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Home do Gallacci FAU USP turma de 1980 Literatura  A vida sofrida de Bob Delboux
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A vida sofrida de Bob Delboux

Bob Delboux e Onil Ribolla eram irmãos e filhos de Renina Ribolla, ex Renina Delboux. Bob, ou Roberto, era filho do primeiro casamento de Renina e perdera o pai, um fazendeiro e criador de porcos, muito cedo. A mãe, uma artista plástica, depois de viúva conhecera um homem maravilhoso, um italiano chamado Luigi Daher Ribolla. Com ele teve outro filho, que foi chamado do estranho nome de Onil (nunca se soube exatamente o porque). Os dois meninos nunca se deram bem. Bob sempre teve muita inveja do irmão mais novo, que, por ter um pequeno defeito físico (tinha a cabeça um pouco torta para um lado), era mimado e sempre cercado de regalias e cuidados pela mãe e pelo pai. Bob se mordia de ciúmes e julgava-se perseguido pela mãe e pelo padrasto.
Tornou-se assim, por ciúmes e inveja, um adolescente revoltado e cheio de traumas. Na época da escola, Bob era considerado praticamente um delinqüente juvenil. Por causa disso, o seu padrasto resolveu tomar uma medida drástica e o enviou a um colégio interno na Suíça. O colégio era o melhor e o mais caro do mundo, e o padrasto tinha certeza que aquilo era o melhor que ele poderia fazer pelo menino. Mas não era o que Bob pensava. O garoto nunca se conformou de ter que viver toda a sua juventude longe da mãe e da família, largado e esquecido num colégio interno, e lembrava-se diariamente que aquele outro menino, Onil, que estava ao lado da sua mãe, no seu lugar. Jurava diariamente que, quando saísse dali, se vingaria de tudo e de todos.
No colégio era um garoto calado e triste, com poucos amigos e de pouca conversa. Aquele garoto perigoso e levado, que vivia aprontando no Brasil tornou-se um menino melancólico e infeliz na Suíça. Quando vivia com a família, ele era rebelde apenas para chamar a atenção da mãe. Lá, naquele longínquo e gelado colégio da Suíça, ele não via sentido em brincar, brigar ou estudar. Só pensava em voltar e se vingar do seu padastro e de seu irmão, que, na sua cabeça, foram os culpados dele se separar da sua mãe.
O rapaz tinha somente uma amiga na escola. Era uma estranha menina chamada Maína Clara, filha da atriz famosa, Martilyn Dora. Maína era uma moça que, como ele, fora esquecida também pela mãe na mesma escola da Suíça, por motivos muito parecidos. Aquela amizade dos dois adolescentes se transformou numa sólida relação, construída sobre o ódio e a raiva que ambos tinham de estarem ali. Fizeram nessa época um pacto de sangue, furando os dedos: Bob sempre ajudaria Maína Clara, Maína Clara sempre ajudaria Bob, acontecesse o que acontecesse.
O tempo se passou, Bob cresceu, amadureceu e voltou ao Brasil. Aparentemente, sua relação com sua mãe, o padrasto e o irmão era boa e estável. O rapaz trabalhava no mercado financeiro e ganhava muito dinheiro com isso. Ainda jovem se casou com uma bela moça italiana, Bê La Bressiani.
Embora aquele relacionamento entre ele e a italiana fosse normal, havia um pequeno pormenor. Bob escolhera Bê justamente porque sabia que seu irmão Onil era apaixonado por ela. Bob sempre queria namorar as namoradas do seu irmão, por pura vingança. Assim, conquistou Bê e casou-se com Bê, justamente porque sabia que Onil a desejava. Para Bob esse fora o seu primeiro grande trunfo sobre o meio irmão. Não poderia suportar ser passado para trás de novo.
Logo depois do casamento de Bob e Bê, houve uma grande tragédia na família. A mãe e o padrasto de Bob morreram num trágico acidente de carro, e os dois rapazes ficaram órfãos. Isso não os uniu, ao contrário, os separou mais ainda. Ambos começaram a brigar pela herança. Bob queria dividir tudo meio a meio, mas o meio irmão não concordava. Alegava que Bob era filho ilegítimo do pai. A briga durou anos, e Bob perdeu, pois coube a Onil uma parte maior da herança.
