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O castelo do Conde Ribolla fervilhava com a chegada da hora da festa. O salão de cabeleireiro (montado por Bêah e Carmutcha no subsolo) tinha todos os horários esgotados. Luigi Castellari fora obrigado a chamar mais dois mafiosos da sua família para ajudar nos trabalhos de corte de cabelo e depilação. Paulone e Renatone eram primos de Luigi, irmãos gêmeos e também Castellari. Os dois eram absolutamente idênticos e ruivos, mas Bêah sugeriu que, para evitar confusão, os dois deveriam pintar os cabelos de cores diferentes: Paulone teria cabelos brancos e Renatone teria cabelos pretos. Bêah e Carmutcha resolveram “lucrar” com a festa do Conde Ribolla. Entenderam-se com os mafiosos para receber 50% do faturamento do salão (sendo que o cafezinho servido aos clientes seria por conta delas). Além disso, também contrataram uma moça egípcia, especialista em maquiagem (de filmes de terror e monstros, com especialização em Cannes), Narihma Dreadram, para auxiliar nos retoques necessários nos corpos das convidadas, pois perceberam que o Moreirão estava causando cada vez mais estragos. Quanto mais o homem se empolgava com o súbito sucesso junto às mulheres, mais extensas eram as poesias e mais concretas as pinturas – como era impossível removê-las num único dia, cabia a Narihma disfarçá-las ao máximo. Algumas mulheres mais “animadas”, como a própria Condessa, precisaram mudar totalmente a cor da pele – o que Narihma não gostava muito de fazer, considerando-se que a Condessa era uma mulher casada. -No meu país, uma mulher casada só muda de cor com autorização do marido... – disse a egípcia, uma mulher careta e tradicional, que não tinha a menor idéia de onde vinham aquelas estranhas pinturas. -Ah! Não se preocupe, aqui na Itália temos “outras” leis, Narihma! – respondeu Bêah. -Mas senhora Bêah... – disse a maquiadora, preocupada com o resultado – ela vai ficar mulata! -Hahaha! Não tem o menor problema, chère Narihma – disse a mocinha lolita, rindo – A Condessa raramente sai das torres, e é muito raro que o Conde olhe para ela. Pode ir fundo. Pinte-a sem medo! O acordo que Bêah e Carmutcha fizeram com Narihma também proporcionava uma boa entrada de dinheiro. Narihma concordou em receber apenas 20% do valor de cada maquiagem corporal, contanto que recebesse uma caixa de garrafas de vinho rejuvenescedor no final da festa. O desejo de Carmutcha e Bêah era juntar uma boa poupança para poder montar um negócio próprio na cidade de Montalcino. “Chega de trabalhar para esse Conde repugnante”, dizia Carmutcha para Bêah nas horas de desabafo, “Não suporto mais senti-lo passando a mão no meu traseiro, caríssima Bêah, e eu não posso falar nada!”. A lolita francesa também resmungava: “Ucha, e eu que tenho que dormir ao lado daquele beberrão toda noite? Ele ronca e arrota sem parar!” Há algum tempo as duas resolveram que, assim que juntassem dinheiro, fugiriam dali e montariam uma loja de suprimentos de cabelos naturais para perucas. Perceberam que existia um grande mercado no ramo dos “cabelos ainda não tingidos”. Poderiam pegar fios em cabeleireiros infantis, e a revenda para as fábricas de perucas renderia muito dinheiro às duas. A maioria das mulheres com mais de quarenta anos não tinha um só fio de cabelo de cor natural – só tingidos, geralmente de vermelho ou loiros. Tinham certeza do sucesso que fariam com as fábricas de perucas italianas e a idéia era inédita, ou seja, poderiam alcançar o mundo com o comércio de cabelos de cor natural. -Confesso, tenho um pouco de nojo de cabelos, assim, fora da cabeça, chère Carmutcha – disse Bêah, fazendo cara de ânsia. -Bobagem. Pense no dinheiro, no dinheiro que ganharemos com isso! – respondeu Carmutcha. -Sabe aqueles fios que ficam... assim... no ralo do box? Argh! É nojento! – a mocinha francesa colocava o dedo na garganta, simulando um vômito. -Bêah, você quer ou não quer ganhar dinheiro? – Carmutcha sempre perdia a paciência com as frescuras de Bêah – pense no nome: Perucaria B. Ucha. ! -Horrível, Carmutcha! Parece “porcaria da bruxa”! Me dá mais nojo, vamos arrumar outro nome! Enquanto discutiam como montar o negócio, iam juntando dinheiro. O capital inicial seria para propaganda – pois a matéria prima praticamente não tinha custo, uma vez que elas catariam do chão de salões