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Home do Gallacci FAU USP turma de 1980 Literatura  As poesias de August Hills
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As poesias de August Hills

A biblioteca estava na penumbra. Como o dia estava quente e ensolarado no Rio de Janeiro, aquele ambiente um pouco escuro estava agradável.
-August? Posso entrar? – perguntou Kika, cautelosa.
O grande homem tirou os óculos e olhou para a moça. Sorriu. Estava bronzeado e usava os cabelos esticados para trás, presos num pequeno rabo-de-cavalo. Depois que veio morar no Rio, August mudou totalmente seu modo de vestir. O homem, quando era bandido, vigarista e traficante andava todo mondongo e relaxado. Mas agora que era um executivo passou a se arrumar. Estava sempre elegante, com ternos muito bem cortados, e, nos finais de semana vestia roupas "casuals" estilo náutico.
-Kika... venha cá, minha deusa! – elogiou o homem, abrindo os braços.
-Está ocupado, August? Marcel me pediu para chamá-lo. Ele quer fazer uma reunião agora com você e com Tony – Kika parou e completou – Parece que é sobre o relatório 69.
August se espreguiçou na cadeira e bocejou. Olhou pela janela e vislumbrou ao longe a favela da Rocinha tomando todo o morro. Mudou de assunto.
-Kika, minha querida Kika... estou tão cansado... gostaria de largar tudo isso e tirar umas férias. Que acha de fazermos um passeio de barco? – August puxou a moça para junto dele – Um fim de semana, nós dois juntos no barco do Marcel. Hum, acho que a “Rainha do Cáspio” ia gostar muito disso – completou August, puxando Kika para o seu colo, assanhado.
-August! – Kika deu um pulo, brava e desgrudou do homem – Quer fazer o favor de parar com isso?
-Como assim? – fingiu o homem, colocando as mãos para cima – Fiz alguma coisa errada?
A moça olhava para as mãos de August que voltaram a deslizar pelos seus quadris. August sorria, suplicante.
-Ah, Kika, o que tem de mais um amigo fazer um carinho numa amiga?
Kika começou a rir.
-August, pare de fazer essa cara de bebê e pare de pegar em mim. Você sabe que eu adoro você, meu caro. E claro que podemos passear no final de semana no barco. Mas passear, somente passear. Não quero nada além disso com você, ouviu? – declarou a moça, definitiva.
August mudou de assunto. Virou-se para a mesa lateral e pegou um papel da impressora.
-Fiz uma poesia linda agora, Kika. Quer ouvir?
A capitã saiu de perto dele e sentou-se numa poltrona próxima.
-Leia, August.
Ele se levantou com um papel na mão.
-Mas não vá contar a Marcel, está bem? Ele não gosta de poesias, ri da minha cara quando percebe que eu escrevo. Ele acha que um homem não deve ter tanta “sensibilidade” – falou August.
-Hahaha! Essa é boa! – sorriu a moça – Leia, August, vamos.
August colocou os óculos, pigarreou e começou a ler.
“É bom fugir e fingir
Emoção fermentada transborda,
Teclado furacão, Luc criação!
Imagem virtual com vida,
Num átimo, tesão
Explode e intriga
Leva o pensamento pra longe,
Convida a arejar a cabeça
Alimenta a alma do teatro
Suga o sangue da deusa
Que cria nossa vida,
Homeopaticamente
A conta gotas
A tlecs – tlecs teclados
Crescemos, vivemos
Agimos em sua devoção
Luc Von Franka,
Agente paixão,
Ardente vulcão”
August olhou para Kika, esperando a opinião da amiga. A moça gaguejou ao falar, pois ficou bastante surpresa com a poesia de August.
-August – a capitã hesitou ao falar - Você escreveu uma poesia para... Franka?
-Sim – respondeu o homem, com cara apaixonada – Que achou?
-August, você enlouqueceu de vez? Tá maluco? Lelé da cuca? – surpreendeu-se a capitã.
-Ué, porquê? – perguntou August – Eu admiro a Franka. Por causa disso escrevi a poesia.
-August, você sabe quem é Franka? Já percebeu que Franka e Marcel não se dão bem? – a moça alterou a voz e passou a falar mais alto – Não se lembra do que aconteceu no Castelo do Conde Ribolla, no ano passado? Franka descobriu quem seqüestrou a Condessa, achou Bob e chamou a... polícia!
-Sim, mas... e daí? – perguntou August, um pouco confuso.
-Como “e daí”, August? Essa Franka é uma agente policial! Vê como ela age? Não percebeu que foi ela que prendeu Ovomalta, ops, digo, Tony, e também Maína Clara? Marcel ficou meses para soltá-los e teve que pagar uma fortuna, tudo por causa dela, seu jaguané distraído! Ela pode prender você, seu tonto! – Kika estava quase sem fôlego de tão brava com o homem – E você ainda escreve poesias de “amor” para essa cretina dessa moça? Acho que ela é até de direita! Reacionária! Horrorosa! E ainda cafona de tudo, com aquelas roupas pretas e colantes ridícula, se insinuando para cima dos homens com aqueles peitos falsos!