Anos depois, veio a notícia da morte de um tio de Onil, irmão de seu pai. No testamento do homem, ele deixava todos os seus bens para Onil. Assim o rapaz herdou a grande propriedade na Itália e deixou o Brasil. Além da propriedade, o moço herdou ainda o título de Conde. Onil aproveitou e eliminou da sua vida o seu estranho nome (que ele odiava pois parecia nome de sabão em pó), passando a ser chamado apenas de “Conde Ribolla”.
Bob sentiu muita inveja da vida que o meio irmão conquistou com sua sorte, mas ria e fazia chacota de Onil. Teve raiva dele, raiva do destino, raiva do Brasil, raiva da sua fraqueza, raiva da sua sina, raiva de tudo. Jurou que não falaria e nem veria mais Onil na sua vida. Só se importava com uma coisa: Bê. A bela moça o conquistara, e era tudo que ele mais amava, a sua maior preciosidade e seu maior amor.
Um ano depois, Bê pediu a ele de presente uma viagem à Itália. Seria uma segunda lua de mel para os dois: eles iriam a sós e passeariam muito. “Quando voltarmos”, disse Bê, “nossa vida vai mudar, Bob, pois teremos um filho”.
“Um filho!”, pensou Bob encantado, “... sim, um filho vai mudar tudo! Bob pai, Bob filho! Eu serei pai!”, pensou Bob, sorrindo. O moço era fascinado por desenhos animados desde criança, e, ao lembrar-se do desenho de Bob Pai, silenciosamente Bob começou a chorar.
Era preciso esquecer o passado, era preciso esquecer as mágoas e as ruindades do meio irmão. Assim, Bob foi para a Itália com a esposa com a promessa de recomeçar a vida, passear, descansar e, na volta, formar uma linda família com Bê. Seria o começo de uma nova vida.
Porém o destino fora cruel e fez Bob encontrar Onil em Montalcino. Os dois irmãos trombaram de frente no meio de uma rua. Ficaram parados, um diante do outro, por muito tempo antes de se abraçarem e selarem uma trégua. Tanto Isaura, a esposa de Onil; quanto Bê ficaram felizes ao ver que enfim, as brigas entre os irmãos tinham se acabado.
O Conde convidou Bob e Bê para jantarem naquele mesmo dia no seu Castelo. Bob não queria ir, mas Bê insistiu para que fossem, para que a briga entre eles acabasse de uma vez por todas.
O jantar correu maravilhosamente bem. Conversaram muito, divertiram-se muito, beberam muito vinho. A uma certa altura, Isaura começou contar a Bob sobre alguns livros raros. O meio cunhado se interessou.
-Venha até a biblioteca comigo, Bob, que vou lhe mostrar. São livros maravilhosos! – disse a Condessa.
Bob, além de ser apaixonado por desenhos animados, era apaixonado por livros antigos e raros. Olhou para a esposa e sorriu.
-Bê, minha querida... - falou Bob, delicadamente – Eu já volto, vou a biblioteca com a Condessa.
Ao chegarem na maravilhosa biblioteca do Conde, Bob ficou maravilhado e hipnotizado. Perdeu-se no meio daquela infinidade de livros com a cunhada, falando, contando e olhando e se deliciando com as raridades de mais de séculos que estavam guardadas ali.
-Acho melhor voltarmos, não, Bob? – falou Isaura para ele – Estou morta de sono! Eu durmo muito cedo!
-Não, espere... veja isso! Veja que edição mais linda! – falava Bob, pegando mais um outro livro e mostrando para a moça.
Isaura pediu licença, pois estava cansada e se recolheu ao seu quarto. Quando Bob voltou a sala de jantar, o Conde lhe ofereceu um vinho do Porto para encerrar a noite. Bob nunca gostou muito de vinho de Porto e tomou só um pequeno gole, antes de sentar no sofá e... apagar de vez.
Acordou assustado, com Isaura o sacudindo.
-Bob! Bob! Acorde!
-O que foi? – disse o homem, sonado – Mas que aconteceu? Onde estou?
Isaura estava furiosa, mas não com ele. Percebeu que alguma coisa estranha ocorria quando a Condessa jogou um copo de água gelada no seu rosto e implorou que ele abrisse os olhos e a ajudasse.
Isaura estava muito brava, pois descobriu que o seu marido e Bê estavam juntos nos aposentos do Conde, traindo a ela e a Bob, enquanto Bob dormia no sofá da sala. Berrava furiosa, pois não era a primeira vez que o Conde a traíra, mas nunca dentro da sua casa!
