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O pequeno Gemada acabou sua sessão de alongamento na praça em frente ao seu hotel e começou a correr pelas ruas da cidade de Milão. Sentiu saudades do Brasil. Nada era melhor que correr no calçadão do Rio no final da tarde. Sorriu, pensando como fora certa a escolha de Carmutcha para ajudá-los. A secretária italiana era eficientíssima, reservada e discreta, além de linda e elegante. Pena que Montanha já se engraçara com ela, senão seria ele próprio que a assediaria. O homem tinha as plantas e maquetes eletrônicas do Castelo do Conde Ribolla em mãos. Agora poderia iniciar a segunda parte do seu plano para conseguir a fórmula secreta do Conde, pensou o traficante, já começando a suar durante o início do seu cooper. Quando ficava excitado com um novo plano de assalto ou roubo, Gemada precisava descarregar a adrenalina de algum modo. O ideal era encontrar alguma “bella ragazza” pela frente, com um bom par de pernas e ancas generosas, mas nem sempre isso era possível. Gemada nunca fora hábil com truques de sedução e galanteios, e penava por causa disso. Achava que essas “frescuras” de sedução e conquistas, tão adoradas pelas moças, eram desnecessárias e ridículas. Acreditava no amor puro, livre de todo tipo de elogios mentirosos, acreditava na entrega apenas pelo desejo carnal. Tivera poucas mulheres na vida, e como todas elas acharam que ele não lhes dava a mínima bola, todas o abandonaram. Assim, o pequeno homem aprendera a viver só, e quando precisava descarregar a energia, saía correndo pelas ruas. Correr era uma mania adquirida com o tempo, mas que teve início no tempo que exercia a “profissão” de trombadinha no centro de São Paulo para conseguir alguns trocados. Naquele dia em Milão, Gemada (vestindo um adequado uniforme de corredor, com shorts, camiseta e tênis), corria pelas ruas e sentia no corpo a mesma sensação e animação dos tempos de pivete. Voltou ao hotel uma hora depois. A recepcionista o chamou. -Signore Gemmada, per favore. Era um recado de Maína Clara-Hipólita, dizendo que já estava “pronta”. A moça deixou um número de telefone. Gemada sorriu, lembrando da sua amiga. Estava curioso para saber como ela ficara depois da transformação geral, pensou o homem, excitado ao pensar na enorme bunda que Dr. Weber lhe disse que implantou na moça. Fora Gemada que indicara seu amigo Dr. Weber para Maína Clara. O homem era um excelente cirurgião plástico e um tarado de primeira, aficionado por bundas e sempre animadíssimo com suas “obras de arte”. Antes da chuveirada, Gemada telefonou para o número deixado pela amiga. -Alô. -Alô – respondeu uma voz de mulher. -Queria falar com Hipólita, por favor – pediu Gemada. -Gem? – perguntou Hipólita-Maína Clara – Gem, sou eu, querido. -Você? – assustou-se Gemada, não reconhecendo a voz da moça – Sério? Maína Cla-cla-ra? -Hahaha! Hipólita, querido, Hi-pó-li-ta! Que tal minha nova voz? – perguntou Hipólita, dando risadinhas. -Mais sexy impossível! Fiquei excitado pra cacete só de ouvir esse seu alô, minha princesa...! – gritou animado o homem. -Hahahaãã! – riu sensualmente Hipólita, assanhada – E Gem, você precisa ver o resto do meu corpo... pensa que é só a voz, querido? O resto está mais sensual ainda... O homem, excitado com a conversa, se contorcia todo na cadeira. Sorriu de modo malicioso e mudou o tom de voz. -Uau! Se seu corpo estiver como está a sua voz... nossa! E quando então você vem me fazer uma visita íntima, hein, boneca? Temos que experimentar essa nova “máquina”! Amaciar o motor... lubrificar as juntas... -Hahahaha! – gargalhou Hipólita, feliz – Quando você estiver preso e carente, é só chamar, baby... Gemada pigarreou e mudou de assunto. -Hipólita, preciso de você para um trabalho. Topa? -Depende do cachê, meu peixão... – respondeu Hipólita, com voz mais sensual ainda. A moça esforçava-se para deixar Gemada completamente tarado. -Três mil dólares – declarou Gemada. -Fechado – respondeu