A Lista do Moreirão
Carmutcha sentou-se apressada na mesa do café da manhã da saleta dos aposentos de Bêah e Charles.
-Oi Bêah. Posso tomar um café aqui com você? Pelo menos aqui posso ficar em paz. Está a maior bagunça na sala de refeições. Preciso respirar um pouco.
-Claro. Acho que já chegou todo mundo que veio com a Francis, não? – falou a lolita francesa, distraída – Eu já contei, chegou todo mundo. E levei cada um para o seu quarto.
-Sim. Tudo deu certo. Alguém reclamou da divisão dos quartos, Bêah? – perguntou a secretária assistente, sempre atenta.
-Não, estão todos muitos felizes, chère Ucha! Todos! E conheci quase todas as mulheres, são ótimas! Divertidas! – disse a mocinha que cada vez ficava mais mocinha, passando geléia numa torrada.
A secretária recostou-se na cadeira e largou os braços para os lados, com um gesto cansado.
-Olhe... Não são nem dez horas da manhã e eu já estou exausta! – falou Carmutcha, apressada – Ufa!... Bêah, pode me passar o café?
Bêah não me mexeu, distraída, ainda passando geléia na torradinha, no mundo da lua. Carmutcha olhou novamente para ela e falou um pouco mais alto.
-Bêah. Bêah, você não está me ouvindo?
-Oi? Como? – respondeu a moça, avoada – Hã? O que foi, Carmutcha? Falou comigo?
-Estou pedindo que você me passe o café – Carmutcha apontou para o bule – Não ouviu?
Bêah sorriu para a amiga.
-Não, Ucha... Não ouvi...
-Bêah, você está estranha demais... O que houve? Dormiu mal? Se for isso, volte para o quarto e durma mais um pouco... Teremos uma festa daquelas hoje à noite, você precisa estar bem descansada!
A cara de Bêah demonstrava que ela tinha alguma coisa a falar. Carmutcha viu que a mocinha estava escondendo algum segredo. Aproximou sua cadeira da cadeira da dela.
-Ei. Que cara é essa, Bêah? O que houve?
Bêah olhou ao redor e cochichou baixinho, com uma cara de quem fez uma grande molecagem.
-Ucha... Você nem imagina.
Ucha sorriu. Provavelmente Bêah tivera uma noite maravilhosa de amor com Charles... como a noite do vinho, há anos atrás, uma noite tão memorável que todas as mulheres do palácios a invejaram. Carmutcha supôs que talvez “aquilo” tivesse acontecido de novo... será? As duas tomaram mais uns goles de café em silêncio.
-Fale, Bêah. Vamos...
A moça pigarreou e sorriu.
-Está bem... Ucha, ouça. Lembra-se daquele dia que o Conde nos disse para tomarmos “muito” cuidado com o amigo dele, o Moreirão? – Bêah aninhou-se mais perto da secretária assistente e continuou – Bem, desde aquele dia que eu estou intrigada... Ora, porque temos que tomar cuidado com ele? Naquele dia nós perguntamos ao Conde, mas ele não respondeu – a moça pensou um pouco e retomou a conversa – Ora, se esse homem fosse realmente perigoso ele nos falaria claramente... Ou chamaria a polícia... Bem, então intui que o homem deveria ter alguma coisa perigosa, mas que não poderíamos saber o que era.
A moça continuou, absorta. Carmutcha estava atônita com as conclusões de Bêah, pois também achara estranha a atitude do Conde Ribolla.
-Bem, mas porque não poderíamos saber de mais nada sobre ele, chére Ucha? – ela sorriu candidamente - Ora, porque a coisa deveria ser perigosa para o Conde e seus amigos, e não para nós duas! ... Entende? Intuí que eles que tinham medo do Moreirão, por algum motivo! Bem, tudo ainda estava confuso na minha cabeça, até a hora que vi o Moreirão, ontem, na sala do chiqueirinho, quando fui socorrer o Alex do engasgo.
-Sim, sim, mas... – disse Carmutcha – Bem, continue.
Bêah pigarreou e continuou sussurrando.
-Você também viu, Ucha!... Aquele homem não parecia nada perigoso! Não tem cara de mau, não é estupidamente forte, nada. Nem ao menos me pareceu um... psicopata. É apenas um moço comum, com cara de tímido, um pouco desajeitado até.
-Sim, mas e daí?
A lolita francesa ficou em pé, animada com suas conclusões.
