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Home do Gallacci FAU USP turma de 1980 Literatura  Um vulcão ameaça San Geminiano
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Um vulcão ameaça San Geminiano

Enquanto a irmã Claudina fazia o café, Franka pediu licença aos dois para ir ao banheiro do prédio da torre. A freira apontou uma porta lá fora, depois do pátio interno. Alex estava animadíssimo conversando com a religiosa, contando sobre sua família, seus parentes e seus filmes. Estava absorto com a moça.
Franka trancou-se no pequeno no pequeno lavabo. De dentro do reservado telefonou para Bê.
-Bê? Pode falar um minuto comigo?
-Franka! Posso, claro! – respondeu a amiga cozinheira – Estou na cozinha, para variar... tudo bem ai em San Geminiano? Novidades?
-Sim. Estou no prédio da torre Pietro Cardino! – Franka falou animada para Bê – Bem, não lá em cima na torre, mas dentro dela. No térreo. Perto do páteo.
-Oba! E ai? Descobriu alguma coisa? – perguntou Bê.
-Shiu, ouça. Tenho que falar rápido – Franka cochichou – Alex Fontes está comigo.
Bê deu um pulo da cadeira.
-Quê? Alex Fontes está aí? Mas porquê? – perguntou a amiga, confusa – Você encontrou Alex ai?
-Não, ele veio comigo! – Franka respirou fundo e explicou devagar – Olha, que cara mais maluco... Acredita que ele me seguiu, e que se escondeu dentro do meu carro? Quando descobri, no meio da viagem, quase dei um tiro e estourei os miolos dele. Tive uma reação súbita. Pulei sobre ele, furiosa – a agente contou assustada à amiga – Juro Bê, eu quase matei o Alex Fontes.
-Nossa. Mas ele te... seguiu? – perguntou a cozinheira, atônita.
-Sim. Feito um psicopata – respondeu Franka.
-Mas por quê?
Franka deu de ombros.
-Não adianta você tentar entender agora. Ele disse que só queria conversar comigo, como um bom amigo. Ouviu, Bê? Essa é boa. Conversar. Disse que queria conselhos. Há! Ele acha que eu sou uma idiota? Daí disse que não desgrudaria mais de mim, e veio comigo aqui para a torre... – Franka mudou de tom - Mas quer saber duma coisa? Foi bom. Chegando aqui, ele passou uma cantada numa mulher que mora aqui na torre. E, por causa dele, entramos aqui dentro!
-Mulher? Que mulher? Franka, não estou entendendo nada! – desabafou Bê La Bressiani, confusa.
-Um freira. Irmã Claudina – Franka falava rápido e baixinho.
-Freira? – Bê se assustou – Uma freira?
-E alemã! – explicou a agente, rindo – Esquece, Bê. Olha, quando eu chegar eu explico melhor. Mas me fala se descobriu mais alguma coisa.
Bê contou que tentou falar com Francis diversas vezes, mas disse que a moça é extremamente calada e não quis falar sobre sua vida pessoal.
-A mulher é ensaboada de tudo, Franka. Claro que vive num meio perigoso, mas não sei se ela tem alguma coisa a ver com o seqüestro da Condessa. Também, Franka, não podemos desconfiar de todos os convidados, não é? E como ela e Maína Clara são amigas, o que tem de mais elas se encontraram juntas em San Geminiano?
Franka respirou fundo e pensou nas palavras da amiga. Realmente, ela podia estar enganada. Provavelmente os seqüestradores de Isaura eram apenas mafiosos italianos, ou bandidos comuns, que não tinham nada a ver com os convidados do Conde. A agente suspirou.
-Nenhuma noticia dos seqüestradores, Bê?
-Nada. Só Montanha e Gemada que não param de aprontar. Isso aqui está muito divertido, sabia, Franka? Olha, eles podem ser perigosos lá no Brasil, mas aqui essa dupla de malandros está causando a maior sensação.
-Sensação? – sorriu a agente.
A dona do restaurante explicou: por causa do interrogatório, das investigações e da policia, ninguém pode sair dali, e todos estão meio à toa no Castelo.
-É um prato cheio para eles. Hahaha! – Bê contou, rindo – Bem, primeiro que os dois estão morrendo de raiva do Moreirão, pois disseram só ele que se dá bem nesse Castelo. Bem, agora a tarde ele despejaram um galão de caldo de peixe, sabe aquela água porca do peixe cru? Despejaram um galão inteiro daquilo embaixo da porta do quarto da masmorra do Moreirão. O lugar está uma fedentina só! O Moreirão ficou furioso, a fila se dispersou e eles saíram feitos loucos fazendo o maior arrastão nas mulheres! Hahaha!