a moça, sem pestanejar. Normalmente pediria mais, mas estava precisando de dinheiro. O traficante recostou-se na cadeira e falou pausadamente. - É uma missão rápida e divertida: Vá para San Geminiano daqui a dois dias. Farei uma reserva no “Hotel Santa Chiara” no seu nome. Aguarde no seu quarto que darei mais detalhes no dia posterior a sua chegada. Vou depositar uma quantia na sua conta para despesas. Está bem? – falou Gemada, que rapidamente emendou – E não me esquecerei de cobrar a “visita íntima”, quando o trabalho acabar! Hahaha! – disse o homem, desligando o telefone e entrando no banho. Dois dias depois, exatamente como Gemada pedira, a nova Maína Clara-Hipólita chegou em Montalcino. Usava um conjunto de calça e blazer brancos e enormes óculos escuros. Estava irreconhecível. Todo o staff do hotel parou para olhar a maravilhosa moça adentrar o recinto falando ao celular, e todo esse mesmo staff olhou o bumbum da moça depois que ela passou por eles e subiu ao quarto. Hipólita nunca dera muita bola para aparências ou fora vaidosa. Era muito politizada e rebelde, nunca se casou e não se lembra de ter-se apaixonado por nenhum homem. Filha de uma atriz muito famosa, Martilyn Dora, vivera sempre a sombra do sucesso da mãe. Como a mulher não tinha tempo para cuidar da menina, colocou Hipólita num colégio interno na Suíça desde cedo. O que Hipólita nunca entendera fora porque a mãe tivera tempo para cuidar do seu irmão gêmeo, Lucyan Rulks, que não foi para o colégio interno como ela. Isso a deixou muito revoltada, e o seu terapeuta concluiu que foi isso que a levou à criminalidade e aos negócios obscuros e perigosos. Maína rebelou-se contra seu destino e prometeu ganhar dinheiro sozinha, longe da mãe, para se vingar. Tornou-se uma mulher obstinada e ambiciosa, que era capaz de passar por cima de todas as emoções para ter o que queria. Para ganhar dinheiro e para se vingar de seu destino e de sua mãe, tornou-se criminosa e traficante de armas e drogas. Assaltou casas, lojas e bancos, e até prostituiu-se quando foi preciso, mas nunca foi pêga pela polícia, pois, apesar de ser astuta, tinha um rosto angelical que a protegia. No ano anterior, teve chances de mudar de vida mas não quis. Fora descoberta por um cineasta brasileiro, Alex Fontes, e convidada para estrear num de seus filmes. Mas Maína Clara, que não estava acostumada a ser comandada e gostava de agir por si própria, acabou discutindo com Alex e largou as filmagens no meio. Maína Clara não sabia viver sem um perigo e sem uma arma, e sempre tendia a topar qualquer missão que fosse perigosa. Precisava de perigo e de emoção para se alimentar. Porém, depois de trocar de corpo, pele, rosto, cabelo, bunda e nome, Hipólita, que nunca gostou sequer de se mirar no espelho, percebeu que alguma coisa também mudara no seu comportamento. Estava linda e sabia disso. Os homens olhavam para ela com sede, fome e desejo, as mulheres com desprezo e admiração. A moça, agora, passava horas se mirando no espelho, cuidando da pele, dos cabelos e passando cremes e óleos na pele morena e bronzeada. E surpreendentemente, passou a fazer muita ginástica e musculação para enrijecer mais ainda a musculatura dos glúteos. Hipólita estava encantada com seu novo bumbum. Quando entrou no quarto do hotel, antes mesmo de desarrumar as malas e de ligar o laptop, Hipólita tirou a calça e a blusa e olhou-se de costas no espelho. Sorriu, feliz. “Sim, ah... qualquer mulher com uma bunda dessas ri a toa... Que perfeição, que coisa mais fantástica! Até eu estou tarada por ela!” pensou, dando uma gargalhada alta. Deitou-se languidamente na enorme cama de casal do hotel e cochilou. Era maravilhoso ter um corpo daqueles. Gemada sabia que a moça chegara a Montalcino, mas não falou com ela. Ainda sozinho no seu quarto do hotel de Milão, passou a tarde e a noite estudando o plano do assalto. Era melhor fazer tudo sozinho e com muita calma. Sabia que era uma missão arriscada, pois o