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Home do Gallacci FAU USP turma de 1980 Literatura  Tres grandes amigos
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Tres grandes amigos


- Entendeu, Carmutcha? Quero que você encontre todos meus ex-colegas! – ordenou o Conde Ribolla, empurrando a mulher do seu colo.
- Sim, Conde... Amanhã cedo iniciarei as buscas... – a moça respondeu, insinuante.
- E onde está Isaura? São quase onze da noite! – o Conde exasperou-se – Céus, quando Isaura vai parar de distrair-se tanto? Nunca sabemos onde ela está!
Carmutcha abaixou-se e deu um longo e insinuante beijo na cabeça inclinada no Conde. Sorriu deixando o homem entrever os seus voluptuosos seios no interior do decote.
- Esqueça dona Isaura, meu Conde... que tal irmos para os meus aposentos...?
Conde Ribolla nunca gostou de delongas, e ouvir o pedido meloso da mulher o deixou irritado: quem dava as ordens era ele. Ignorou o pedido da secretária de modo estúpido e desconversou.
- Carmutcha, eu já disse! Onde está Isaura?
- Sim, senhor, vou encontrá-la – respondeu a moça, submissa, saindo da sala.
No dia seguinte, cedinho, Carmutcha sentou-se na sua sala, no subterrâneo do castelo e olhou a lista amarelada entregue pelo Conde. O homem lhe deu a instrução de encontrar todos os antigos amigos da faculdade, que não via há vinte anos. A festa aconteceria dali a dois meses, e ele se responsabilizaria por tudo: passagens, estadia, a festa e animação. Queria poder mostrar a todos que, embora ele estivesse distante do Brasil, era um homem vencedor.
Carmutcha começou a digitar todos os nomes em fichas. Ia ser um trabalho árduo, pensou, mas melhor começar logo, pois seu patrão era muito impaciente.
De todas as pessoas listadas, homens e mulheres, Carmutcha conhecia pouca gente. Vez ou outra o Conde contava histórias de algumas amigas brasileiras. Como se chamavam? Lembrou-se. “Franka, Maina Clara, La Bressiane, Raposita, sim... e havia ainda a Adiah, a Luciana...”. Como seriam essas moças?
Dos amigos do Conde, ela só conhecia dois. O homem tinha dois grandes colegas que sempre o visitavam nos períodos que ficava muito deprimido. Segundo ele, a vida em castelos de pedra, principalmente para homens nascidos em paises tropicais, causava um tipo de depressão que levava os moradores dos trópicos à loucura. Para evitar isso, o Conde anualmente chamava Alex Fontes e Rodrigues, seus melhores amigos da juventude, para grandes farras anuais no castelo de Montalcino no início do inverno.
Tais festas eram famosas pelos exageros, pelos excessos e pelas loucuras que os três faziam juntos. Eram festas de três dias e três noites ininterruptas, com muitas mulheres italianas peitudas, muito sexo, muitas drogas, rock´roll, comida e vinhos afrodisíacos.
Isaura, distraída como sempre, não percebia que verdadeiros bacanais ocorriam dentro da sua casa, e Carmutcha, a fiel escudeira do Conde, fechava os olhos (e ganhava muito dinheiro para mantê-los fechados). O único homem que tinha livre acesso à ala do castelo destinada às comemorações (chamada por eles de “chiqueirinho”) era o velho Charles, o grande beberrão e amigo francês do Conde.
Quando a festa acabava, Carmutcha sabia o que devia fazer: apagar todos os vestígios do que havia acontecido ali. O Conde, assim, alegrava-se e não entrava em depressão profunda até o ano seguinte.
Carmutcha conhecia esses dois amigos do Conde. Alex Fontes era cineasta e um homem solitário, macambúzio e jururu. Adorava as festas do Conde pois eram válvulas de escape para suas crises de melancolia, onde achava que estava sendo perseguido por mulheres cruéis. Nesses momentos, Alex, um homem talentosíssimo e muito famoso, passava a reclamar compulsivamente, insistindo que era alvo de calúnias, que diversas mulheres queriam denegrir a sua imagem. “É um complô que elas fazem, eu sei, eu sei, elas todas, eu sei...”, ele insistia nos momentos de crise, “elas fazem de propósito! Eu sei, eu vi, eu sei, eu vi, eu não disse isso, eu juro!”. Pobre homem. O Conde tinha muita pena de ver seu amigo Alex, um homem (na opinião do Conde) mais talentoso que Bergman, Truffaut, Bertollutti e Spielberg juntos, em tais momentos de crise. O Conde desculpava-se diante de todos dizendo que fazia as festas para Alex. “Pobre Alex”, dizia o cínico-safado Conde, eximindo-se da culpa de promover tais orgias no chiqueirinho. “Tenho medo que coisas piores aconteçam com ele, preciso distraí-lo!...”.
Mas no final quem mais aproveitava a viagem e a farra era Rodrigues. Rodrigues estudara arquitetura com o Conde, mas infiltrara-se no meio artístico e tornou-se ator de cinema. Era um dos rostos mais conhecidos do Brasil, campeão de número de capas da revista Caras (vencendo até da Regina Duarte e do Rodrigo Santoro em quantidade). Os filmes protagonizados por Rodrigues eram os filmes mais famosos e mais assistidos de todo o cinema nacional. Eram filmes policiais, onde Rodrigues era um detetive que investigava diversos crimes.