existentes. Assim, as duas não perdiam uma única oportunidade de agenciar, subornar, comissionar, superfaturar ou fazer qualquer outro tipo de artimanha para ganhar uns trocados com a festa do Conde. Ao ouvir falar que o anfitrião convidaria os traficantes Montagna e Gemada para a festa, Bêah logo se animou. Quem sabe não apareceria ali algum tipo de oportunidade delas venderem também... drogas? -Bêah! Você está maluca? – A secretária assistente repreendeu a mocinha, brava – Podemos ser presas, sua louca! -Ahhh... Carmutcha, mas... -Nem pensar! Nem pensar! Menina, você não tem limite! Tomou tanto vinho que sua mente regrediu! Enquanto isso o Conde se entregava aos prazeres do seu SPA particular. O vaidoso homem queria aparecer na festa belíssimo diante das convidadas e convidados, para causar inveja e admiração. Como tinha um enorme medo de ser considerado “viadinho” por excesso de vaidade, se entregava a essas luxúrias sempre em segredo e sempre sozinho, trancado em seus aposentos secretos. Tinha ali um grande estoque de cremes, loções, sais de banho, esfoliantes, desodorantes, óleos, condicionadores, poções secretas, banheiras para relaxamento, ofurôs, e, claro, uma sala só de espelhos, no chão, teto e paredes, para que o nobre homem pudesse observar a sensualidade de cada pequeno cantinho de seu corpo. O Conde, nú em pêlo na sua “sala di specchio”, sorria ao pensar o quanto ainda o seu corpo era admirável e quanto ele ainda poderia utilizar-se dele para o seu prazer e deleite. “Maravilha!”, pensou ao mirar-se, “... é hoje, é hoje”, animou-se o homem, esfregando creme nas mãos e passando pelas pernas bronzeadas, “... é hoje que eles todos vão saber quem é o verdadeiro Conde Ribolla! Hahaha!”. Nos salões e no jardim tudo estava pronto. Os músicos todos já haviam chegado e testavam o som no palco. Klaus, como sempre um perfeccionista de rangidos, estava nervoso com seu conjunto, que suava dentro das pesadas capas pretas e não conseguia tocar direito. Magoo, o havaiano mais famoso de Hollywood, entregava-se a sua secção de escovação de dentes de mais de três horas, necessária antes de qualquer show, deitado calmamente numa das mesas do jardim. O homem havaiano, que ficou famoso pela brancura dos dentes (além, claro, da musica havaiana), demorava tanto tempo na escovação que desenvolveu um método de escovar dentes deitado, para não cansar os braços e pernas. As suas meninas, que só podiam rebolar no show (para não ofuscar o astro), passavam as mesmas três horas rebolando sem parar, o que (todos sabiam) era extremamente perigoso. O quadril de Clice já havia se deslocado mais de doze vezes no ano anterior, e o de Bia menos, apenas seis vezes, por questões anatômicas. Mas elas encaravam esse risco com naturalidade. Quando acontecia de alguma delas “caírem do quadril para o lado” durante os treinos, elas aguardavam as ambulâncias pacientemente, sem se mexer e caladinhas. O patrão e astro, Magoo (sempre deitado, com a boca cheia de pasta e falando embolado) dizia sempre algo que parecia ser “...tchodo artchista prechisa entchender o sochfrimentcho chomo fhormah de cchrescimentcho...” ou algo do tipo, que elas nunca entenderam exatamente. Já o sambista pagodeiro sem vogais olhava os outros artistas de longe e sorria, sarcástico. “Mas que bobagem essa coisa de ensaio”, esnobava o pagodeiro bebericando sua caipirinha com cerveja e tamborilando sambinhas sem vogais com seu conjunto “DRKN e os vogalistas”. Mônica, a vidente, montara sua tenda ao lado da barraca de vinho. Uma pequena fila se formava na frente da moça. Bê La Bressiani era a primeira. -Mônica. Preciso que você leia minha mão agora – disse a cozinheira, que conseguia os primeiros lugares de tudo com a desculpa que o caldo não podia secar. – Ah, se eu não fico em cima da Kátia... A moça pegou a mão engordurada de Bê e olhou com calma. Levantou-se e falou algumas palavras no ouvido de La Bressiani, que arregalou um olho enorme e ficou atônita. A agente secreta Franka, que desde o início da tarde estava de olho em todos dentro do palácio (notara que Maina Clara e Francis ainda não tinham chegado), achou estranha a reação de La Bressiani. O que a vidente teria dito a ela? Rita Lê Ball corria aqui e ali montando nas mesas os arranjos de girassóis. Da cozinha vinha um cheiro maravilhoso do “Gnocchi com