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Já dentro da gafieira, o Editore descobriu que o local era propriedade de uma ex-Condessa italiana. Deu um pulo para trás quando soube que até conhecia a moça: era Isaura, a ex-esposa de seu conhecido Conde Ribolla. -Puxa vida! – disse Tertuliano a um dos garçons – Mas eu conheço essa Condessa! Aonde ela está? – falou o homem, procurando ao redor. -Está ali, senhor – falou o garçom, apontando para uma bela moça bronzeada que deixava entrever suas belíssimas pernas num vestido de paetês curtíssimo e usava sandálias prateadas. -Hã? Aquela morenona ali é a ... Condessa? – estranhou o Editore, franzindo os olhos. -Sim, senhor – disse o garçom – É a dona Isaura sim. O Editore puxou a mão de Terê e foi até a Condessa. Era ela mesma, mas estava completamente diferente e meio “mulata”. Isaura sorriu quando viu o Editore. Abriu os braços para recepciona-lo, feliz. -Tertú! É você mesmo? -Condessa! Não acredito! Mas como você está diferente e linda! Um tesouro! – falou o homem, abrindo seus braços peludos para envolver o corpo sensual e bronzeado da velha amiga. Isaura levou os dois até uma sala reservada para conversarem em paz. Ficou emocionada de ver o Editore, um homem tão galanteador e charmoso, na sua gafieira. Pediu champanhe e chamou seu marido Bob, que surgiu com uma camisa florida e um sorriso a là Sargentelli. Serviu uma cachaça especial para os amigos e logo se engraçou com Terê. A dona da agência e Bob começaram a conversar sobre negócios animadamente, enquanto o Editore e Isaura relembravam o passado. Bob, o segundo marido de Isaura, era meio irmão do Conde Ribolla. Depois do seqüestro da moça, no ano anterior, ele tinha revelado a ela o seu amor. A então Condessa há muito tempo não gostava mais do Conde e estava apaixonada pelo irmão. Topou na hora e os dois vieram ao Brasil para morar juntos. Ao chegarem no Rio, Bob pretendia trabalhar com desenho animado para a televisão. Apresentou seus projetos para diversos investidores e aguardava as respostas quando Isaura teve a idéia de montar uma casa de samba. -Casa de samba, Isa? – espantou-se Bob – Que invenção! A ex-Condessa estava animada e não ouviu o amante. -Sim, Bob querido, é um excelente negócio! Precisa ver que lugar lindo, que beleza de instalações e que maravilha de idéia que eu tive – disse a ex-Condessa, animada e assanhada. Bob ficou desconfiado. Isaura nunca tivera tino para bons negócios, aliás, pensou, Isaura nunca fizera nenhum negócio. Mas a ex-Condessa, que tinha feito plástica, sessões de bronzeamento definitivo e estava animada com sua nova vida, não deu ouvido aos receios de Bob e investiu todo seu dinheiro no estabelecimento. No começo a casa ia bem, mas ao longo de um ano Isaura foi adquirindo dívidas e a “Condessa Assanhada” ameaçava fechar as portas. -Bob, precisamos de ajuda! Eu deveria ter te escutado! As contas da casa estão de mal a pior... Terei que pedir um empréstimo – declarou a Condessa, chateada. Bob coçou a cabeça, chateado. -Isaura, é impossível. Estamos aqui no Brasil a menos de um ano. Não temos como pedir crédito nos bancos. Terei que recorrer a um agiota... – falou Bob, desconsolado – Isso é terrível! Um dia um homem apareceu na boate, sem mais nem menos. Apresentou-se como Marcel. O perigoso ex-traficante soube que a casa de samba estava mal das pernas e resolveu investigar. Bob não o conhecia, mas Isaura deveria reconhecê-lo, pois o Marcel fora amigo do Conde no Brasil (na época da faculdade) e fora na festa onde ela fora seqüestrada. Mas Isaura, traumatizada com o que aconteceu no passado, perdeu a memória visual recente e não se lembrava mais do rosto das pessoas direito. Além disso, Marcel estava irreconhecível, lindíssimo e chiquérrimo com seu terno Armani e tinha recém feito um alisamento nos cabelos que o deixou com uma franja a là Ronnie Von. -Senhora, Isaura? Sou Marcel Yockman Coq, da Gem´s Participações Ltda, uma empresa inglesa com filial aqui no Rio. Estou à procura de novos negócios no ramo do entretenimento. Prazer. Isaura caiu feito uma patinha nas na rede maléfica de Marcel. Acabou aceitando a sua ajuda, e depois de uns meses, percebeu que ele queria usar o local para lavar dinheiro. Estava usando Isaura e Bob como laranjas, e pior, no final os dois deviam muito dinheiro ao homem e tinham que se submeter à suas exigências. O que era um negócio, virou uma prisão. Os dois viraram