-O quê? Como assim? – Bob estava pasmo – Bê e Onil, juntos? Não é verdade! Não é verdade! – exclamou o homem, pálido de horror.
-É verdade! Filhos da mãe! Venha ver, Bob, venha! – disse Isaura, chorando.
-Não! – exclamava Bob, atônito.
-Venha ver! – implorou Isaura, pegando na mão de Bob.
-Não! Não! Não! – falava Bob, confuso e incrédulo.
Isaura puxou o homem pela mão, chorando, até a porta do quarto. Abriu a porta e o empurrou lá dentro com violência.
-Entre e veja com seus olhos!
O homem, desesperado, entrou e viu. Lá estavam seu meio irmão e sua única e última preciosidade, a bela e maravilhosa Bê La Bressiani, nus e fazendo amor na cama de casal.
Bob ficou mudo, parado e abismado. Viu toda a sua vida despencar. Sem proferir uma única palavra, saiu do quarto, do castelo e da propriedade e sumiu. Deixou apenas um bilhete para o irmão, dizendo que um dia eles se encontrariam no rio Faus, o que o Conde julgou ser um bilhete suicida.
Bob voltou a Roma, tirou todo seu dinheiro do banco e guardou num guarda volumes. Pegou o suficiente para sobreviver por uns tempos e vagou pelas estradas e caminhos feito um mendigo. Por falta de alimentação adequada e higiene, Bob adoeceu. Não se sabe quanto andou e quantos quilômetros percorreu buscando uma explicação para tudo que acontecera na sua vida.
O destino quis que ele parasse em San Geminiano e ali ficasse. Comprou a Torre de Pietro Cardino com o dinheiro resgatado do guarda volumes e ali se instalou. O fato de Bob Delboux morar na torre mais alta da cidade o confortava. A sensação da virilidade perdida pela traição da mulher era compensada pela altura da torre e pela sensação de poder de estar acima de tudo e todos. Conheceu irmã Claudina, fé, feliz de ter uma mulher que tomava conta dele, se recuperou das doenças. A luta contra a cegueira fora árdua, e mais uma vez Bob saiu perdendo e ficou cego.
Isaura entrara na sua vida através da irmã Claudina. Quando o homem contou a Kroh Neimbier a sua saga, a freira ficou muito preocupada com o homem. Que família era essa, que abandonara um homem assim? Quem eram essas sórdidas pessoas que maltrataram tanto um homem tão bom como o seu signore Roberto? Pensou no que faria. Precisava encontrar alguém da família, caso o homem viesse a falecer.
Assim sendo, irmã Claudina mandou uma carta para o castelo de Montalcino, procurando Isaura. A cunhada de Bob, uma moça magra, calada e tímida, veio até a torre de Pietro Cardino para falar com Bob. Ela contou à freira que sofria muito com as maldades do marido, que era um homem mulherengo e crápula, e disse que sabia como Bob se sentia, pois fora a única que presenciara o ocorrido na noite do adultério. Ficou feliz em poder reencontrar Bob. Conversou com ele e disse que só contaria que ele estava vivo se ele quisesse. Caso Bob quisesse se manter desaparecido ou morto, ela respeitaria.
Bob morava com a cuidadosa irmã Claudina e com um rapaz que cuidava os serviços gerais, um jovem que Bob chamava de “meu fiel escudeiro”, chamado Ovomalta.
Ovomalta era um foragido da policia italiana, um bandido insolente e calado. Estivera envolvido com a máfia e com desvios de dinheiro, tráfico de drogas e assassinatos. Era um sujeito perigoso, porém totalmente fiel a Bob, que o acolheu sem nenhuma pergunta. Quem o enviara fora sua amiga Maína Clara. A moça pediu a Bob que cuidasse dele, pois o rapaz seria preso e poderia ser enforcado se fosse pego, e explicou que ela devia muitos favores a ele, além de serem amantes. Bob concordou em ajudar o rapaz, e Ovomalta, como viu que Bob não o denunciara, jurou fidelidade a ele. Assim, Ovomalta fazia tudo que Bob mandava, era seu guardião e protetor.