-Nossa! – riu Franka.
-Depois eles resolveram pegar no pé do Rodrigues – continuou Bê - E sabe o que descobriram? Que ele usa dentadura. Acharam Corega no banheiro do cara! Franka, ele não tem um dente na boca! Você sabia disso? O bonitão usa dentadura! Hahaha! – Bê continuou, gargalhando – E como Montagna e Gemada estão correndo atrás dele para provar que é verdade, Rodrigues está apavorado e escondido pelos corredores!
-Dentadura? Jura? – exclamou agente, rindo, quando foi interrompida.
Nesse instante, Franka ouviu batidas na porta.
-Franka?
Era Alex, querendo saber se estava tudo bem com ela. Franka disse que sim, desligou o celular e foi até a copa da torre tomar o café.
Alex conversava naturalmente com a freira. Já estavam íntimos. Estava naturalmente espontâneo e divertido, e aparentemente muito feliz, ao contrário da sua personalidade paranóica. Franka observou que o cineasta estava seguro de si ao lado da religiosa, como se o fato dela ser freira o confortasse. “Ele se sente protegido ao lado dela”, pensou a agente. Lembrou-se dos seus filmes, sempre pesados, densos, profundos, tão intensos e melancólicos. Mas ali, diante da irmã Claudina, nascia um novo Alex Fontes.
Franka entrou na conversa. A irmã Claudina contou que trabalhava e morava ali há anos, desde quando largara a missão. Fora interna por dez anos, mas saíra para cuidar de uma tia velhinha, que adoecera. Por causa dela, acabou ficando na Itália tanto tempo. Alex, atento, quis saber se a tal tia idosa ainda morava ali, naquela torre. “Nada como alguém que não sabe de nada para fazer as perguntas certas”, pensou a agente, satisfeita.
-Não... – disse irmã Claudina, entristecida – Aqui só mora o signore Roberto.
-Hã? Quem é signore Roberto? – perguntou Alex – É o seu tio, marido da tia?
-Não, Alex!– riu a moça – É o dono da torre! – explicou a freirinha, sorrindo candidamente para o cineasta – Essa torre era da minha tia, mas o signore Roberto agora é o proprietário.
Irmã Claudina debruçou-se sobre ele e contou, como se falasse um segredo.
-Titia morreu titia morreu aqui dentro e ninguém queria comprar a propriedade. Foi uma morte horrível. Ela sofreu muito.
A religiosa olhou para os dois e explicou melhor.
-As pessoas, aqui em San Geminiano, não gostam de lugares onde houveram mortes trágicas. Cada família deve ficar com sua morte, que, segundo eles, fica na propriedade para sempre – diante da cara confusa de Alex, ela explicou – Eles dizem que o local fica amaldiçoado, entende? Bem, quando titia morreu, eu passei um ano tentando vender esse lugar, mas ninguém queria.
-Puxa vida, Kroh... – disse Alex, interessado – E aí?
-Bem – explicou a freira – Depois de um ano chegou na cidade um homem misterioso.
-Misterioso? – perguntou Franka – Quem era?
A religiosa, que não foi com a cara de Franka desde o primeiro minuto, fingiu que não ouviu a pergunta. “O que um homem tão deslumbrante como Alex fazia com uma mulher tão chata?”, pensou a freira, implicante. “Que arrogância, que moça metida!”, pensou a freira.
Já Alex, embevecido de paixão, se deliciava em olhar para o plácido e tranqüilo rosto da moça. Pouco se importava com o que ela falava. E, justamente por causa disso, a moça contava tudo para ele. Tudo.
-Esse homem misterioso estava andando de cidade em cidade a procura de abrigo e amigos. Mas ninguém queria ajudá-lo.
-Nossa, coitado... – disse o cineasta – Mas porque ele era misterioso?
-Porque não tinha nenhum documento e ele mesmo não sabia quem era. Ele bateu na minha porta, eu abri e o recolhi. Estava sujo, cansado e doente, signore Alex. E eu cuidei dele... por diversos dias... Ele quase morreu.
-Quase? – perguntou Alex.
-Mas sarou, apesar das seqüelas – explicou a irmã Claudina, balançando a cabeça.
-Seqüelas? – Alex estava boquiaberto.
- Ficou cego, signore – a religiosa fechou os olhos, triste – Apesar dos meus esforços, ele ficou cego para sempre, coitado.