-Como “e daí”, Carmutcha? Como assim, não percebe? Foi aí que a coisa piorou na minha cabeça! Ter cuidado com ele por quê? Me pareceu inviável que ele fizesse mal a uma mulher... – ela fez uma cara sacana – Hum... Só se... Só se... – Bêah olhou a amiga e riu baixinho – só se ele... Fosse assim... Muito especial!
Carmutcha deu um pulo e quase se engasgou com o café quente.
-O quê? Bêah, você não...
-Sim! – a menina sorriu, fechando os olhos, satisfeita – Sim! Sim! Sim!
-Bêah, o que você fez? – a secretária estava brava com a menina – você não... não...
-Sim, sim, sim! – A mocinha rodopiava pela sala, de olhos fechados, sonhando. Parou e olhou para a secretária – Carmutcha, não me julgue, por favor! Eu vou te contar tudo, mas é um segredo! Um segredo nosso, hein? – a menina lolita abaixou a voz – E escute, tenho um plano, vamos ganhar dinheiro, muito dinheiro juntas nessa festa, se você me ajudar!
-Como? Dinheiro?
Bêah foi até a porta e trancou com a chave. Parou na frente de Carmutcha, em pé, tirou a blusa e virou-se, mostrando as costas. A secretária assistente do Conde deu um pulo da cadeira ao ver o corpo da lolita francesa.
-Nossa, mas o que é isso?
O corpo da moça estava totalmente rabiscado com uma estranha tinta preta. Eram símbolos, letras caprichadas, mas era impossível entender o que estava escrito ali. Um código? Frases? Um texto? Uma mensagem? Carmutcha tentava entender, mas estava confusa.
-Mas Bêah, o que é isso?
-Ah, chère Ucha... você nem imagina “como” ele escreveu tudo isso ai...
A secretária engasgou.
-“Ele”?
-Moreirão, ué! – disse Bêah, de olhos fechados, sonhadora – Mo-rei-rão!
-Mas... – Carmutcha não sabia o que falar – Mas... o que...
-Olhe – disse Bêah, colocando a blusa novamente – Ontem, eu esperei que todos fossem dormir e fui ao quarto dele. Bem, você sabe que eu tenho todas as chaves. Entrei e não disse uma palavra. – parou e explicou para Carmutcha – Sabe? Eu precisava saber porque ele era perigoso.
-Nossa, Bêah... você é maluca...
-Bem, entrei e me sentei na frente dele. Ele também não disse nada. Ele quase não fala, o Moreirão. É fantástico isso – a moça cochichava, animada – Bem, ele me olhou rapidamente, logo se levantou e pegou as cordas.
-Cordas? Nossa!
-Sim, cordas... A mala dele é cheia de cordas, saiba. Cordas e... ah, você vai ver...!
-E ai....? Conta!
-E ai? Ora, Ucha, entre as cordas e as letras é que está o segredo do Moreirão! Hahaha! Esse Conde acha que somos bobas! Ele quis nos meter medo para evitar que soubéssemos quem é o homem! O homem é uma potência! Uma mágica! Nossa, chère Ucha! Você não pode imaginar! É indecoroso!
-Mas ele é... naturalmente assim? Ou...
-Não, não precisa tomar nada! Nadinha! – a mocinha começou a gargalhar – Hahaha! Essa é a graça! O Conde e seus amigos, todos uns bobões, são todos cheios de artimanhas para conquistar mulheres, veja que bobagem! – a moça mudou de tom - Ei, mas isso não é o mais importante. Veja, nós vamos ganhar uma graninha com ele. Nós duas. Você vai me ajudar.
-Eu? – Carmutcha estava confusa – Como assim?
Bêah explicou. O homem era realmente fantástico na cama. Era totalmente sem vergonha e indecente, e misturava isso tudo com literatura e romantismo. Bêah tentou explicar o que era inexplicável: o homem era depravado, imoral, intelectual, calado, obsceno e sensacional. Não haveria mulher no mundo que não pagasse por uma experiência daquela.
-Hã? Pagar?
-Sim! Ucha, você não imagina com o que ele escreve na gente!... Olhe, eu fiz uns cálculos... acho que 100 euros por 20 minutos é o mínimo que podemos cobrar pelo Moreirão. Bem, pelo menos foi isso que eu disse para elas, e todas toparam!
-Elas? Elas quem?... Bêah, eu... eu não estou entendendo... você vai... agenciar o Moreirão na festa?
-Não, só na festa não! – a mocinha tirou um papel dobrado do seu próprio decote – Veja, o primeiro horário é ao meio dia de hoje! Daqui a pouco! Vou cuidar dele enquanto ele ficar aqui!
