Missivas do Dok I
A fim de esclarecer o curioso espisódio de JR e Mme Katza, envio estas mal traçadas.
Idos de 1981. O velho membro da confraria do conde Ribolla, companheiro de aventuras e investimentos ilícitos, conhecido pela alcunha de Il Editore, encontra-se, na calada da noite, com Mário "Pé-de-valsa" Brando, galã e conquistador barato, presença freqüente nos bailes do cais 96.
O salão pára, silencioso, enquanto a sombria dupla avança entre os pares dançantes que lotam o inferninho. Madame Katza levanta-se calmamente e vai de encontro a eles.
O velho disco na pickup repete monotonamente o mesmo acorde - o dj da noite, absorto com a cena que se desenrola, não dá o habitual piparote no braço da pickup para que a agulha avance sobre o LP.
Il Editore não parece muito confortável em seus trajes de bailarino espanhol, mas Mário Brando, habitué desses encontros tardios, está em seu meio.
Madame Katza escolhe a dedo duas meninas para acompanhá-los. Com um gesto sutil, orienta os leões-de-chácara para que abram espaço no centro do sórdido salão. Um velho pirata banguela insinua-se para uma das meninas de Mme Katza, mas éprontamente imobilizado e afastado.
Algumas semanas antes, o conde convidara seus mais íntimos companheiros para uma de suas festas. Diversamente das anteriores, nesta ele pretendia prestar homenagem a um velho associado da Cataluña, Francisco Primo Rossi. Rossi era um famoso - e temido - contrabandista de espingardas de chumbo, as famosas Rossi, e descobrira uma alternativa às balas de chumbo para suas armas. O encontro deveria ocorrer no Castelo, onde já há muitos anos morava este que vos escreve. E o encontro festivo viria a calhar, pois o metal que Rossi pretendia usar, em substituição ao chumbo era, nada mais nada menos, o raro mercúrio. Anos de pesquisas o haviam levado à conclusão de que o mercúrio, ainda mais pesado que o chumbo, aumentaria drasticamente a eficiencia de suas armas mas, não podia deixar de ser, restava um impecílio: o excelente metal era líquido ! Apenas este velho Dok poderia achar uma resposta.
Para que as aparências fossem mentidas, era essencial emprestar à festa o caráter de baile dançante e, para justificar a presença em Montalcino da corte de capangas espanhóis, nada melhor do que um baile de danças espanholas.
Il Editore, diante da recepção discreta de Mme Katza, relaxa e parece sentir-se em casa. As meninas de Mme Katza são roliças, bronzeadas. Seus lábios carnudos escondem pérolas delicadas, só reveladas quando sorriem. Nunca ficou claro o poder de Mme Katza sobre suas meninas, ou como conseguia reunir, em uma espelunca imunda, tantas beldades.
As duas meninas, espanholas, claro, aproximam-se da dupla. Mona Dolores e Carmen Rubia encontram seus pares para a aula de dança. Mário Brando enlaça vigorosamente a cintura de Mona e dá um rodopio pelo salão. O acorde repetido ainda soa, mas Mme Katza fulmina o DJ que, embaraçado, escolhe outra música.
No salão silencioso, ouvem-se os primeiros acordes de uma rumba. Carmen Rubia volta-se para Il Editore, que cora. Homem destemido, incapaz de refugar uma luta, não estava em seu ambiente natural. Diversamente de seu amigo pé-de-valsa, não conseguia ao menos taborilar ao rítmo daquelas melodias calientes. Carmen percebe a timidez do poderoso homem. Cuidadosamente, enlaça seu troco peludo e o trás para perto de si. Então entrega a ele um par de castanholas.
O homem gela, pálido e sem reação. Suas mãos tremem e suam.
Mme Katza não costuma aceitar que seus pupilos refuguem suas gentilezas e, ainda assim, sussurra calmamente algo no ouvido do homem. Tomado de coragem, enlaça Rubia e tenta alguns passos no salão. Neste momento, ouvem-se os gritos do desdentado quando este retorna ao salão, trocando golpes com um marinheiro local, Lês Char. Rapidamente il Editore se desvencilha da espanhola e vai de encontro à única pessoas que, ali, o compreende. Kika Drake, livre de seu incoveniente acompanhante, o abraça sorridente.
Il Editore não desempenharia o melhor dos papeis no baile do conde, na semana seguinte, mas isso realmente deixara de ser importante.
Mario Brando não foi mais visto desde esta noite. Ouve-se por ai que tenha sido recrutado por Mme Katza para instruir as meninas nas artes da sedução e prevaricação. Ouve-se também que o bucaneiro conhecido como Jr ( Jawless Rufus ) está hoje a serviço de Mme Katza, que não consegue esquecer-se de il Editore e o persegue desesperadamente.
Seu, Dok
Missivas do Dok II
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