Conde, depois do seqüestro da Condessa, reforçara a vigilância do Castelo, e ele não queria ter seu nome ligado ao seqüestro que acontecera. Mais do que tudo, Gemada sabia que precisava ter cautela: resolveu que realmente não contaria seu plano a ninguém. Já de madrugada, sentou-se na escrivaninha do quarto do hotel, ligou o computador e começou a escrever uma carta. Caro Signore Ribolla, Conte di Montalcino Giovedi prossimo noi staremo visitando vostra proprietá per fare modificazione nelle instalazione di rete per aceso Internet. Staremo sostituindo il cabeamento fisico per una moderna soluzione senza fili (wireless) per solicitazione dello Comite per lo Svilupo i Manutenzione dei Luoghi Historiche d'Italia, verso la lege 5.413/04. Le alterazione sarano implantata senza costo! Il servizio sará executato per Uovobit Telecom, una ditta della Eggbit Telecom. Overseas, que ha vinto la concorrenza per fare le modificazione. Nostro técnico stará portando il simione giallo della Uovobit con nostro logo stampato nel borso di dietro e con la identificazione funzionale. Lui estará chiamando per confirmare l'orario giusto tra poco. Qualsiasi duvide, vi roghiamo chiamare prima il Atendimento ai Consumitori Uovobit nello 30818004. Reclamazioni devono essere incamignatti alla Telecom Italia nello 30829000. Scusaci il nostro Italiano maiale ma non ci sono buoni professori d'Italiano nei bucchi caldi. A vostra disposizione, Chiaro della Casca Supervisore del Programa CSMLHI Gemada releu a carta e sorriu. Ótimo. Levantou-se e pegou uma lata de cerveja no frigobar. Calma. Era preciso calma e cautela. No dia seguinte, Hipólita recebeu a mensagem de Gemada no seu micro, dizendo o que deveria ser feito. A moça sabia que deveria ler, decorar e deletar a mensagem em seguida. Nunca poderia deixar pista alguma. Hipólita, eis as instruções finais: Vai haver um Fiat seicento preparado especialmente à sua espera na Piazza Cavour. As chaves estarão no balcão da recepção do Archivio Storico Biblioteca Comunale, que fica na praça, num envelope com seu nome. Dentro do carro, você encontrará sua roupa de trabalho (um macacão amarelo feito sob-medida para você com o logotipo da empresa no bolso traseiro) sua identificação funcional e todo o equipamento e instruções necessários. Você deve ir ao Castelo às 18 horas do dia 27. Sim, você vai fingir-se de homem, Hipólita, e tente disfarçar ao máximo esse seu novo corpo. Sua missão é confundir: sem que o Conde ou o Dr. Charles duvidem de sua "masculinidade", faça-os sentir atração por você. Eles devem ficar tão perturbados quanto possível. Lembre-se de que o Conde abomina este tipo de pensamentos, mas não se pode afirmar o mesmo do Dr. Charles (ainda mais agora que ele está “solteiro”). Tenho certeza de que você saberá como fazer. Você deve mantê-los próximos de você e perturbados com a idéia da atração por um homem até a hora 18h+17'. Os dois, entenda. Depois, fica a seu critério: ou se diverte um pouco mais com a situação ou sai, profissionalmente. Se algo der errado, Montanha estará monitorando e pronto para usar a força, se necessário: basta acionar o botão do bip-remoto do rádio que está na sacola. Se você não se comunicar confirmando o êxito até 18h+37', considerarei a operação fracassou. Paciência. De qualquer forma, seu destino posterior será Agadir. Ao chegar, use a freqüência de sempre para localizar nosso Krögh de 125 pés. G. O plano de Gemada dera certo porque o homem conseguiu enganar até seus homens e mulheres. Enquanto Montanha, Carmutcha e Hipólita achavam que eram eles que agiam, quem roubou a fórmula secreta do Conde Ribolla e o frasco do elixir da virilidade fora o próprio Gemada, sozinho. O homem, com a planta do Castelo em mãos, aproveitou o despiste de Hipólita e conseguiu entrar no Castelo pela janela de uma das masmorras (quando ficou hospedado no Castelo, na ocasião da festa do Conde, Gemada, já prevendo que pudessem ser de utilidade mais tarde, roubou diversas