-Hã? Como assim... “primeiro horário”? – perguntou Carmutcha, confusa.
-La Bressiani! Eu ia colocar você, mas a La Bressiani falou que pagava o dobro pelo primeiro horário – explicou melhor – é que depois ela vai estar ocupada demais com os cabritos, sabe? – respondeu Bêah, naturalmente.
-Quê? – Carmutcha estava boquiaberta – Você já vendeu as horas do Moreirão para as convidadas do Conde, sua louca?
-Sim! Hahaha! Mas fique tranqüila, que o segundo horário é seu. – olhou para Carmutcha – Ah, ai você vai entender!
A secretária tirou a lista da mão de Bêah e começou a ler, pasma.
-Mas Bêah... tem mais de trinta pessoas aqui!
-E daí? Para ele é pouco, até!
-Nossa... – Carmutcha olhou para Bêah e sorriu – Mas também tem homens!
-E o que tem? Para ter fome e querer saciar, basta ser humano, chère Ucha...
-Nossa, o ... !E o .... – a secretária assistente tapava a boca ao falar - Eu nunca imaginaria que eles...
-Hahaha! Imagina se o Conde, homofóbico como é, descobre! Vai ficar possesso, vai ter o maior ataque histérico!
-Não, Bêah, a gente nunca pode contar! Eles são muito amigos do Conde! Que escândalo que o Conde vai fazer!
-Hahaha! Deixa o Conde lá, chère, que nós duas faremos nossa festa aqui! – e Bêah olhou nos olhos da amiga – E olhe, pelas minhas contas, descontando o custo das camisinhas e dos acessórios, ganharemos ao menos uns três mil euros cada uma! Não é bom?
-O Moreirão topou? Não quer uma parte para ele?
-Não! Imagine! Ele faz isso tudo com um pé atrás, e adora! Chère Ucha, você não conhece o homem... quando for até lá, ao meio dia e meia, vai entender tudo... entre as letras e as cordas... ai está todo o segredo do homem...
A mocinha passou a falar mais baixinho.
-Sabe, ele me segredou que isso é um segredo de família – levantou a blusa de novo e mostrou o texto para Carmutcha de novo – Acho que essa aqui é a história da família dele! Dos ancestrais... vai ver que os “Moreirão” são uma família de libertinos! Ah, Ucha, vá ver, vá ver você mesma...! – disse a moça, animada – Que eu vou aumentar mais ainda essa “Lista do Moreirão”. Negócios... Vou aproveitar agora que os homens todos estão no jogo de futebol, está bem? Posso contar com você?
-Puxa vida – disse a secretária, olhando o papel nas suas mãos e as costas de Bêah – mas essa “Lista do Moreirão” é enorme, Bêah! ... veja, a Franka, a Lolô, a moça triatleta, a vidente, a moça de Honolulu, o .... uau! E veja! Até a Condessa? Você a encontrou?
-Não. Mas telefonei para ela... está na torre norte, fazendo fivelas. E ela... ela topou na hora! Hahaha!
As duas amigas começaram a rir, levantaram-se e saíram dali. O jogo de futebol ia começar, muita coisa tinha que ser organizada até a hora da festa. Carmutcha cochichou no ouvido de Bêah.
-O Moreirão vai jogar também?
-Claro – disse Bêah – ele adora futebol!
Bêah deixou a amiga e saiu. Carmutcha, atônita, encontrou Franka e La Bressiani no corredor.
-Olá – disse a secretária assistente – Posso ajuda-las?
-Estamos perdidas – disse Franka, sorrindo – Que lugar imenso!
As duas pediram a Carmutcha que as levasse ao jogo “zucca x pancia”, ou os carecas contra os barrigudos, que o conde organizara no campo junto ao jardim dos girassóis. Quando alcançaram a área externa, atrás dos muros, ouviu-se um grande barulho no céu. La Bressiani e Franka olharam para cima e olharam confusas para a secretária do conde.
-Que é isso? É alguém chegando de helicóptero? – indagou Franka.
-De avião? – Perguntou La Bressiani, vendo a fumaça no céu.
-Não – disse Carmutcha sorrindo – Vejam! – Ela apontou para o céu – é apenas aquele amigo de vocês que acabou de chegar... o Super G!
-Ah, é mesmo... Nossa, que susto! – disseram as duas, em uníssono.
O jogo já ia começar. Carmutcha deixou as moças e saiu dali, pensando no Moreirão e balançando a cabeça.
“Frankamente, mas essa Lista do Moreirão...”
A moça do Porsche cor de vinho
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