reféns do perigoso bandido. A idéia de agenciar moças viera de August, o braço direito de Marcel e grande mulherengo. O homem construiu dez quartos-cubículos nos fundos da casa de samba e contratou uma dúzia de garotas de programa, que ele chamava de “minhas ursinhas dançarinas”. Na porta de cada quarto, August colocou um farol verde-amarelo-vermelho para indicar se o quarto estava livre ou não. Nas noites mais quentes, quando a dança e o samba corriam soltos, só se viam luzes vermelhas acendendo nos quartinhos de August. A líder das moças e protegida de august, Dalila, torcia o nariz e dava de ombros para as indignações de Isaura, rebolando pela casa, e trazia August pelas mãos para falar com a ex-Condessa. -Cara Condessa – falou August para Isaura – Elas são dançarinas talentosas, estou só ajudando! Aqueles quartos são apenas camarins! E Dalila é minha namorada, ora! Não implique com ela! Isaura sabia que era mentira, que ela e Bob estavam sendo enganados e que todas as dançarinas de axé e pagode eram prostitutas perigosas. Se recusava a passar perto dos quartinhos nojentos de August e de ver aquelas obscenas luzes piscando, acendendo e apagando. -Bob, é desesperador! Eu tenho pesadelos com esse pisca-pisca daquele homem asqueroso de rabo do cavalo! Meu nome, num prostíbulo! O que fiz de errado nessa vida? – queixava-se a ex-Condessa, tristonha. Quando Isaura viu o Editore, imaginou que poderia pedir ajuda a ele. Precisava saber se o homem tinha dinheiro e porque viera ao Brasil. Depois de uma longa conversa com ele, combinou um jantar no dia seguinte e deu ordens aos garçons que cuidassem muito bem do poderoso homem. Tertuliano sorriu e voltou ao salão. Resolveu achar Terê. Onde aquela maluca se metera? -Isaura, viu minha amiga minha Terê? – perguntou o Editore, olhando ao redor. -Hum... – disse a ex-Condessa – acho ela e Bob foram até o escritório, lá em cima... Terê queria encontrar moças bonitas para a sua agencia, acho que Bob foi pegar uns telefones para ela. -Ah, sim... – disse Tertuliano, se dirigindo ao bar – Não se preocupe, Isaura, vou beber alguma coisa! -Editore, fique em paz e aproveite nossa casa. Divirta-se! – falou Isaura, esperançosa, saindo dali. O Editore pediu um uísque e encostou-se no balcão do bar. Detestava samba, mas dava o braço a torcer. O local era de bom gosto e bem freqüentado. Deveria ser uma casa cara, pensou. Olhou ao redor. Seu tino com as mulheres fê-lo perceber que muitas daquela moças maravilhosas ali eram garotas de programa mesmo. Terê tinha razão quando desconfiou. Tertuliano inflou-se todo e sorriu ao perceber que duas delas o olhavam com interesse. “Hahaha”, pensou, “como vai ser fácil achar uma bonequinha nova hoje!”. Mas seu olhar acabou desviado para o outro lado do salão, onde viu uma moça morena, bonita e calada sentada sozinha numa pequena mesa redonda. Tertuliano virou-se para olhar melhor para ela. Apaixonou-se na hora. A mulher fumava e olhava para o além, distraída. Era muito bonita, elegante e misteriosa. Quem seria? Enquanto bebericava seu uísque, o astuto Editore se aprumou e passou a analisar aquela altiva mulher. Sim, ela estava só, e, aparentemente, não aguardava ninguém. Era estranho, pois parecia que ela estava ali somente para de distrair, e não em busca de aventuras. Não parecia uma prostituta. O Editore não era homem de muitas delongas. Depois de cerca de dez minutos, se levantou e foi até ela. -Olá. A moça olhou para ele com desprezo. Ele deu uma longa risada. -Hahaha! Me perdoe, mas sei que nada é mais cafona que passar uma cantada numa moça sozinha. Não pretendo fazer isso. -Como? – a moça se assustou. -Disse que não vou te passar nenhuma cantada. Apenas queria me sentar ao seu lado – disse Tertuliano – Vim com uma amiga e ela simplesmente desapareceu. A moça não respondeu. Tertuliano olhou-a de perto e percebeu que ela tinha um corpo maravilhoso, roliço, com um bum-bum grande e espetacular. Começou a se sentir excitado de senti-la ao seu lado. -Você dança? – ela perguntou ao Editore, sem olhar para ele. -Não, mia cara... não quero dar um vexame – ele respondeu, também sem olhar para ela. Passaram-se cerca de cinco minutos e os dois mantiveram-se em silêncio. A moça acendeu um cigarro e perguntou. -Como você se chama? O Editore sorriu calado e respondeu calmamente. -Tertuliano. E você? -Hipólita – falou a moça. -Temos nomes difíceis, não acha? – ele completou, sorrindo. -Tudo