-Cego? – Alex tinha a voz trêmula quando as duas moças olharam para ele e viram que ele começava a chorar – Mas... É muito triste isso, irmã! Ele ficou cego, o pobre homem? Jura? Triste, triste – o cineasta limpava as lágrimas com a costa das mãos.
-Sim – falou irmã Claudina, conformada – Mas eu continuei a cuidar de dele. Mas eu não sabia, não sabia mesmo quem ele era! Cuidei dele como se ele fosse uma pessoa qualquer! Cuidei dele como se ele fosse apenas um homem que precisava de ajuda! Apenas isso, apenas isso – gritou freira, inflamada, ao ver que comovia o cineasta.
“Essa mulher não bate bem”, pensou a agente Franka, vendo toda a cena que a moça fazia. “Que coisa ridícula é essa?”. Teve vontade de rir, mas se calou. Alex desabafou, abraçando a freira subitamente.
-Ah! Você é maravilhosa, Claudina, ops, desculpe! Você é maravilhosa, Kroh... – falou o cineasta, emocionado – Eu nunca imaginei conhecer alguém assim! Maravilhosa!
-Obrigada, caro Alex – disse a freira, embevecida – Mas eu ainda não acabei a história.
-Conte! – implorou o homem – Conte mais!
Irmã Claudina pigarreou.
-Bem, depois de algum tempo esse homem me disse que não era um mendigo qualquer. Contou que era um homem muito rico, e que ficou muito grato por eu tê-lo ajudado. Assim, ele comprou a torre, mas não me deixou ir embora. Estou aqui com ele desde então. Como ele não enxerga, precisa de alguém que cuide dele.
-Pobrezinho! Eu... eu poderia conversar com ele? – perguntou ingenuamente Alex, fungando o nariz.
-Não, não! – a freira deu um pulo pra trás – Ele não deixa, não gosta de visitas!
Franka achava aquilo cada vez mais estranho. Tentou novamente perguntar coisas para a religiosa, mas foi novamente cortada pela mulher. Assim sendo, levantou-se e chamou Alex. Não tinha paciência para ficar assistindo aquela cena patética daquele moço chorão galanteando aquela freira esquisita.
-Vamos embora, Alex. Já tomamos nosso café, está na hora de partir – olhou a religiosa – E muito obrigada, signora.
-Não, disse a mulher, não! – subitamente – Fiquem aqui! Eu nunca tenho com quem conversar! – ela olhou apaixonadamente para Alex.
Frank ficou nervosa e irritada com aquele tom de súplica. Foi rude com ela.
-A senhora deve ter muito o que rezar... – disse Franka, brava – Rezar, rezar é sempre necessário, não é Alex? – completou, olhando cinicamente para o cineasta.
Assim, puxou o homem para fora dali, sob protestos dele e da irmã Claudina. Quando alcançaram a rua, o homem virou-se para ela, bravo.
-Mas que falta de educação, Franka! Uma moça tão gentil! – explodiu Alex Fontes.
-Gentil uma ova! – gritou Franka, irritada – Uma freira fingida!
-Nossa, que grossa que você é!Nem agradeceu direito! – Alex tentava argumentar em favor da moça.
A agente secreta explodiu com ele. Além de atrapalhar tudo, ele ainda ia dar bronca nela?
-E quem você pensa que é, senhor Alex Fontes? Me segue, entra no meu carro, me assusta e fica descaradamente passando uma cantada numa freira assanhada na minha frente, e ainda me dá uma bronca? – Franka berrava em plena rua – Ora, que droga! Dá licença, Alex. Estou cheia de você. Cheia! – Foi definitiva – Arrume outro modo de voltar para Montalcino! Adeus!
E saiu andando sozinha, batendo os pés e bufando em direção a Range Rover do Conde. O cineasta, desesperado, corria atrás dela, tentando explicar.
-Frank, pare! Eu não estava interessado nela, é mentira!
-Seu calhorda! Cínico! – Franka nem olhava para trás.
-Hahaha! Você está com ciúme, Franka? - Ele começou a rir enquanto tentava alcançá-la – Está com ciúme de mim? Essa é boa!
-Ciúme? – Franka parou de repente, trombando de frente com ele – Ciúme de um psicopata como você? Hahaha! Essa é boa, ora bolas! Que coisa mais ridícula! Tenho mais o que fazer!
Enquanto os dois brigavam feito crianças pela rua, ouviram um barulho muito alto. Franka e Alex pararam de falar de repente. O que seria quilo? Parecia um barulho de bomba ou rojão. Ou seria um trovão? No mesmo instante, Franka avistou de longe uma cena fantástica.