Rodrigues, que usava o nome artístico de J. R. Rodrigues JR, era um tipo de investigador, chamado Detetive Rangel. No início, os seus filmes, por serem muito populares, não eram levados a sério pela crítica. Mas o público (principalmente o público da classe “c”, o publico do interior do Brasil e o público feminino) maravilhou-se com o belíssimo homem. A série de filmes do Detetive Rangel, chamada “Arquivos XYZ” (até no nome a idéia não era lá muito original), fez um sucesso estrondoso no país nos últimos 10 anos, e Rodrigues tornou-se uma celebridade no país. Alguns filmes, como “As aventuras do detetive Rangel na obra de Gregório e Gregorinho”, “Detetive Rangel enfrenta Martha Tranca-Ruas”, “Roy Otake contra 00Rangel” e “As peripécias do detetive Rangel no Conjunto Residencial de Itaquera” foram sucesso em mais de 20 paises. O homem enriqueceu, ficou arqui-putz-muito milhardário e passou a ser convidado para fazer propagandas, fotos, bailes de debutantes ou apenas para ir a festas, sempre recebendo cachês milionários.
O único problema era que Rodrigues era um canastrão. Um grande e enorme canastrão. Não sabia e nunca soube representar. No início achou-se que com o tempo ele aprenderia, mas depois de alguns anos o diretor de “Arquivos XYZ”, Gui Whitaker, um ex-produtor e ex-ator de filmes pornô (figura marcada e perigosa no mercado filmográfico underground) desistiu de tentar tornar Rodrigues um astro-talentoso. Ele não se lembrava de nenhuma fala, de nenhum texto, não sabia expressar nenhum sentimento ou emoção a não ser exclamar “Oh, my Johnnie!” (referindo-se a Johnnie Walker, o homem do uísque mesmo), ou “Vamos lá, cara Takumi! É conosco!” (referindo-se a sua partner nos filmes, uma investigadora séria e misteriosa que, se não fez tanto sucesso como Rodrigues, chegou bem perto disso) e nunca fazia esforço algum para entender o enredo da história. No começo da carreira de Rodrigues, Gui surpreendeu-se ao ver que o ator era tão querido pelo público, pois ele mesmo não agüentava ver os filmes do detetive mais de uma vez. O público não. O público,sabe-se lá porque, amava J. R. Rodrigues e o seu detetive Rangel, que prendia (sempre de um modo ridículo, fazendo poses macacais) todos os bandidos perigosos e quadrilhas de assaltantes do país. Existia até um grupo de fãs fanáticas pelo Detetive Rangel, que queriam seqüestrá-lo para tê-lo só para si, das quais Rodrigues tinha que fugir dia e noite, chamadas (não se sabe porquê) “as passarinhas”.
Porém o sucesso não era tudo para ele. O sonho de Rodrigues sempre fora participar de filme de Alex, e, quem sabe, um dia chegar a Cannes. Mas o ator não tinha a menor noção das suas limitações: faltava-lhe o talento puro e simples. E isso era tudo que Alex queria para seus filmes: atores capazes e geniais, como Brando, como Paulo Autran, como De Niro. Nunca... J. R. Rodrigues JR!
Durante os últimos vinte anos Rodrigues insistia numa parceria e Alex desconversava. Alex Fontes, que vivia impaciente por causa do problema da mania de perseguição feminina, sentia que estava perto de perder o controle e falar a verdade para Rodrigues: que ele não tinha talento! Tal revelação seria um grande choque para Rodrigues e quiçá para o Detetive Rangel (Rodrigues também tinha dificuldades para aceitar a ficção – vez ou outra ele acreditava que ele era realmente um detetive defensor da lei). O Conde implorava ao colega cineasta que se contivesse e que nunca contasse ao amigo ator a sua verdadeira opinião sobre a atuação dele nos filmes. “Ele não vai suportar o choque, Alex!”, dizia o Conde, “é capaz de Rodrigues preferir a morte à ouvir essa crítica sua!”.
Achar Rodrigues e Alex Fontes fora fácil, mas Carmutcha tinha ainda muito trabalho pela frente naquele dia. Como a moça era esperta, acessou diversos sites de busca e muitos contatos no Brasil. No final da tarde já tinha quase todos telefones e e-mails. No dia seguinte, se tudo desse certo, ligaria para todos e iniciaria os convites. Mas talvez fosse melhor definir a data e o tema da festa com o Conde, para poder explicar melhor aos convidados.
Enquanto perdia-se em pensamentos, Carmutcha não percebeu a entrada de Elvys na sua sala de trabalho. O filho jovem do dr. Charles morava ali desde a chegada do médico, e assediava todas as mulheres do castelo. O rapaz tinha esse apelido (pois seu verdadeiro nome era Louis) por causa da enorme franja. Era inofensivo, mas Carmutcha ficava irritada ao vê-lo eternamente sob a mesa olhando suas pernas ou beliscando sua bunda nos corredores. A italiana enfurecia-se e berrava com o moço, que sempre saia sorrindo e gingando, feliz.
- Elvys! Ma que cosa! Saia daí! – berrou Carmutcha.
O mocinho sorriu.
- Então vamos ter festa, Carmutcha ma bella?
- Quem te contou? – perguntou a secretária, seca.
- Tia Isaura, ué! – o moço deu de ombros.
- Dona Isaura? E onde ela está, Elvys? Estamos todos atrás dela, onde ela está? Você a viu?
- Hahaha! Vi, claro! – o rapaz respondeu, arrogante.
- E onde está dona Isaura?
Elvys virou-se e saiu da sala, cantarolando e enfrentando a secretária.
- Hahaha! Não falo! Não falo!
Carmutcha respirou fundo e balançou a cabeça. Levantou-se e dirigiu-se a cozinha do palácio para organizar o almoço do Conde e do dr. Charles.

A dona do restaurante "La Bressiani"
Onde está Isaura?