-Não, Kika, não... Franka é legal... – tentou explicar August – E os peitos, todos dizem que são verdadeiros!
-Claro que não é! – berrou a moça, levantando-se da cadeira e saindo dali – Claro que ela não é “legal”, e que aquilo é silicone de quinta categoria, seu burro! Franka é apenas uma perua reacionária de bunda caída, August! Oras!
Depois que Kika saiu, August olhou a poesia e finalizou.
-Bem. Então é uma belíssima e gostosíssima perua reacionária, isso sim... Ahh - entristeceu-se o homem - Quando as mulheres vão me entender?
August Hills (ex-Montagna) sempre fora parceiro de Marcel (ex-Gemada). Estudaram juntos na faculdade, ou melhor, entraram juntos na faculdade (porque estudar os dois nunca estudaram) e logo se tornaram amigos. Nenhum dos dois nunca assistiu a nenhuma aula. Passavam os dias sentados no jardim do campus fumando e rindo sem parar. Foi nessa época que começaram a tramar pequenos furtos e a vender drogas. Começaram vendendo drogas aos amigos, depois aos amigos dos amigos, depois aos conhecidos dos amigos, e assim os dois estudantes saíram da grama e dos estudos direto para o tráfico pesado.
O dinheiro entrava fácil. Gemada, o mais descolado dos dois, via aquilo como um empresário: sempre imaginou que aquele seria apenas um trampolim para uma vida de grandes delitos. Imaginava-se dando grandes golpes em empresas multinacionais, subornando políticos, correndo o mundo espalhando seus crimes e enriquecendo a cada dia. Já Montagna não. Embora fosse um bandido, era um homem sossegado e acomodado. Queria dinheiro apenas para usufruir dos prazeres da vida. Se pudesse ganhar um bom dinheiro e se aposentar, estaria feliz da vida. Não tinha as ambições de Gemada, mas acompanhava o amigo e o ajudava sempre que fosse possível.
Montagna era um poeta, mas não admitia isso. No mundo que vivia não existiam poetas, e sim homens cruéis, rancorosos e ríspidos, que precisavam lutar para sobreviver. A vida da criminalidade era uma guerra sem fim e sem descanso. O que um poeta poderia fazer no meio do mundo da bandidagem? Só restava sonhar com uma vida diferente, piegas e romanceada. Assim Montagna olhava o mundo desumano que vivia, e tentava tirar de dentro daquilo tudo um pouco de poesia. Era apaixonado por mulheres fortes e poderosas. Não admitia que alguém pudesse falar mal de suas amadas, defendia-as até a morte.
No ano anterior apaixonou-se por Ucha, uma das funcionárias da rede de relacionamentos confiáveis de Marcel, mas a moça o abandonou sem dar maiores explicações. Segundo ela, August era "meloso" e "grudento" demais. É que quando gostava de alguém, como aconteceu com ela, com Kika, com MC, com Bê e com Franka (todas amigas ou inimigas), Montagna ficava cego e surdo. Mas gostar de Franka era perigoso. Sabia que Gemada jamais aceitaria que ele se aproximasse da agente secreta, e justamente por causa disso o amor de Montagna por Franka se tornou maior e mais platônico. Não que ele estivesse apaixonado por ela – ele era apaixonado pela vitalidade, astúcia e, claro, pelos belíssimos seios da moça, e sonhava em sair dali e ser cuidado por ela.
August desligou o computador e levantou-se para ir ao encontro do colega. Espreguiçou seu grande corpo malhado e saiu da biblioteca. Ao subir a escada que dava acesso ao escritório de Marcel, Montagna ouviu barulhos de passos. Virou-se e olhou para baixo. Era Mona Tacones-Rojos que entrava no apartamento fazendo um enorme barulho com seus sapatos-tamancos enormes. Vestia uma peruca chanel loira e enormes óculos escuros que lembravam uma abelha.
-Mona! Você aqui! – surpreendeu-se August.
-Olá, August – disse a moça, séria.
-Não estava viajando? Achei que você ia ficar em Estocolmo até o final do ano – estranhou o homem.
-Marcel me chamou. Cheguei ontem. Tudo bem por aqui? – explicou Mona, que não ia com a cara de August e não queria muito papo com ele.
-Ah... – disse August, sem graça – Ele te chamou? Sério?
-Sim – disse Mona, tentando ser bem enigmática – E me mandou uma passagem para eu vir rápido. Ele quer a minha ajuda.
August estranhou.
-Estranho. Ele tem MC, Kika e Ucha. Não precisa de mais ninguém – falou August, irritado de não ter sido avisado.