A Condessa Isaura fazia visitas esporádicas à cidade de San Gemininano para ver Bob. Aos poucos foi conhecendo melhor o homem, e aos poucos foi gostando dele. Por detrás daquela carapuça e daquela cegueira, havia um homem muito sensível e sofrido. Assim Bob e Isaura se apaixonaram. A mulher presenteava o homem com tudo que podia, principalmente camisas estampadas e floridas escandalosas, que ele só usava porque não tinha menor idéia de como eram chocantes. Um dia Bob pediu Isaura em casamento.
-Não posso fazer isso, Bob – disse Isaura, confusa.
-Porque? – o homem cego não se conformava – Case-se comigo, eu te amo!
-Se eu largar o Conde para ficar com você vou reacender a chama da guerra na sua família! Não quero, não posso fazer isso! – declarou a Condessa.
-Fique comigo, Isaura! – implorou Bob.
-Não! Não! Não! – disse a Condessa, com lágrimas nos olhos.
A moça tinha certeza que não amava o Conde Ribolla, mas sabia o que significava largá-lo para ficar com o irmão. Não, aquilo seria demais. Ela disse a Bob que viria visitá-lo quando pudesse, mas não moraria com ele. Resolveram que eles se comunicariam por computador, seria um amor virtual, de torre a torre, através de chats e messengers.
Ambos compraram equipamentos, máquinas, webcams e microfones, e passavam horas e horas do dia juntos virtualmente, porém separados fisicamente. Isaura se trancava na sua torre e Bob na sua, e os dois namoravam sem parar. Estavam apaixonados, mandavam mensagens de amor e inventavam lindas ficções para eles próprios, numa outra vida onde ficariam juntos e em paz. Como Bob não enxergava nada, tinha sempre Ovomalta ao seu lado para ler e escrever. O rapaz era extremamente fiel a Bob, e morreria por ele se fosse preciso. Além disso, o bandido respeitava o amor de Bob por Bê.
Ovomalta era um bandido dos mais perigosos, mas acima de tudo um romântico. Era um homem capaz de matar sem dó, de estrangular e degolar qualquer homem ou animal sem piedade alguma, mas quando via qualquer frase de amor ou paixão, se derretia todo e chorava sem parar. No seu quartinho havia uma enorme coleção de livrinhos “amar é...”, “namorar é...”, “gostar é...”, “viver é...” e o mais lindo de todos, na opinião de Ovomalta: “transar é...”. O moço lia tais livros todos os dias, chorando copiosamente, antes de adormecer. Adorava o amor da Condessa por Bob, e gostava muito do sorriso da mulher, que carinhosamente o adotara como filho e o chamava de “...meu menininho Vomaltinho!”.
Ninguém sabia, no Castelo de Montalcino, porque Isaura passava tanto tempo naquela torre. Ela espalhava miçangas, pedaços de alça de bolsa e fios de linha pelo chão, deixando tudo na maior bagunça, para disfarçar. Um certo dia, Charles a procurou.
-Condessa, posso falar um minuto com você?
-Sim, Charles - disse a moça, como sempre dispersa, pensando no namorado.
-Preciso passar um e-mail urgente, mas meu micro quebrou. O Conde está dormindo, não queria incomodá-lo. Posso usar o seu? - pediu o médico.
A moça hesitou. Levar dr. Charles aos seus aposentos? E se ele descobrisse alguma coisa?
-Não sei... – ela ficou na dúvida.
-É rápido, chère Condessa! E importante! – implorou o homem – coisas de trabalho!
“O que tinha de mais?” A Condessa concordou, e Charles foi até a torre. Ela sabia que Bob estava sempre online, com Ovomalta do lado. A câmera de Bob estava sempre conectada com Isaura, e assim Ovomalta viu quando o dr. Charles sentou-se no micro de Isaura e passou digitar coisas.
-Senhor Bob! – o moço deu um berro no ouvido de Bob – Tem um homem no micro da Condessa! Olhaqui!
-Quem é, quem é? Como eu vou olhar, seu idiota – perguntou Bob, aflito – Conte-me como ele é!
-Ah, é... Um loiro, cara de francês! Olhos claros! – falou Ovomalta.
-Ah... deve ser o médico... o médico beberrão! Dr. Charles!
-Mas o que ele faz lá? – Ovomalta olhava aflito para a tela.
-Perguntaremos a ela quando ele sair... fique de olho, Ovomalta! – disse Bob – Cuide da minha Isaura!
Quando ele saiu, Bob a chamou pelo micro. Isaura explicou a Ovomalta e a Bob que era apenas um favor.
-Ele só queria passar um e-mail! – falou a Condessa.