chaves). O complicado fora entender onde o Conde e Dr. Charles esconderam a fórmula e o elixir, mas o pequeno homem contou com um pouco de sorte. Gemada tinha três hipóteses e pouco tempo para checar qual delas era a correta: exatos 17 minutos. A fórmula estaria no subsolo, sim, pois Carmutcha lhe garantiu que as experiências sobre o vinho eram feitas lá. Mas onde? Onde? Depois de matutar e rabiscar toda a planta do castelo, chegou a três conclusões. Ou o segredo estaria na sala das caldeiras, ou no compartimento contíguo ao depósito de processamento de lixo ou... no próprio laboratório de pesquisas de Charles, o que lhe pareceu óbvio demais. Todos os outros locais eram de fácil acesso e perigosos para se esconder um segredo. Gemada, de roupa preta e o gorro de lã, escondeu a sua moto-lambreta nos arbustos e correu abaixado até a parede externa do Castelo. Sabia que não existia só a entrada principal. As duas outras entradas de serviço, naquele horário, ficavam abertas para a retirada do lixo e para a chegada dos mantimentos. Era preciso achar o momento certo para entrar no local. E naquele dia Gemada sabia que era o dia da velha cozinheira Hannah Beluzzo tomar conta do portão norte. Olhou de trás de um arbusto e viu a velha, que passou assoviando por ali. Não havia mais ninguém. Gemada sorriu e respirou aliviado, pois a idosa mulher era cega e surda. A entrada estava limpa, e o traficante, cínico, até cumprimentou a velha senhora. -Boa tarde, dona Hannah. -Boa tarde, rapazinho – disse a senhorinha com um sorriso, pensando de onde ela o conhecia. Gemada suspirou confiante e entrou. Sabia que era realmente corajoso e tinha certeza do seu êxito. Quando adentrou a masmorra, sentiu um cheiro de umidade gélido que o estimulou. Olhou no relógio. 18h+5’. Tinha doze minutos. Olhou ao redor. Era preciso escolher um dos locais naquele momento. Nessas horas, ele sabia, vale a intuição. Conjeturou. O Conde não colocaria o seu precioso elixir no “lixo”; pensou rapidamente o homem, sentindo o cheiro do local. Foi até a porta da sala das caldeiras. Também não colocaria o elixir num local tão quente como a sala das caldeiras, concluiu. Suspirou fundo e correu sorrateiramente até o laboratório. Podia ouvir sua própria respiração, mas não ouvia seus passos, de tão leve que pisava. Arrombou a porta rapidamente e entrou. O local estava vazio o escuro naquele horário de final da tarde. Gemada ligou a lanterna e olhou ao redor. O ambiente era enorme. Onde, por onde começaria a busca? – pensou o homem, suando. O tempo era muito curto para olhar tudo. Vasculhou o local, confuso e aflito. O tempo passava e Gemada não achava nada. Era impossível, ele chegava a olhar duas vezes no mesmo lugar, pois a bagunça era enorme. Olhou no relógio: 18h+12’. Subiu nos armários, olhou nas gavetas, procurou paredes falsas. Nada. 18h+14’. Melhor desistir, pensou o pequeno homem, suspirando. “Nem todas as missões dão bem sucedidas”, pensou. Foi quando o homem, trôpego e atrapalhado, tropeçou e quase caiu. Notou que uma das madeiras do assoalho do piso estava solta. Olhou novamente: não, não estava solta... Notou que era ligeiramente mais alta que as outras. Gemada ajoelhou-se no piso e levantou a pequena tampa. Não era possível que tivesse tanta sorte, pensou. Mas ali estava a caixa de madeira que tinha o elixir e a fórmula secreta da virilidade do Conde Ribolla: sob seus pés. Aquilo era para ser dele. Óbvio. O homem sorriu, agarrou a garrafa e o caderno e saiu rapidamente dali. Novamente na masmorra úmida, Gemada desabotoou a blusa e colocou a garrafa de ouro e o caderno grudados na sua pele. Fixou-os com uma faixa elástica, ajeitou-se e saiu dali rapidamente, pulando a janela. A partir desse momento, a fórmula secreta e o elixir da virilidade pertenciam a Gemada. Ou melhor, ao novo e recém criado, Sir Marcel Yolkman Cock. A dentadura e a literatura do decote Navegar é preciso |
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