Mona deu de ombros e sorriu, irônica.
-Humpf. Essas daí? Hahaha! – debochou Mona – Provavelmente elas não fazem o que eu faço, ora. Esqueceu-se que eu prevejo as coisas? Eu posso ver coisas que os outros não vêem, meu caro.
Os dois dirigiram-se ao escritório, calados. August já ouvira desaforos de Kika, agora ouvia de Mona. Que acontecia com as mulheres naquele dia? Quando chegaram, Marcel e Tony já estavam lá dentro. Marcel abriu os braços e abraçou Mona.
-Mas que saudade, querida... – exclamou Marcel.
-Marcel, meu caro, tive que abandonar todos meus negócios para vir aqui – falou Mona, ríspida e profissional – Espero que seu problema seja sério.
Marcel olhou para Tony.
-Veja, Tony... agora que Mona mudou de vida e está milionária, resolveu também ser executiva. Ouviu o que ela disse? – zombou Marcel.
Mona não gostou do tipo de comentário do amigo. Levantou-se e declarou.
-Marcel, tenho um grande negócio em Estocolmo. Tenho um centro de previsões onde trabalham mais de cinqüenta videntes, astrólogos e cartomantes. Atendemos também por telefone e e-mail. Não venha me dizer que isso não é trabalho. Estou montando diversas franquias por toda a Europa, expandindo a rede virtual e lançando uma linha de produtos “Mona´s Future”. Acredite, é possível ganhar muito dinheiro prevendo o futuro, principalmente se você tiver um bom assessor de imprensa e claro, um pouco de talento.
August se remoia na cadeira. Mona o incomodava muito, há anos que os dois não se davam bem. O homem nunca aprovara os métodos de Mona para prever o futuro, e sempre achou a moça uma charlatã.
-Tsc! Que bobajada! – falou August – Hoje em dia as pessoas são descrentes dessas idiotices de previsão!
Marcel olhou furioso para o colega.
-August! Como assim? Isso é coisa que se diga? Como o trabalho de Mona não é importante? E o que é importante? As suas... poesias? Hahaha!
-Não entendo como você acredita nessa... nessa... impostora! – desabafou August, olhando de soslaio para Mona, que acendia um cigarro numa piteira enorme e cafona e dava baforadas fazendo um biquinho com a boca – olhe para ela! É uma vigarista!
-August, chega! Mona está aqui para nos ajudar, e ponto final. Pare de agir como um Zé Colméia turrão, pare de pensar “poesias” que a vida é mais séria! Preste atenção – Marcel olhou para todos, respirou e falou – Podemos começar a nossa reunião?
August interrompeu.
-Mas... MC, Ucha e Kika não vem, Marcel?
-Não, August. Não quero mais aquelas três perto da diretoria. Entendeu? – declarou Marcel, decidido.
-Porque? – perguntou Tony, interrompendo Marcel – Aconteceu alguma coisa?
Marcel pigarreou e foi até o bar que ficava num dos cantos do escritório. Era uma reprodução perfeita de um “pub” inglês, com garrafas e copos pendurados, baquetas de couro e um néon com os dizeres: “Marcel´s Pub”, que acendia e apagava. O bar era bastante cafona, com uma decoração de gosto duvidoso, mas Marcel achava aquele lugarzinho o máximo e vivia exibindo aos amigos. Pegou e abriu uma garrafa de vinho da adega e trouxe aos amigos, juntamente com as taças.
-Comecemos por aqui – disse Marcel – Com o vinho. Vejam. Esse é o meu 6699! Minha preciosidade!
O homem serviu o precioso líquido para todos e continuou falando.
-Vejam. Hoje esse vinho é meu – parou e olhou para todos – Meu.
-E daí? – desafiou August, que estava irritadíssimo com o amigo.
-Sabem como foi difícil conseguí-lo. Tenho aqui os dossiês 69 para quem quiser olhar e relembrar. Mas... vamos primeiro tomá-lo para relaxar os ânimos – ele completou, suspirando – Mas sem preocupações, que essa versão aqui não é afrodisíaca.
-Continue, Marcel – disse Mona, atenta – Vamos.
-Eu descobri que existe uma grande organização sendo montada para tirá-lo de mim – declarou Marcel.
-O quê? – espantou-se August – Mas... É impossível, Marcel!
-Não, meu caro, não é. Por incrível que pareça, não é. A produção do vinho, as indústrias, a vinícola, a criação de cabritos, o estoque de vinho “sangue de boi”, tudo, tudo está ameaçado! – explicou Marcel, seriíssimo e gritando alto.
-Mas por quem? Por quê? – perguntou August, desesperado – Quem faria isso?
Marcel suspirou fundo e olhou para Mona, sorrindo.
-Para isso que trouxe aqui a minha querida Mona. Para descobrir o rosto do meu inimigo. E acabar com ele... Hahaha!

O elixir da virilidade
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