça morena-jambo. Depois disso tudo, seria impossível reconhecê-la: até uma pequena cirurgia para alteração da cordas vocais mudou seu timbre de voz. Com o auxílio de Marcel (na época ainda Gemada), que se aproximou da moça após o seqüestro, Maína Clara, então morando em Londres, trocou seu nome para Hipólita Clara (uma das personagens de Shakespeare). Ao mesmo tempo que a batizou, Marcel também lhe deu o apelido carinhoso de “Mariposinha”. Foi nessa época que Marcel resolveu agir. Até então o pequeno homem só observava o desenrolar dos acontecimentos. Mas quando percebeu que o Conde tinha em mãos a fórmula do “elixir” afrodisíaco e até uma garrafa de ouro feita especialmente para decantar o líquido já pronto, resolveu que iria dar início a uma grande operação para roubar a fórmula e pegar tudo aquilo para si. Calmamente e com muita astúcia, Gemada, ainda no Castelo, esperou as coisas se acalmarem para começar a agir. Não podia levantar suspeita. Primeiro precisava entender melhor do que se tratava, pois apenas ouvira falar que o seqüestro ocorrera por causa de uma fórmula secreta do Conde. Não foi difícil descobrir, nas diversas visitas que vez a Ovomalta na prisão, que se tratava de uma fórmula de um vinho afrodisíaco e desejado por todos. Assim Gemada, sempre sorrindo, simpático e divertido, foi tecendo a rede para conseguir o que queria. Em primeiro lugar, resolveu entrar em contato com Carmutcha, a secretária do Conde. Ele sabia que a moça tinha fugido com seu colega Montanha para uma grande aventura amorosa. O colega telefonou umas duas vezes para dar notícias sobre a lua de mel que vivia com a moça. Gemada sabia que precisava de uma aliada italiana. Resolveu que deveria investir em Carmutcha, pois a ex-secretária assistente sabia muito mais sobre o castelo do que deixava transparecer. Telefonou para o celular de Montanha. -E aí ó. -Fala, Gem – disse Montanha – Você não vai estragar o “babado” do papai aqui, não é? -Fica frio, Monta. Queria falar com a tua patroa, falou? – falou Gemada. -Que é que tu quer com a minha pitucha, bró? – desconfiou Montanha, ciumento – A mocinha está ocupada agora, ô irmão – completou Montanha, olhando desconfiado para Carmutcha, que estava do seu lado. -Monta, escutaquí: preciso de uma secretária quando voltar pro Brasil. Quero que a tua Ucha vem trabalhar com a gente, correto? – Gemada resolveu explicar logo, pois sabia que Montanha era muito desconfiado. -Ah, tá correto, bró... ta limpo... -Você pode falar com ela? Perguntar se ela topa? Montanha olhou para a Carmutcha e sorriu. - Ela topa... ela topa... o papai aqui garante, falou? Depois de quinze dias, Gemada saiu do Castelo e foi para Milão. Montanha e Ucha foram se encontrar com ele, e todos se instalaram no hotel Bernina. Ficaram ali dois meses. Foi nessa época que a ex-secretária assistente do Conde começou a trabalhar para Gemada e Montanha. Tinha um excelente salário, verba para roupas, um belíssimo carro e viajava muito para verificar as diferentes contas dos dois “empresários” pela Europa. Numa viagem a Paris, ela recebeu um telegrama assim que chegou no hotel. Era Gemada. Carmutcha, Desculpe-me pedir um outro trabalho em meio a uma viagem, mas é urgente. Você poderia nos arranjar as plantas do castelo do Conde? Em especial o térreo e os sub-solos. Gem Carmutcha respondeu na mesma hora, via e-mail. G, Você quer uma planta simples ou prefere uma maquete eletrônica animada? Ainda tenho acesso aos arquivos do castelo, pois tenho a senha de acesso do computador. O C. nunca soube fazer esse tipo de coisa sozinho. C. Depois de menos de meia hora, Gemada recebeu outra mensagem da nova e eficiente secretária. G. Aqui vai a primeira planta pianoterra que consegui. As demais seguirão ainda hoje. C. Gemada esfregou as mãos diante do computador. As coisas estavam dando certo, pensou o homem, ampliando o desenho e olhando bem de perto. Dando muito certo... O sucesso do plano secreto de Gemada Navegar é preciso |
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