A agente Franka é hipnotizada
A bela Bê entrou correndo no restaurante quando soube que a amiga já tinha chegado.
- Franka, eu me atrasei! Você está me esperando há muito tempo?
- Não, só uns dez minutos, fiquei conversando com Onil. Ele saiu agora pouco para dar ordens aos seus cozinheiros. Nossa... Que houve com ele, Bê? Que mudança! Aquele homem arrogante e prepotente, onde foi parar? Ele está gentilíssimo!
Bê deu uma gargalhada.
- Ora, Franka, as pessoas mudam! Basta perderem o trono que as coisas mudam de figura. Ele é ótimo e trabalha para burro – contou a moça.
- Soube que o “médico” está aqui também. É verdade, sua louca?
- Sim. Mora no quarto dos fundos, e tem trabalhado na casa de JR. Parece que o nosso colega ator está financiando algumas pesquisas.
- Hummm... – estranhou Franka.
- Que cara é essa, Franka?
- É que... bem, deixa para lá...
- Fale – insistiu Bê –alguma coisa que eu não sei?
- É que... acho estranho você recolher esse homem e o Conde aqui. Fique de olho nos dois. Isso pode ser perigoso para você – disse a agente, cautelosa.
Bê levantou-se e chamou Franka para subir no andar superior do restaurante. A casa onde ficava o “Bê La Mare” era um antigo sobrado do começo do século – um dos últimos da avenida da praia. O imóvel era tombado, e fora restaurado na sua totalidade por Bê. Além do térreo, onde ficavam o restaurante, o terraço, o bar e cozinha, a casa tinha mais dois andares: o superior, onde ficava o escritório e a despensa e um sótão que Bê mobiliou como uma sala de estar. Era ali que as duas pretendiam se encontrar dali em diante, para tramar e resolver os compromissos secretos. A sala da Ancus.
- Ficou ótimo, Bê! – declarou Franka – P. Etteê virá jantar aqui na semana que vem. Ele te ligou?
- Ligou. Ai... Estou em pânico, não sei o que fazer. Estou sem estoque de cabritos, não sei por onde andam esses animais! Impossível comprar, puft, acabaram todos. Dok até me ofereceu o Sementim.
- Hã? Você vai assar o cabrito do médico para... o nosso P. Etteê? Tá louca?
- Hahaha! Não, Franka! – Exclamou Bê sorrindo – Mas diga. Qual é o motivo dessa nossa reunião, marcada tão às pressas?
Franka sentou-se e suspirou fundo.
- Acho que você vai ter que me substituir, Bê.
- Quê? – exclamou Bê, dando um pulo – Que houve?
- Bê, minha amiga... não estou em condições.
- SantoDeus, Franka, como assim?
Franka passou a falar baixinho.
- Problemas, Bê. Acho que vou consultar um psiquiatra. Ou um pai de santo...
- Que foi?
- Sonambulismo.
- Hã? – estranhou Bê – Sonambulismo?
- É. Ou isso, ou...
- Ou...
- Ou eu pirei de vez – a agente suspirou e começou a contar devagar – olha, Bê, de uns tempos para cá, tenho tido uns lapsos de memória. É como se meus sonhos tivessem um tamanho maior que a realidade.
- Não estou entendendo nada – falou a dona do restaurante – você me parece normal...
- Agora sim. O problema são nas horas que saio do ar, eu percebo que fiz coisas que não sei que fiz. Algumas pessoas me contam que me viram sair, que dirigi, que fui a lugares, que fiz e falei coisas. Semana passada fui vista dançando rumba com um italiano peludo. No final de semana me lembro de acordar num veleiro, mas estava enjoada, acabei tomando um remédio e acordei em casa. Minha empregada me disse que cheguei vestindo um biquíni e uma canga. Mas eu não me lembro de nada! Veja, ontem fui vista na Barra da Tijuca, na praia, no final da tarde. E eu não me lembro de nada, porém, quando fui olhar minhas roupas e minhas botas, elas estavam ensopadas e cheias de areia. Eu nadei de roupa? Como? Porque? Não sei explicar muito, mas algo muito estranho acontece, Bê!
- Nossa – falou Bê, preocupada – Será que você foi enfeitiçada? Dopada?
- Enfeitiçada eu não sei... talvez hipnotizada, Bê.
- Hipnotizada? Mas por quem? Quando? Como? Quem te viu na praia ontem, por exemplo?
- Onil – falou Franka.
- Hã? Onil?
- Ele disse que me viu, e me ligou ontem a noite para saber o que eu e JR fazíamos juntos. Disse que eu estava estranha, que não respondia direito às suas perguntas. Com JR! E agora ele acabou de confirmar, quando cheguei aqui. Disse que eu vestia roupas de couro e que JR parecia um pirata, com um lenço na cabeça. Nós dois, segundo ele, estávamos bêbados – Franka parou de falar e olhou para Agnes – Vê? Impossível, você terá que me ajudar. Você tomará conta de tudo. Eu vou a um médico.
- Franka, que coisa mais estranha... – disse Bê- Agnes, intrigada.
Nesse instante as suas pararam de falar, pois ouviram um estranho barulho. Pareciam copos se quebrando na cozinha. Bê fez uma cara de tristeza e suspirou. A agente Franka segurou nas mãos da amiga.
- Vou embora já. Olhe, uma semana. Vou descansar uma semana. Mandarei por e-mail uma lista do que você precisa fazer para me ajudar, Agnes. Estarei em casa, qualquer coisa você me liga. – falou Franka, levantando-se e colocando a mochila nas costas e saindo dali rapidamente,
Bê ficou sentada no sótão, vendo a amiga sair. Seria a primeira vez que agiria sozinha. Sim, Franka estava abatida, estranha, confusa. Que bagunça que tudo se tornou de repente. O que estaria acontecendo com ela, com tudo, com todos? Sonambulismo? Hipnose? Franka na Barra do Tijuca com JR? Era estranho demais.
Mas o urgente era o jantar, e Bê levantou-se, suspirou e foi até a cozinha, checar o que tinha se quebrado.
Missivas de Dok IV
|