A enorme montanha ao lado da cidade era, na verdade um vulcão que começava a entrar em erupção exatamente naquele instante. Que coisa fantástica, maravilhosa e assustadora, pensou a moça. O chão tremia, e os dois perceberam que todas as pessoas da cidade, desesperadas, corriam para os locais mais altos para abrigarem-se.
Era o caos. Franka e Alex esqueceram-se da briga e começaram a correr, aflitos. Mas para onde?
-Para a torre de Pierre Cardino, Franka! – gritou Alex – E nós conhecemos outro lugar aqui? Corra! Corra!
Franka tropeçou numa pedra do calçamento e caiu no chão. Torceu o pé, não conseguia mais andar. Alex voltou e pegou-a no colo, e corajosamente a carregou até torre, no meio da multidão enfurecida, a salvo do pisoteamento e das pedras que voavam pelo céu. Franka pensou em pegar o carro do Conde e fugir dali, mas ele estava estacionado num local baixo, e provavelmente seria soterrado pela lava vulcânica.
O pó que vinha do vulcão entrava pelas narinas e secava os olhos dos dois. Mas como a região sofria de problemas com o vulcão há milênios, as paredes da torre eram a prova de pó e as janelas, modernizadas, eram vedadas com grossas borrachas. A irmã Claudina já estava na porta.
-Isso! Sabia que vocês iam voltar aqui, entrem, entrem! Já avisei até ao signore Roberto que desta vez ele terá que ceder, pois o vulcão está em erupção e você não terão onde ficar! Terão de ficar aqui hoje! Entrem! – disse a freira, parecendo até animada.
Alex colocou Franka no chão e olhou a mulher.
-Kroh, você é simplesmente deslumbrante! – falou o cineasta, derretido – Salvou nossa vida!
-Alex, eu estou feliz que o signore Roberto concordou! Sim, ele me disse que vocês podem dormir aqui! – a freira dava pulinhos de alegria – E ainda a senhora Franka está machucada!
-Dormir aqui? – Frank ficou aflita. Já tinha tirado a bota e massageava os pés – Mas temos que voltar para casa, estamos hospedados em Montalcino! E Alex, veja, não foi grave, meu pé já está bom!
A freira os empurrava para dentro.
-Nunca, nunca! Vejam, daqui a pouco escurece, e esse vulcão Benévolo é muito perigoso! De jeito nenhum! – decidiu irmã Claudina.
-Ora, Franka, pode ser bem interessante ficarmos aqui... – conjeturou Alex.
A agente secreta falou baixinho próximo do ouvido dele, depois que Irã Claudina saiu dali de perto.
-Seu cretino cínico! – disse Franka, furiosa – Você só podia ser amigo daquele Conde!
-Ora, que foi? – o cineasta estranhou – Que tem o Conde Ribolla a ver com isso? Estamos sendo socorridos de um erupção de um vulcão perigoso!
-Ela é freira! – falou Franka – Uma freira, senhor Alex Fontes! E é pecado pensar em dormir com ela!
-Euuu? Esta maluca? – o safado cineasta olhou para ela com um sorriso cínico – Mas, se você preferir, durmo com você, Franka! Hahaha!
-Ora, seu canalha! – a agente levantou para derrubar o homem, mas desequilibrou-se e caiu no chão.
Alex Fontes, rindo, a levantou. A freira voltou com cobertores e toalhas.
– Venham, venham, subam! – disse, animada, freirinha – Venham que mostrarei a nossa torre!
Os dois subiram atrás da moça, que parecia que rebolava para Alex dois degraus acima da escada. “Que mocinha mais sem vergonha”, pensou Franka, “já não se fazem freiras como antigamente”.
Depois de muitas voltas numa escada de madeira, chegaram aos aposentos da casa. A sala de estar era escura, porém arrumada e limpa. O ambiente era triste, talvez por ser habitado por um homem que não enxergava nada, um homem cego e triste.
Signore Roberto estava sentado numa cadeira, ao lado de um rádio, que supostamente dava notícias sobre a súbita erupção do vulcão Benevolo. Ao entrarem na sala, os dois viram um homem de costas.
-Signore, esses são os forasteiros que lhe falei. – Explicou irmã Claudina, arrastando-se cuidadosamente para o lado dele.
O homem se levantou e pigarreou. Se virou de frente para os dois e estendeu a mão para a Franka. A agente, ao olhar para o rosto do homem de óculos escuros, ficou estatelada e não conseguiu estender a mão. Quando reconheceu quem era aquele homem, Franka deu um berro de horror, como se estivesse vendo uma assombração.
E estava.
Aquele homem era Bob D´elboux, o falecido marido de Bê La Bressiani.

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