pode ser simplificado nessa vida, caro Tertuliano – falou a moça, também sorrindo e ainda olhando para a frente – basta querermos muito. -Concordo, cara Hipólita – disse o Editore, olhando a massa que sambava na sua frente – Sim, tudo pode ser simplificado. No exato momento que Hipólita e o Editore se entreolharam pela primeira vez, os seus olhares se cruzaram e a atração entre eles foi incontrolável. Os dois se atracaram escandalosamente ali mesmo na mesa da boate, e mesmo sob a trilha sonora pouco estimulante do axé, do katinguelê e do pagode, começaram a se beijar e se acariciar furiosamente. Foi uma atração inexplicável e inevitável. Há muito tempo que o Editore não encontrava ao acaso uma mulher tão fogosa e deliciosa. O homem passava a mão naquele corpo roliço e macio e ardia de desejo e de paixão. Ela era selvagem, carente e magnânima nos carinhos e nos agarros firmes que dava no trêmulo homem. O Editore não pensou duas vezes. Se soubesse da existência dos quartinhos com pisca-pisca de August Hills levaria Hipólita imediatamente para lá, mas estava louco de tesão pela desconhecida, não podia esperar nenhum minuto e tinha que tomar uma atitude imediatamente. Era incontrolável, era urgente. O Editore rapidamente empurrou Hipólita para debaixo da pequena mesa, arrancou suas roupas ali mesmo e traçou furiosamente a moça, sem dó nem piedade, no chão escuro sob a toalha. Deu um suspiro alto, que foi sufocado pela musica alta e empurrou-a contra o pé da mesa, que estremeceu. Hipólita olhou para ele e sorriu largo, ainda sem falar nada. Ele olhou-a, encantado. Ela era maravilhosa. A moça engatinhou para fora, arrumou a sainha apertada e saiu andando. O Editore, um pouco atordoado, respirou fundo, vestiu-se e saiu de debaixo da mesa também. Ao levantar-se, viu que Hipólita tinha pego sua bolsa e estava indo embora. -Ei! Espere! – gritou o homem, afivelando o cinto e correndo – Hipólita! Mas era tarde demais. A moça sumiu na turba dançante da boate, que sambava ao som de Zeca Pagodinho. Tertuliano segurou firme nos braços de um garçom e colocou uma nota de cinqüenta reais na mão dele. -Sabe quem era aquela mulher que estava aqui? Aquela, de sainha branca? O garçom olhou a nota e sorriu. -Aquela morena, bunduda? Sei, sim senhor. É a dona Hipólita. O Editore tirou mais duas notas de cinquenta e entregou ao homem. -Volte quando tiver o telefone ou endereço dela – olhou para o garçom – e eu te darei mais duas dessas. Rápido! O garçom saiu voando para conseguir as informações e retornou em dez minutos com um numero de celular. Tertuliano relaxou, tomou mais um uísque e resolveu não esperar mais por Terê. Afinal, já tivera aventura demais para uma única noite e a bunda de Hipólita não saía da sua cabeça. Deixou um recado no celular da amiga e saiu dali. A noite estava agradável, e o Editore satisfeito e relaxado. Entrou na Mercedes e foi para o apartamento devagar e tranqüilamente, ouvindo óperas na avenida a beira mar. Chegou, estacionou e pegou o elevador assoviando. “Hipólita... Quem seria essa misteriosa, perigosa e belíssima mulher?”, pensou, ao chegar em casa e acender as luzes. Toda a fantasia e encantamento se foram ao olhar ao redor. A lugar estava entulhado de caixas e embrulhos amassados e sujos sobre as camas e sofás. O Editore lembrou-se do médico francês que ia chegar e irritou-se. “Esse cretino do JR está transformando esse lugar numa pensão barata”, pensou, aborrecido com a bagunça e desarrumação do lugar, “que diabos é essa tralha toda?”. Mas ao olhar para o fundo da sala, no canto perto da janela com a vista deslumbrante do mar, no local onde ele colocara especialmente o seu único, especial e lendário sofá azul, o Editore deu um berro de horror. -Aaaaaaa! Não! Ficou estatelado e em estado de choque ao se deparar com um animal enorme e preto que estava deitado no seu sofá e olhava assustado para ele. Começou a berrar, histérico. -Um bode! Um bode imundo no meu sofá! JR, o que é isso? – enervou-se furioso o Editore, tapando o nariz – Que nooojo! -Bode não, meu senhor! – falou um sujeito careca, de pijamas e óculos que chegou na sala nesse instante – Esse é Sementin, meu cabrito de estimação! Não é maravilhoso? – E o homem, sorrindo e animado estendeu a mão para o Editore, que estava boquiaberto – E eu sou Charles. Muito prazer! Ulálá! O esconderijo do Talo do Ouro Navegar é preciso |
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