Missivas de Dok V (a quick one)
A bordo do Golden Hind, nada ia bem.
Após o seqüestro de Kika Drake, Mme Katza assumiu o timão, mas mesmo anos de vida a bordo não bastaram para gravar em sua mente os caminhos do mar.
A nau seguia a favor do vento por mera sorte. Não fosse a robusta construção arquitetada por Xela, não teria resistido à gale soprou ao cair da tarde.
O vento e a correnteza a levaram à mesma enseada onde na noite anterior aportara o Rajada.
Triste ironia, aquela.
A Nau encalhou não muito longe da costa e as meninas rapidamente fizeram-se ao mar e nadaram vigorosamente através da arrebentação. Alcançaram a praia exaustas.
Mme Katza ficou à bordo. Sua idade avançada não permitiria tamanho feito aquático.
Foi Beah, a muruja mais temerária do Golden Hill, quem primeiro avistou o saco.
Um saco, gente! Gritou Beáh. Um saco !
As meninas rodearam o misterioso saco, temerosas. Afinal, um saco que emitia gemidos e movia-se aos trambolhões pela areia. Abriram-no.
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Ele saiu do saco arrastando-se pelo chão. Ensopado, uma tosse rouca, olheiras, e um tremendo galo na testa.
Beah chamou Clice: "- Não é de todo mau! Vamos levá-lo a bordo. "
As meninas juntaram troncos, amarraram-nos com juta e o puseram para flutuar. Revesaram-se na tarefa de rebocar a jangada improvisada com o estranho.
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"Meu pupilo favorito! " exclamou Mme Katza ao vê-lo. Abraçou-o, beijou-o e o conduziu aos seus aposentos. As meninas entreolhavam-se surpresas. Quem seria o estranho ?
"Mon cherry", disse Katza. "oh! Mon cherry! Que fizerram a você ? "
Durante a noite, as meninas revesaram-se nos cuidados ao náufrago.
Caldo de canja, rum em taças delicadamente aquecidas, mimos e afagos para o preferido de Mme Katza.
Do inferno ao céu. Jamais imaginaria tamanha reviravolta mas, seria cedo ainda para comemorar ?
A rotina a bordo mudou naquela longa noite. As meninas preparavam o náufrago, excitavam-no, para em seguida Mme Katza tomar seu lugar no leito de sedas puras.
Exausto, o náufrago era reanimado pelas meninas, lavado com panos quentes e ungido em óleos libidinosos para novamente Mme Katza exaurí-lo.
Assim foi até o amanhecer.
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Kika começava a se impacientar. A farra a bordo do Rajada era divertida. Canções zombeteiras, piadas, bebedeiras e orgias, mas ela não se esquecera do Golden Hind. Sentia seu espaço tomado, seus movimentos tolhidos naquele cockpit imundo e apertado. Sentia falta da obediencia cega de suas meninas.
Pensou em tomar o Rajada, mas sozinha suas chances seriam reduzidas. Suas únicas horas tranqüilas eram os quartos noturnos. Apenas o vento e o murmurar da água.
A bordo, só poderia contar com Xela, mas este deprimira-se depois de sua breve aventura, e não parecia agora disposto a um enfrentamento.
Sua sorte começou a virar naquela noite. Em meio à farra, Yolkman notou que tinham apenas mais uma garrafa de Ribolla 6996. A tripulação parecia assombrada, e rapidamente votaram o retorno ao porto.
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O cais estava estranhamente calmo naquela madrugada.
Silenciosos, os tripulantes do Rajada desembarcaram um a um, seus sacos de roupas sujas nas costas, cansados, imundos.
Kika tomaria outro rumo ao desembarcar. Sabia bem onde procurar pistas de sua embarcação. Despediu-se dos companheiros de farra, não sem uma pontada de saudades. Beijou longamente cada um dos marinheiros. Já caminhava à beira do cais, quando Be a lembrou de vestir algo que cobrisse seus seios voluptuosos. A gargalhada cheia de Kika encheu a madrugada gelada, e despediram-se ali.
La Be fez duas chamadas e, alguns minutos mais tarde, acomodaram-se numa van de aluguel que os levou ao Be La Mare. Lá Be os acomodou em sua cozinha, e os marinheiros não se importaram realmente com isso. Sentiam-se acolhidos, e fartaram-se de vinho e frutos do mar. Quebraram copos e pratos para brindar, contaram piadas sujas e arrotaram. Apenas Dok percebeu a estranha movimentação no sótão de Be, mas reservou para si qualquer comentário. Aquele não era o momento certo e, qualquer que fossem as atividades de Be, ele a acolheria assim como ela o acolhera sempre.
Ninguém se deu conta da ausência de Franka. Certamente subira ao sótão com Be. Companheiras inseparáveis, não convinha interpor-se entre elas. Dok caminhou até seu lugar preferido na varanda do restaurante e observou a lua por-se no horizonte. Em poucas horas amanheceria, e havia muito o que fazer. Acendeu um longo Alonzo Menezes, encheu o ar com a fétida fumaça que tanto apreciava e recostou-se.
La Be chegou-se a ele suavemente, envolveu-o e sussurrou algo em seu ouvido. Dok sorriu satisfeito!
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Coisas do destino? Quem sabe?
Com um rangido oco o Golden Hind raspou seu costado contra os pneus que protegiam o cais 24.
Aida, uma das marinheiras de Kika, saltou da proa e, num único golpe, laçou o <> com as amarras.
Com as pernas bambas ainda, Rufus desceu a rampa, seguido de Mme Katza.
Bem que tentou caminhar para longe, mas Aida e Mme Katza o seguraram, carinhosas.
- Onde vaiss, meu tesourro ? Temos ainda muito o que fazerr, querrido.
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