-Sabe o que era? – Perguntou Bob – Sobre que era o email, Isaura?
-Não, ele já apagou! – disse a moça.
Bob e Ovomalta resolveram investigar um pouco mais o caso. Era estranho aquilo. Falaram de novo com ela.
-Isaura, temos que descobrir que e-mail é esse! – falou Bob a ela - Você vai seguir as minhas instruções. Vamos entrar na memória desse computador e descobriremos o que esse homem disse e para quem ele mandou esse e-mail!
Assim Bob, Ovomalta e a Condessa descobriram o segredo do vinho ‘”Ribolla 6996”. Bob ficou furioso com a ganância do irmão, que se não se contentava com tudo que tinha, “E ainda que o quê com esse vinho? Ter o maior pinto do universo? Ora bolas!”.
Isaura implorou a ele que não fizesse nada, e ele concordou. Chegava de brigas, de problemas e de guerras familiares. Que Bob deixasse o irmão com seu vinho afrodisíaco. “Se o Conde tem problemas de ereção e precisa de vinho afrodisíaco de boilinhas, azar o dele, hahaha!”, disse Bob, rindo, para Ovomalta. Ele, Bob, não precisava disso, graças a Deus. “Sou cego, mas dou no couro! Hahaha!”.
Mas o pequeno Ovomalta não se convenceu. O crime estava no seu sangue. “Uma fórmula de vinho afrodisíaco! Qualquer um ficaria milionário com isso!”, pensou o bandido foragido.
-Senhor Bob, pense bem! – insistiu o bandido – Vamos pegar essa fórmula e ficar ricos!
-Não, Ovomalta, não! Nem pense nisso! – desconversou o homem cego.
Mas o rapaz resolveu que uma oportunidade dessa não poderia ser perdida. Falou com Maína Clara, e a moça gargalhou de prazer. Era maravilhoso poder roubar o Conde Ribolla, um homem que ela desprezava tanto. Arrumou, inclusive, um comprador para a fórmula, um grande comerciante português, o dono dos vinhos “Periquitinhas”, o senhor Mendes das Rochas. O homem disse que compraria a tal fórmula por qualquer valor que ela quisesse.
-Temos que ter essa fórmula de qualquer maneira, Ovomalta! – disse Maína Clara a Ovomalta, numa das suas viagens a San Geminiano.
-Bob não me deixa roubá-la, Maína – falou o bandido – ele me proibiu!
-Que bobagem! – explodiu a moça – Eu já estou cheia de Bob,de seus medos e seus dramas familiares! Eu quero ficar rica! Mais rica e mais famosa que minha mãe, e tenho esse direito! Não suporto mais ver meu irmão Lucyano Rulks ficando cada dia mais milionário, não suporto mais ver sua imagem na TV em todos os outdoors da marginal Pinheiros! Chega! Chegou a minha vez! Hahaha! – gargalhou a moça, tirando a pistola da cintura e dando dois tiros para cima, de pura animação.
Maína Clara e Ovomalta tramaram o seqüestro de Isaura escondidos de Bob. Como o homem não enxergava, mesmo que Isaura ficasse na torre, escondida, ele não poderia saber de nada. Maína falou com sua amiga Francis, que providenciou os guerrilheiros israelenses para fazerem apreensão da Condessa no Castelo, para que ela e Ovomalta não fossem vistos.
“Claro, Maína, falarei com os rapazes e combinarei tudo. Além disso, são todos lindíssimos”, disse Francis, do alto do seu bronzeado, “... e muito viris, caso você se interesse por algum deles”, falou a amiga, dando uma piscadinha para Maína Clara.
A festa viria a calhar. No meio da confusão, seria difícil saber quem levou Isaura.
Assim Isaura foi levada, e o pobre e cego Bob não soube de nada. Apenas o seu computador se silenciou. Bob não sabia que ela fora seqüestrada por seu fiel escudeiro Ovomalta e por sua melhor amiga Maína Clara, e nem que ela estava na mesma torre que ele, presa. Achou estranho o seu desaparecimento da moça da tela e do messenger do computador, ficou aflito, perguntando insistentemente para Ovomalta o que acontecia. Ficou os dois dias seguintes ouvindo o rádio, para saber se havia alguma noticia, mas só conseguiu ouvir noticias sobre o vulcão.
Onde estava a sua Isaura?

Dentro da Torre de Pietro Cardino
Onde está Isaura?