Capretto”, do La Bressiani. As equipes de segurança das “Raposo Sisters”, com os capangas mais ou menos feios escolhidos por Lolô e Lili, já estavam todos a postos para garantir tranqüilidade aos convidados. A festa começou quase que naturalmente às sete horas. Os convidados do Conde começaram a chegar no salão e se acomodar nas mesas. Diversos grupos se formavam, muitas pessoas se abraçavam esfusiosamente, em clima de grande alegria. Um monumental toque de trombetas se deu quando Conde entrou no salão principal, descendo a escadaria do palácio e fazendo poses. Além das trombetas, o homem encomendou uma grande nuvem de gelo seco em volta de si, um show pirotécnico no jardim, um banho de luz negra sobre seu corpo, além de uma maravilhosa chuva de confetes prateados. Ele quis que sua entrada fosse realmente fenomenal. Alex Fontes, como sempre um homem culto e intelectual, ficou pasmo com a cafonice da cena criada pelo amigo Conde Ribolla. Teve, novamente, um acesso de riso incontrolável (semelhante ao que teve quando Rodrigues disse o nome do seu novo filme infanto-juvenil, “Power Rangel”), e novamente teve que simular um pequeno sufocamento súbito. Se jogou discretamente sob a mesa que estava sentado, e, como as trombetas tocavam alto e ininterruptamente, o cineasta pôde se esculhambar de rir em paz ali embaixo. Logo atrás do Conde, porém sem pompa nenhuma nem trombeta, entrou a Condessa Isaura, estranhamente “mulata”. Usava um belíssimo vestido longo, modelo “tubinho”, marca registrada do estilista mais famoso da Itália, “Guiseppe Conceiçone”. Os vestidos de Conceiçone eram famosos por seu tradicional formato “tubo”, e vendidos por diâmetro. Eram disputados a tapa nas lojas de Roma. Conceiçone, infelizmente, não pode comparecer a festa do Conde Ribolla pois estava coincidentemente no Brasil exatamente naquele dia, no SPFaxoíque. Rodrigues, ao invés de gargalhar de rir como Alex, vertia lágrimas, emocionado. O homem era extremamente sensível a esse tipo de cerimônia, sempre chorava em festas de debutante e casamentos (esse fato, embora fosse considerado uma atitude pouco máscula diante dos homens, emocionava as suas fãs e lhe valeu o apelido carinhoso de “Lagriminha Júnior”). Porém, quando a mulher do Conde entrou, ele levou um susto: depois de enxugar as lágrimas com a dobra do dedo indicador, Rodrigues esfregou os olhos. -Mas caramba, Alex, quem é aquela mulatona bacanona ali atrás do Conde? O cineasta, respirando fundo, saiu de debaixo da mesa e olhou para a moça da escadaria. -Será que é mesmo a Condessa? Nossa, conheço aquela moça de algum lugar! – disse Alex, já desconfiado que poderia ser alguém que o estivesse seguindo. -Mas... Tá a maior negona! Hahaha! – disse o ator canastrão, apontando para a anfitriã e rindo – Alex, é ela mesmo! A Isaura! O espetáculo da entrada do Conde não parou ai. O homem, dentro do seu fraque branco, anunciou que ele ia oferecer duas danças (com ele, obviamente) à duas grandes mulheres, e que depois todos fariam um grande brinde com um vinho especial, produzido por ele especialmente para a festa. “O grande Ribolla 6996!”, disse o Conde, orgulhoso, “Um vinho que produzi especialmente para vocês todos, meus caríssimos colegas, uma raridade, um primor!”, completou, na maior cara de pau. Seus colegas da “confraria dos cafas”; Alex, Rodrigues, Moreirão e Charles sorriram cinicamente em silêncio, bebericando seus uísques. A primeira música, uma valsa especial, fora reservada à Condessa. Os dois dançaram e posaram para fotos, sorrindo (era tamanha a excitação do Conde que ele nem percebeu a cor da mulher). A segunda dança surpreendeu a todos. O Conde pediu para a orquestra de Klaus tocar “La vie em Rose” (como os músicos roqueiros alemães se recusaram, Klaus, emburrado, teve que cantar sozinho, em play-back). Surpreendentemente, O Conde Ribolla cruzou o salão e tirou a belíssima Bê La Bressiani (num maravilhoso vestido vermelho, cor de massa de tomate) para valsar com ele sob as luzes negras. A moça derreteu-se em sorrisos e caiu nos braços do homem com uma cara de apaixonada. “Frankamente, mas que bandeira...”, pensou a agente Franka, reprovando a empolgação da amiga. “Mas não é que eles realmente formam um belo casal...?”. Alex Fontes dá um enorme vexame Onde está Isaura? |
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